“‘Não é um argumento de outra pessoa. É nosso’: actores britânicos unem-se contra a fusão Paramount-WBD”

Benedict Cumberbatch, Alan Cumming e Benedict Wong assinam um artigo de opinião no The Guardian a pedir ao governo britânico que trave a fusão entre a Paramount e a Warner Bros. Discovery, avaliada em 111 mil milhões de dólares — a mesma operação que, nos Estados Unidos, já foi suspensa temporariamente por uma juíza federal na sequência de uma acção de doze procuradores-gerais estaduais.

O texto, publicado sob o título “A TV and cinema calamity could be disastrous for what you watch and what you know. Act now to stop that”, apela directamente a Lisa Nandy, secretária de Estado para a Cultura, Media e Desporto, para que intervenha ao abrigo do Enterprise Act de 2002. “Os actores são frequentemente aconselhados a manterem-se fora de argumentos legais”, escrevem os três. “Mas passámos as nossas vidas em plateaus britânicos suficientes, trabalhámos ao lado de equipas técnicas britânicas suficientes […] para sabermos que isto não é o argumento de outra pessoa. É nosso.”

A preocupação central do trio vai além do impacto directo na indústria de produção: é sobre concentração de meios de informação. A fusão juntaria sob o mesmo tecto o Channel 5, propriedade da Paramount, e a CNN e a CNN International, controladas pela Warner Bros. Discovery. “Se um único proprietário com interesses comerciais controla o acesso a ambos, controla a matéria-prima da nossa memória histórica”, argumentam. “Um único proprietário a controlar esta fatia das notícias — e da verdade — põe em risco o público de uma forma que uma consolidação normal não põe.”

Nandy já reconheceu, em declarações recentes ao Parlamento britânico, estar “inclinada a intervir” no processo. Fica por saber se o apelo de três dos nomes mais respeitados do cinema e televisão britânicos – Cumberbatch com “Sherlock” e o universo Marvel, Cumming com décadas de teatro e televisão premiada, Wong como um dos rostos mais reconhecíveis do cinema de género britânico recente — vai pesar na decisão final, mas o caso soma-se agora a uma frente de resistência que já atravessa dois continentes.

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Bryan Cranston e Joaquin Phoenix à frente da revolta contra megafusão em Hollywood

Uma aliança bilionária que está a incendiar a indústria do cinema

Hollywood está em ebulição. A proposta de aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramount Global, avaliada em cerca de 111 mil milhões de dólares, desencadeou uma onda de contestação sem precedentes dentro da indústria audiovisual norte-americana.

Mais de mil profissionais — entre actores, realizadores e argumentistas — assinaram uma carta aberta a criticar duramente o negócio, alertando para o impacto que a operação poderá ter no futuro do cinema, da televisão e das plataformas de streaming.

No centro desta contestação estão nomes de peso como Bryan Cranston e Joaquin Phoenix, a que se juntam ainda Tiffany Haddish e o realizador Yorgos Lanthimos.

“Menos oportunidades, menos diversidade, menos vozes”

Na carta, os signatários não poupam críticas. O documento alerta que a fusão poderá agravar um cenário já fragilizado, com menos produções, menos empregos e uma redução significativa da diversidade de histórias contadas em Hollywood.

A preocupação central é a crescente concentração de poder nas mãos de poucos conglomerados, que passam a controlar não só o financiamento, mas também a distribuição e o acesso ao público global. Para os críticos, este modelo pode transformar a indústria numa máquina cada vez mais homogénea, onde o risco criativo é substituído pela previsibilidade comercial.

A batalha do streaming e o novo mapa do entretenimento

A polémica surge num momento de transformação profunda no sector. A corrida entre estúdios tradicionais e plataformas digitais continua a redefinir o equilíbrio de forças em Hollywood, com a Netflix a surgir como um dos principais actores desta disputa — tendo, aliás, demonstrado interesse na aquisição da Warner antes da entrada da Paramount na operação.

Do lado da Paramount, David Ellison defende a fusão como uma forma de reforçar o cinema tradicional e competir em escala global. A promessa inclui manter uma produção anual robusta para salas de cinema, com pelo menos 30 estreias por ano, além de investimentos nas duas estruturas agora em causa.

Ellison argumenta ainda que uma eventual aquisição pela Netflix poderia criar um “superplayer” dominante no streaming, ainda mais concentrador do que o cenário actual.

O medo dos cinemas vazios

As preocupações não se limitam aos artistas. A indústria da exibição também está em alerta. Michael O’Leary, da Cinema United — organização que representa cerca de 30 mil salas nos Estados Unidos — já avisou que uma redução na produção de filmes pode acelerar o encerramento de cinemas, numa tendência que se tem agravado desde a pandemia.

Com menos estreias pensadas exclusivamente para salas, o circuito tradicional de exibição continua sob pressão, enquanto o streaming ganha terreno e redefine hábitos de consumo em todo o mundo.

Regulação, política e o futuro da fusão

A operação ainda terá de passar por um processo de aprovação regulatória. Na Califórnia, o procurador-geral Rob Bonta já sinalizou que o caso poderá ser alvo de análise detalhada, embora exista ceticismo quanto à possibilidade de intervenção mais dura a nível federal.

A carta dos artistas apela precisamente a esse escrutínio rigoroso, defendendo que a concentração mediática já teve impactos negativos profundos numa das indústrias mais influentes do mundo.

Um ponto de viragem para Hollywood?

A fusão entre a Paramount e a Warner insere-se numa tendência mais ampla de consolidação no sector do entretenimento, impulsionada pela necessidade de escala num mercado global cada vez mais competitivo.

Nos últimos anos, os grandes estúdios têm apostado em franquias seguras e blockbusters de alto retorno, deixando para segundo plano projectos mais arriscados ou autorais — precisamente o tipo de cinema que muitos dos signatários da carta defendem.

O resultado é um dilema cada vez mais evidente: como equilibrar sustentabilidade financeira, diversidade criativa e acesso do público num ecossistema dominado por poucos gigantes?

Se aprovada, esta fusão poderá redefinir o mapa de Hollywood. E, talvez, marcar o início de uma nova era — onde o poder criativo e o poder económico nunca estiveram tão próximos… nem tão em conflito.