Quando o Cinema Enfrenta a Terra: A Savana e a Montanha abre “O Melhor de Portugal” no Montanha Pico Festival

Um filme que nasce do conflito real e se transforma em gesto colectivo

A comunidade de Covas do Barroso, no norte de Portugal, viveu um choque que mudou para sempre a sua relação com a terra. A descoberta de que a empresa britânica Savannah Resources planeava ali instalar a maior mina de lítio a céu aberto da Europa, praticamente à porta de casa, gerou um sobressalto que rapidamente se transformou em resistência. É dessa tensão, profundamente enraizada na realidade, que nasce A Savana e a Montanha, o mais recente filme de Paulo Carneiro, que abre a secção “O Melhor de Portugal” da 12.ª edição do Montanha Pico Festival.

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A sessão de abertura acontece na quinta-feira, 15 de Janeiro, às 21h00, no Auditório Municipal das Lajes do Pico, e promete ser um dos momentos mais marcantes desta edição do festival açoriano dedicado à cultura montanhosa.

Um documentário híbrido entre o real, o mítico e o cinematográfico

Paulo Carneiro define o filme como uma “reconstituição, reinvenção ou reinterpretação” dos acontecimentos vividos pela comunidade. Mas A Savana e a Montanha vai muito além do documentário clássico. Entre canções populares, encenações colectivas e referências visuais ao western, são os próprios habitantes que representam a sua luta, transformando a resistência num acto artístico e político ao mesmo tempo.

Este cruzamento entre cinema, teatro popular e memória colectiva confere ao filme uma identidade singular, onde o gesto cinematográfico não observa à distância, mas participa. O povo não é objecto do olhar da câmara: é autor, intérprete e força motriz da narrativa.

Um percurso internacional impressionante

Depois da estreia na Quinzena dos Realizadores de 2024, em França, A Savana e a Montanha iniciou um percurso internacional notável. O filme passou por dezenas de festivais e acumulou distinções em vários continentes, incluindo Menções Especiais em Melgaço e Valladolid, bem como prémios de público e de júri na Índia, Coreia do Sul, Timor-Leste e Turquia. Um reconhecimento que confirma a força universal de uma história profundamente local.

Este sucesso consolida a trajectória de Paulo Carneiro, que se estreou na longa-metragem com Bostofrio (2018), também exibido no Montanha Pico Festival, numa ligação afectiva que agora se renova.

“O Melhor de Portugal”: um retrato do cinema nacional recente

A secção “O Melhor de Portugal” é o grande foco desta edição do festival e reúne cinco obras estreadas nos últimos dois anos, escolhidas pelo director artístico Terry Costa com base no mérito criativo e impacto cultural. Além de A Savana e a Montanha, o público poderá ver Banzo de Margarida Cardoso, Grand TourO Teu Rosto Será o Último e Hanami.

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Até 29 de Janeiro, o Montanha Pico Festival espalha-se por três ecrãs da ilha do Pico, apresentando 35 obras — de curtas a longas-metragens — num programa que confirma o festival como um espaço singular de encontro entre cinema, território e identidade.

Montanha Pico Festival arranca com noite dedicada ao cinema feito nos Açores

A 12.ª edição do Montanha Pico Festival tem início esta quinta-feira, 8 de Janeiro, às 21h, no Auditório Municipal das Lajes do Pico, com uma sessão de abertura inteiramente dedicada a obras produzidas nos Açores. A iniciativa, promovida pela associação MiratecArts, volta a afirmar o festival como um dos principais espaços de exibição e reflexão cinematográfica no arquipélago.

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Segundo Terry Costa, director artístico da MiratecArts, esta edição reforça a ligação entre o cinema e o território. “São dez noites de cinema em três grandes ecrãs da nossa ilha”, sublinha, explicando que, para além das habituais sessões em cenários montanhosos ou ligadas à cultura da montanha, o festival passa também a destacar longas-metragens portuguesas de relevo. Ainda assim, a abertura mantém-se fiel ao espírito local, com um programa dedicado exclusivamente aos Açores.

A sessão inaugural reúne um conjunto diversificado de curtas-metragens que levam ao grande ecrã paisagens e histórias das ilhas do Pico, Faial, Corvo e São Miguel. O público poderá assistir a First Date, de Luís Filipe Borges, Calhau, de Paulo Abreu, ilhoa, de Margarida Saramago, Reviralha, de Sara Massa, e Reflexos, de Francisco Rosas.

O programa inclui ainda ainda (não) em casa, de Kateryna Kondratieva, um filme que aborda a experiência de mulheres ucranianas que, devido à guerra, encontraram nos Açores um novo lugar para viver. A noite fica completa com a exibição da média-longa Alice: Mulher Moderna, de Tiago Rosas, produzida pela Palco Ilusões.

Alice: Mulher Moderna é um documentário dedicado à vida e ao legado de Alice Moderno, uma das personalidades mais marcantes da história açoriana. O filme constrói-se como uma visita guiada pelos locais onde viveu e trabalhou, conduzida pelo Professor Teófilo Braga, e enriquecida pelos comentários das investigadoras Cristina Pimentel e Isolina Medeiros. A actriz Margarida Benevides dá voz aos textos e pensamentos de Alice Moderno, revelando uma mulher escritora, jornalista, empresária, feminista e republicana, num contexto histórico profundamente conservador.

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A sessão de abertura é aberta ao público e de entrada livre. O Montanha Pico Festival prossegue ao longo do mês, com sessões às quintas-feiras no Auditório Municipal das Lajes do Pico até 29 de Janeiro. Às terças-feiras, o festival passa pelo Auditório do Museu dos Baleeiros e, entre 23 e 25 de Janeiro, ocupa também o Auditório da Madalena. Mais informações estão disponíveis em www.picofestival.com e nas redes sociais da MiratecArts.

Karim Aïnouz e Albertina Carri: Convidados de Honra no Festival Cinelatino em Toulouse

O Festival Cinelatino, um dos mais importantes eventos dedicados ao cinema ibero-americano na Europa, regressa a Toulouse para a sua 37.ª edição, entre os dias 21 e 30 de março de 2024. Este ano, os realizadores Karim Aïnouz, do Brasil, e Albertina Carri, da Argentina, serão os convidados de honra, numa celebração da diversidade e inovação que definem o cinema desta região.

Karim Aïnouz: Uma Voz Global no Cinema Brasileiro

Karim Aïnouz, nascido em Fortaleza, Brasil, em 1966, é conhecido por criar obras profundamente emotivas e viscerais que exploram temas como identidade, memória e pertença. Com raízes brasileiras e argelinas, Aïnouz traz uma perspetiva única ao cinema, alternando entre produções nacionais e internacionais.

Entre os seus trabalhos mais recentes destaca-se “Motel Destino”, que competiu pela Palma de Ouro em Cannes em 2023, e “O Jogo da Rainha” (Firebrand), protagonizado por Jude Law e Alicia Vikander, também apresentado no mesmo festival. A sua longa-metragem de estreia, “Madame Satã” (2002), marcou o início de uma carreira aclamada, vencendo vários prémios internacionais.

Outro destaque da sua filmografia é “Marinheiro das Montanhas” (2021), um documentário profundamente pessoal que homenageia a memória do pai e reflete sobre as suas origens argelinas. Aïnouz continua a ser uma força inovadora no cinema contemporâneo, misturando histórias locais com apelos universais.

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Albertina Carri: Uma Cineasta que Rompe Barreiras

Albertina Carri, nascida em Buenos Aires, em 1973, é uma das figuras mais ousadas do cinema independente argentino. Conhecida por desafiar convenções e explorar temas marginais como sexo, pornografia e as dinâmicas familiares, Carri construiu uma filmografia provocadora e relevante.

A sua obra mais conhecida, “As Filhas do Fogo” (2018), venceu o prémio de Melhor Filme no Festival de Cinema Independente de Buenos Aires e é um exemplo do seu compromisso em abordar temas que muitas vezes são ignorados no cinema tradicional.

O documentário “Cuatreros” (2017) também se destacou, vencendo o prémio principal nos Premios Sur na sua categoria, consolidando a sua reputação como uma cineasta destemida e inovadora.

Uma Retrospectiva e Muito Mais

Durante o Cinelatino, o público terá a oportunidade de explorar a filmografia de Aïnouz e Carri através de retrospetivas especialmente preparadas para o evento. Além disso, o festival apresenta uma programação rica e diversa, com 150 filmes entre longas e curtas-metragens, incluindo obras de realizadores indígenas, oferecendo uma visão abrangente das histórias e vozes da América Latina.

Uma Nova Casa para o Festival

Devido às obras na Cinemateca de Toulouse, o festival deste ano será realizado em várias salas de cinema da cidade, mas o espírito e a essência do evento permanecem intactos. Com onze filmes já selecionados para a competição oficial, o Cinelatino promete mais uma vez destacar o melhor do cinema ibero-americano.

Uma Celebração do Cinema Ibero-Americano

O Cinelatino é mais do que um festival; é uma plataforma que celebra as múltiplas identidades, tradições e inovações do cinema da América Latina. A homenagem a Karim Aïnouz e Albertina Carri reflete o compromisso do evento em destacar artistas que desafiam as convenções e expandem os horizontes do cinema.

Com uma programação vibrante e a presença de dois realizadores tão distintos, a edição de 2024 do Cinelatino promete ser uma experiência imperdível para os amantes da sétima arte.