Ano Novo, Filmes Novos: Duas Estreias Portuguesas para Começar 2025 com Cinema

Os Infanticidas e A Vida Luminosa inauguram o ano no TVCine Edition

Começar o ano com cinema português é mais do que uma boa resolução — é quase um acto de resistência cultural. No dia 1 de Janeiro, o TVCine Edition aposta forte no novo cinema nacional com a exibição de dois filmes portugueses recentes, assinados por dois realizadores que se estreiam na longa-metragem. Os Infanticidas e A Vida Luminosa formam a dupla Ano Novo, Filmes Novos, uma proposta que convida o espectador a reflectir sobre crescimento, identidade e o momento delicado em que deixamos de ser jovens… mesmo que ainda não saibamos bem o que é ser adulto.

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A sessão arranca às 18h30, prolongando-se pela noite dentro, numa programação que dá palco a duas obras muito diferentes no tom, mas unidas por um olhar atento às inquietações de uma geração em suspenso.

Os Infanticidas: crescer assusta mais do que parece

Primeira longa-metragem de Manuel Pureza, Os Infanticidas parte de uma promessa tão absurda quanto reveladora: dois amigos juram que, se um dia crescerem, acabam com a própria vida. A frase pode soar a bravata juvenil, mas funciona como ponto de partida para um retrato honesto, irónico e por vezes cruel sobre o fim da juventude.

Entre o pacto feito na adolescência e a chegada inevitável aos 30 anos, surgem os medos, as expectativas falhadas, os sonhos adiados e a constante sensação de que ninguém nos explicou realmente como se faz para ser adulto. O filme observa essa travessia com humor seco e uma melancolia muito portuguesa, lembrando que “somos todos heróis à meia-noite, mas cobardes às 9 da manhã”.

Sem respostas fáceis, Os Infanticidas questiona se crescer é sinónimo de compromisso ou apenas a continuação de um jogo em que fingimos saber o que estamos a fazer. Uma estreia segura e surpreendentemente madura para um realizador vindo do universo da comédia televisiva.

A Vida Luminosa: quando a vida começa a andar para a frente

Exibido às 19h55A Vida Luminosa acompanha Nicolau, um jovem de 24 anos preso entre o passado e um futuro que não consegue imaginar. Vive em casa dos pais, sonha ser músico, sobrevive com biscates e mantém-se emocionalmente refém de uma relação que terminou. Lisboa surge aqui não como postal turístico, mas como cenário íntimo de uma deriva silenciosa.

A mudança acontece quando Nicolau percebe que não está sozinho na insatisfação: também a mãe carrega frustrações e sonhos adiados. Esse choque não o paralisa — empurra-o para a frente. Um emprego numa papelaria, uma casa partilhada e novos encontros fazem com que a vida, lentamente, volte a mover-se.

Com um tom delicado e observacional, o filme constrói um retrato sensível sobre amadurecer sem dramatismos excessivos, mostrando que crescer nem sempre é cair — às vezes é simplesmente avançar, mesmo sem saber bem para onde.

Duas estreias, um mesmo retrato geracional

Apesar das diferenças de estilo, Os Infanticidas e A Vida Luminosa dialogam entre si. Ambos olham para personagens em transição, suspensas entre aquilo que imaginaram ser e aquilo que a vida lhes permite ser. São filmes sobre o medo de falhar, sobre a dificuldade em largar versões antigas de nós próprios e sobre o lento — e por vezes doloroso — processo de assumir escolhas.

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Para quem procura começar o ano longe dos blockbusters previsíveis, esta dupla é um excelente convite a pensar, sentir e reconhecer no ecrã pedaços muito familiares da vida real.

O Regresso de Henrique Galvão ao Cinema: “Palácio do Cidadão” Brilha em Cannes com Estreia Mundial 🎬🇵🇹

Filme português que mistura ficção e documentário estreia na prestigiada secção ACID e marca presença inédita

Henrique Galvão está de volta ao grande ecrã com Palácio do Cidadão, um filme que mistura o registo documental com a ficção para reflectir sobre os caminhos da utopia, os fantasmas do passado e as camadas (nem sempre visíveis) da sociedade portuguesa. E não o faz num palco qualquer: a estreia mundial acontece esta semana no prestigiado Festival de Cannes, inserido na secção ACID (Association du Cinéma Indépendant pour sa Diffusion), um espaço dedicado ao cinema independente com olhar autoral.

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A selecção é um feito de peso para o cinema nacional e confirma Henrique Galvão como um nome a seguir com atenção, sobretudo para quem aprecia obras que desafiam fronteiras narrativas e provocam o espectador com mais perguntas do que respostas.

Uma história dentro de um palácio… e muito além

Rodado no Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras, o filme coloca frente a frente três personagens que se cruzam com os ecos da História, da Revolução e da luta por uma nova forma de habitar o espaço público. Entre memórias revolucionárias e ruínas que já foram palco de ideias e convicções, Palácio do Cidadão convida-nos a entrar num lugar físico e simbólico, onde se misturam a herança do passado e os projectos do presente.

Henrique Galvão — que além de realizador, é também artista visual — conduz esta viagem com um olhar plástico, rigoroso e inquieto. O resultado é uma obra que não se encaixa em etiquetas fáceis, mas que se apresenta como uma proposta singular no panorama do cinema português contemporâneo.

O cinema português na secção ACID: um reconhecimento raro

A presença de Palácio do Cidadão em Cannes é particularmente significativa porque a secção ACID é conhecida por dar visibilidade a obras que arriscam, inovam e que, muitas vezes, não encontram espaço nas competições principais. Fundada em 1993 por realizadores franceses, a ACID destaca todos os anos cerca de nove filmes, escolhidos directamente por cineastas. A selecção de Galvão representa uma rara conquista para o cinema nacional nesta plataforma de prestígio.

Com uma carreira que passa também pela criação artística e pela reflexão crítica sobre o espaço urbano e social, Henrique Galvão oferece aqui uma peça que dialoga com o cinema, a memória e a utopia — sem nunca perder a dimensão humana dos seus protagonistas.

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