Cannes Invade o TVCine: Há Um Domingo Inteiro Dedicado ao Melhor Cinema de Autor

O brilho da Croisette vai chegar mais cedo a casa dos cinéfilos portugueses. Enquanto o mundo do cinema volta a olhar para o sul de França com mais uma edição do lendário Festival de Cannes, o TVCine Edition prepara uma verdadeira maratona cinematográfica dedicada ao espírito do mais prestigiado festival do mundo. No próximo dia 17 de Maio, a partir das 14h35, o canal exibe o especial “Um Domingo em Cannes”, uma selecção de cinco filmes que passaram por diferentes secções do festival e que prometem transformar o sofá numa espécie de mini Palais des Festivals. 

Mais do que uma simples programação temática, esta iniciativa funciona quase como uma carta de amor ao cinema de autor contemporâneo. Ao longo de décadas, Cannes tornou-se muito mais do que um desfile de estrelas e vestidos extravagantes na passadeira vermelha. O festival francês continua a ser uma das principais plataformas mundiais para descobrir novos realizadores, tendências cinematográficas e histórias capazes de desafiar o público, provocar discussão e redefinir a linguagem do cinema.

E o alinhamento escolhido pelo TVCine Edition mostra precisamente essa diversidade artística que fez de Cannes uma referência incontornável para qualquer amante da sétima arte.

Palestina, Taiwan, Paris, Londres e mundos virtuais

A viagem começa às 14h35 com A Uma Terra Desconhecida, segunda longa-metragem do realizador palestiniano Mahdi Fleifel. O filme, apresentado na Quinzena dos Realizadores de 2024, acompanha dois primos palestinianos presos numa realidade marcada pela sobrevivência, imigração e desespero. Em Atenas, tentam reunir dinheiro para fugir para a Alemanha, mas rapidamente mergulham num esquema perigoso que os obriga a explorar outros refugiados. Uma história dura, humana e profundamente actual.

Às 16h20 chega Locust, estreia em longa-metragem do realizador taiwanês-americano KEFF, exibida na Semana da Crítica em 2024. O thriller dramático acompanha um jovem dividido entre a vida familiar e o submundo criminoso de Taiwan, enquanto o país vive um período de tensão política influenciado pelos protestos de Hong Kong. O filme cruza violência, juventude marginalizada e corrupção social num retrato intenso e sombrio.

Mas um dos momentos mais curiosos da programação surge às 18h30 com Nouvelle Vague, o novo filme de Richard Linklater. Sim, o realizador de Boyhood e da trilogia Before decidiu mergulhar na história do cinema francês para recriar os bastidores do nascimento da revolucionária “Nouvelle Vague”. O filme acompanha um jovem Jean-Luc Godard durante a produção de O Acossado, mostrando como aquele grupo de cineastas franceses mudou para sempre a forma de fazer cinema. Para os verdadeiros cinéfilos, isto soa quase como pornografia cinematográfica — no melhor sentido possível.

Harris Dickinson estreia-se atrás das câmaras

À noite, o especial continua com um dos filmes mais comentados da recente edição de Cannes. Urchin – Pelas Ruas de Londres, exibido às 20h20, marca a estreia na realização de Harris Dickinson, actor que muitos conheceram em filmes como Triangle of Sadness ou The Iron Claw. O drama acompanha um jovem sem-abrigo e toxicodependente que tenta desesperadamente reconstruir a sua vida nas ruas de Londres.

O filme conquistou o prémio FIPRESCI da crítica internacional e também o prémio de melhor actor para Frank Dillane, algo que imediatamente chamou a atenção da imprensa especializada durante o festival. A crítica internacional destacou sobretudo a forma crua, mas profundamente humana, como Dickinson retrata exclusão social, dependência e vulnerabilidade emocional.

A fechar a maratona, às 22h00, chega Devorar a Noite, da dupla francesa Caroline Poggi e Jonathan Vinel. O filme mistura romance queer, thriller psicológico e obsessão digital numa história onde o mundo virtual se torna tão importante quanto a realidade. Entre videojogos online, relações intensas e destruição emocional, o filme explora a solidão e o desejo de pertença numa geração cada vez mais ligada a universos digitais.

Um festival dentro de casa

O especial “Um Domingo em Cannes” parece pensado precisamente para quem gosta daquele cinema que não aparece normalmente nos grandes multiplexes, mas que fica na memória durante dias. Histórias desconfortáveis, humanas, provocadoras e visualmente ousadas — exactamente o tipo de obras que Cannes costuma transformar em fenómenos cinéfilos.

E para quem ficar com vontade de continuar a viagem cinematográfica, o TVCine Edition já confirmou também o especial “Além Cannes”, nos dias 24 e 31 de Maio, dedicado a filmes premiados noutros festivais internacionais.

Resumindo: preparem as mantas, desliguem o cérebro de scrolling automático e entreguem-se a um domingo inteiro de cinema que quer fazer pensar, sentir e discutir o mundo. Porque às vezes o melhor bilhete para Cannes… é mesmo o comando da televisão.

🎬 Cannes 2025 Já Começou — Portugal em Competição, Gaza no Ecrã e Trump na Mira

O Festival de Cinema mais importante do mundo está oficialmente de volta — com cinema português, tensão geopolítica e polémica tarifária

Festival de Cannes arrancou esta segunda-feira, 13 de maio, e promete ser uma edição marcada por cinema de alto nível… e muita discussão fora do ecrã. A 78.ª edição do evento decorre até 24 de maio e já abriu com sinais claros de que o contexto político e cultural do mundo está a cruzar-se com a programação cinematográfica.

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Logo no primeiro dia, a cerimónia de abertura exibe “Partir un Jour”, a estreia em longa-metragem da realizadora francesa Amélie Bonnin, e três documentários dedicados à guerra na Ucrânia, numa homenagem ao trabalho de artistas e jornalistas que dão rosto ao conflito.

Estrelas, homenagens e uma passadeira vermelha muito política

Entre os nomes que já deram nas vistas na Croisette estão Robert De Niro, que será homenageado com uma Palma de Ouro de carreiraTom Cruise, que apresenta o novo Missão Impossível, e Quentin Tarantino, convidado para uma masterclass dedicada ao género western.

Mas o glamour não esconde a tensão: temas como o conflito em Gaza, a Ucrânia, e até a ameaça de tarifas protecionistas anunciadas por Donald Trump estão a marcar a conversa em torno do festival.

Portugal com forte presença em Cannes

O cinema português volta a marcar presença em várias frentes:

  • Na competição oficial de curtas-metragens, estão “A Solidão dos Lagartos”, de Inês Nunes, e “Arguments in Favor of Love”, de Gabriel Abrantes, que disputam a Palma de Ouro — prémio que em 2009 distinguiu João Salaviza com Arena.
  • Na secção Un Certain Regard, Pedro Pinho apresenta “O Riso e a Faca”, oito anos depois de ter exibido A Fábrica de Nada em Cannes. A nova longa, rodada em África, tem mais de três horas e conta com Sérgio CoragemCleo Diára e Jonathan Guilherme.
  • Também nesta secção está “Era uma vez em Gaza”, dos irmãos Arab e Tarzan Nasser, com coprodução portuguesa da Ukbar Filmes.
  • A curta-metragem de animação “O Pássaro de Dentro”, de Laura Anahory, integra a secção Cinéfondation (Cinef).
  • No programa paralelo ACID Cannes, estreia “Entroncamento”, de Pedro Cabeleira.

Um navegador português com sotaque mexicano

A coprodução luso-espanhola “Magalhães”, do filipino Lav Diaz, também integra a programação oficial. O filme foi parcialmente rodado em Portugal e tem Gael García Bernal no papel do navegador Fernão de Magalhães.

Competição oficial recheada de nomes grandes

Na principal competição estão obras de Wes Anderson (O Esquema Fenício), Kelly ReichardtSergei LoznitsaRichard LinklaterLynne Ramsayos irmãos Dardenne e Jafar Panahi. Também concorre “O Agente Secreto”, do brasileiro Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura e a atriz portuguesa Isabél Zuaa.

Fora de competição, destacam-se “La Disparition de Josef Mengele”, de Kirill Serebrennikov, e “Stories of Surrender”, de Bono (dos U2).

Juliette Binoche lidera o júri

A atriz francesa Juliette Binoche preside ao júri da competição oficial. O júri das curtas-metragens e da seleção Cinef é presidido por Maren Ade, com os prémios a serem anunciados, respetivamente, a 24 e 22 de maio.

Brasil em destaque no Mercado do Filme

Mercado do Filme, secção mais industrial do festival, tem o Brasil como país convidado. Duas coproduções com Portugal serão apresentadas:

  • “Maria, a rainha louca”, de Elza Cataldo, protagonizado por Maria de Medeiros, sobre a figura histórica de D. Maria I.
  • “Ana en passant”, longa de animação de Fernanda Salgado, coproduzida pela portuguesa Sardinha em Lata.

Trump, tarifas e um clima de incerteza

No meio do festival, um anúncio inesperado: Donald Trump declarou que pretende impor tarifas de 100% sobre filmes estrangeiros exibidos nos Estados Unidos. A intenção será proteger a produção norte-americana, que, segundo o ex-presidente, está a ser minada por incentivos de outros países.

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Casa Branca, contudo, já veio acalmar os ânimos, afirmando que ainda não há decisões definitivas, mas que a proposta está a ser analisada.