Um cerco real, uma arma ligada ao pescoço e a América em directo

Crime em Direto  (Dead Man’s Wire) estreia a 23 de Fevereiro e recupera um dos casos mais perturbadores dos anos 70

Inspirado num dos cercos mais mediáticos da história recente dos Estados Unidos, Crime em Direto — título nacional de Dead Man’s Wire — chega aos cinemas portugueses a 23 de Fevereiro, trazendo para o grande ecrã um episódio real que, em 1977, deixou um país inteiro colado à televisão. Mais do que um simples thriller baseado em factos verídicos, o filme revisita um caso que expôs de forma brutal as falhas do sistema financeiro, judicial e mediático norte-americano.

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Gus Van Sant e o regresso ao cinema da tensão moral

A realização pertence a Gus Van Sant, duas vezes nomeado aos Óscares da Academia por O Bom Rebelde e Milk. Conhecido pela sua abordagem contida e profundamente humana, Van Sant evita o sensacionalismo fácil e constrói um filme centrado na tensão psicológica, no desgaste emocional e na ambiguidade moral de todas as partes envolvidas.

O argumento é assinado por Austin Kolodney, que opta por uma reconstrução rigorosa dos acontecimentos, privilegiando o impacto humano do cerco e as questões éticas que dele emergem, em vez de uma dramatização excessiva.

Bill Skarsgård no centro do impasse

No papel de Tony Kiritsis surge Bill Skarsgård, numa interpretação intensa e desconfortável de um homem comum levado ao limite. Skarsgård afasta-se aqui de registos mais estilizados e mergulha numa personagem marcada pelo desespero, pela frustração acumulada e pela sensação de abandono por parte das instituições.

Ao seu lado, Dacre Montgomery assume um papel fundamental na dinâmica do cerco, acrescentando tensão emocional e conflito humano à narrativa, enquanto Coleman Domingo se destaca como uma das figuras-chave do sistema — seja ele judicial, policial ou mediático — oferecendo uma presença sólida e moralmente complexa, como já se tornou habitual na sua carreira.

Um acto extremo transmitido para todo o país

A 8 de Fevereiro de 1977, Tony Kiritsis entrou no escritório de Richard Hall, presidente da Meridian Mortgage Company, e tomou-o como refém de forma tão engenhosa quanto aterradora: uma caçadeira presa ao próprio pescoço, ligada por um fio — o “dead man’s wire” — que garantiria a morte de ambos caso o gatilho fosse libertado. O que começou como um acto isolado de desespero rapidamente se transformou num cerco policial prolongado, transmitido em directo pelas televisões norte-americanas.

À medida que as negociações se arrastavam, o caso deixava de ser apenas uma situação de reféns para se tornar um espelho de problemas estruturais: práticas financeiras abusivas, desigualdade de poder e um sistema judicial incapaz de responder eficazmente a quem se sente encurralado.

Um filme que recusa respostas fáceis

Crime em Direto não procura absolver nem condenar de forma simplista. Pelo contrário, coloca o espectador perante uma pergunta incómoda e actual: quando a lei falha em proteger os mais vulneráveis, onde começa — e acaba — a responsabilidade individual?

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Um filme tenso, sóbrio e profundamente inquietante, que prova que, por vezes, a realidade consegue ser mais perturbadora do que qualquer ficção.

Dacre Montgomery afastou-se de Hollywood no auge de Stranger Things. Agora regressa nos seus próprios termos

Do estrelato súbito ao silêncio voluntário

Quando a segunda temporada de Stranger Things estreou em 2017, Dacre Montgomery tinha apenas 22 anos e via o seu nome espalhar-se a uma velocidade vertiginosa. A interpretação intensa de Billy Hargrove transformou-o num dos rostos mais comentados da série e num novo “vilão de culto” da cultura pop televisiva. Tudo indicava que Hollywood tinha encontrado mais uma estrela pronta a ser explorada até à exaustão. Mas Montgomery fez precisamente o contrário do esperado: saiu de cena.

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O actor australiano regressou a Perth, a sua cidade natal, e recusou praticamente todos os convites que lhe surgiram durante quase quatro anos. Um afastamento consciente, motivado por um desconforto profundo com a exposição súbita. Segundo o próprio, a fama trouxe uma fragilidade emocional para a qual não estava preparado, tornando necessário proteger-se antes que o sucesso o consumisse por completo.

Um telefonema inesperado de Gus Van Sant

Há nomes, porém, capazes de quebrar silêncios autoimpostos. Um deles é Gus Van Sant. Sete anos após o seu último filme, o realizador decidiu regressar com Dead Man’s Wire e escolheu Montgomery para um dos papéis principais, depois de ter visto — e ficado impressionado — com o famoso self-tape de audição do actor para Stranger Things, já lendário entre profissionais da indústria.

No filme, Montgomery contracena com Bill Skarsgård, num thriller inspirado num caso real de 1977, centrado no rapto de um poderoso banqueiro e no impasse mediático que se seguiu. Dead Man’s Wire estreia em salas seleccionadas e aposta num tom contido, desconfortável e deliberadamente provocador — características que o tornam um ponto de regresso simbólico para um actor que reaprendeu a ter paciência.

Um regresso feito de aprendizagem e limites

Trabalhar com Skarsgård revelou-se, para Montgomery, tão desafiante fora de cena como dentro dela. Conhecido pela sua intensidade quase obsessiva em preparação, o actor admite que tende a isolar-se durante as filmagens. O colega sueco forçou-o a quebrar essa barreira, lembrando-lhe que a acessibilidade emocional também faz parte do trabalho de actor. Uma lição inesperada, mas transformadora.

O afastamento de Hollywood permitiu-lhe redefinir prioridades. Longe do ruído mediático, Montgomery percebeu que não queria aceitar projectos por impulso, dinheiro ou visibilidade. Queria trabalhar com realizadores e personagens que justificassem o investimento pessoal total que coloca em cada papel. E isso mudou tudo.

O futuro longe da obsessão pela fama

Apesar do impacto que Stranger Things teve na sua vida, Montgomery olha para a série com gratidão e não com arrependimento, reconhecendo-a como um período formativo essencial. Ainda assim, deixa claro que a fama não é, nem nunca foi, o motor da sua carreira.

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Recentemente, deu outro passo decisivo ao concluir as filmagens da sua primeira longa-metragem como realizador, um projecto preparado ao longo de uma década. Para ele, cada trabalho é encarado como se fosse o último — uma filosofia radical, mas libertadora. Se um dia se retirar definitivamente, fá-lo-á em paz, sabendo que nunca esteve ali por vaidade, mas por entrega total.

Não encontrámos data de estreia de Dead Man’s Wire confirmada para Portugal, mas sabemos que vai passar no LEFFEST em Lisboa algures entre os dias 6 e 15 de Novembro em Lisboa,

O Motivo Surpreendente Que Levou o “Billy” de Stranger Things a Desaparecer de Hollywood

Dacre Montgomery revela por que decidiu afastar-se da fama e como as redes sociais mudaram para sempre o mundo das estrelas de cinema.

Dacre Montgomery tornou-se um dos rostos mais marcantes de Stranger Things quando interpretou Billy Hargrove nas segunda e terceira temporadas da popular série da Netflix. Com a sua presença intensa e carisma magnético em cena, o actor australiano de 30 anos parecia destinado a seguir o caminho de muitas estrelas que saltam de produções de sucesso para uma carreira meteórica em Hollywood. No entanto, optou por fazer exatamente o contrário: afastou-se dos holofotes.

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“As redes sociais destruíram o mistério”

Em entrevista ao jornal The Australian, Montgomery explicou o motivo do seu afastamento nos últimos cinco anos. “Acho que as coisas mudaram”, afirmou. “As estrelas tradicionais de Hollywood existiam porque havia mistério… As redes sociais destruíram isso. É em grande parte por isso que desapareci do mapa.”

O actor afirma não estar interessado em competir no ritmo frenético da indústria. “Não estou a tentar competir com ninguém. Estou a viver a minha verdade e espero conseguir pagar a renda enquanto faço isso”, declarou, revelando uma abordagem mais intimista e menos orientada pelo estrelato.

Privacidade e identidade artística

Montgomery confessou que a necessidade de recuperar a sua identidade como actor foi determinante para esta pausa. “Dediquei um pouco de mim a cada papel que interpretei e é em grande parte por isso que tirei um tempo”, explicou. “Ultimamente, tenho reflectido bastante sobre o que quero para a minha carreira. Estou a tentar ter um pouco mais de controlo sobre onde e no que estou a trabalhar.”

De Hawkins a Elvis Presley

O actor entrou em Stranger Things na segunda temporada, mas foi na terceira que o seu personagem ganhou maior destaque, acabando por ter um destino trágico no final. Para além da série, Montgomery também participou em projectos de relevo, como Steve Binder no filme Elvis (2022), protagonizado por Austin Butler, e como Ranger Vermelho no filme Power Rangers (2017).

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Apesar de não estar tão presente nos ecrãs nos últimos anos, o seu regresso ao grande ecrã ou a novas produções televisivas não está descartado — apenas será, segundo o próprio, feito de forma mais selectiva e ao seu próprio ritmo.