De Rossellini a Fellini, de Visconti a Antonioni: um verdadeiro mapa da história do cinema
Nem todos os dias surge uma programação televisiva capaz de funcionar como aula de história do cinema em horário nobre. Entre 3 de Janeiro e 7 de Fevereiro, o TVCine Edition dedica as tardes e noites de sábado ao ciclo Anos de Ouro do Cinema Italiano, reunindo 43 filmes fundamentais que ajudaram a definir a linguagem cinematográfica do século XX — e que continuam a influenciar realizadores até hoje.
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Não se trata apenas de revisitar clássicos consagrados. Este ciclo funciona como um percurso coerente através de décadas de cinema italiano, desde o neorrealismo do pós-guerra até ao cinema moderno, político e existencial das décadas seguintes. É uma oportunidade rara de ver — ou rever — obras que resistem ao tempo e que continuam surpreendentemente actuais.
O neorrealismo como ponto de partida
O ciclo arranca com força máxima, mergulhando directamente no neorrealismo italiano, um movimento que nasceu das ruínas da Segunda Guerra Mundial e mudou para sempre a forma de filmar a realidade. Filmes como Roma, Cidade Aberta, Paisà ou Ladrões de Bicicletas mostram um cinema cru, humano e profundamente político, filmado nas ruas, com actores não profissionais e histórias centradas na sobrevivência, na dignidade e na solidariedade.
Roberto Rossellini e Vittorio De Sica surgem aqui como pilares absolutos de um cinema que recusou o espectáculo fácil para olhar de frente a pobreza, a opressão e as contradições de um país em reconstrução.
Fellini, Antonioni e o cinema da inquietação
À medida que o ciclo avança, o olhar italiano afasta-se da urgência social imediata e vira-se para o interior das personagens. Federico Fellini entra em cena com Os Inúteis, A Doce Vida e 8½, filmes que exploram o vazio existencial, a crise criativa e a decadência moral com uma mistura inconfundível de realismo, fantasia e autobiografia.
Michelangelo Antonioni aprofunda ainda mais essa introspecção com obras como A Aventura, A Noite, O Eclipse e O Deserto Vermelho, onde o silêncio, a arquitectura e os espaços vazios dizem tanto como os diálogos. São filmes exigentes, mas recompensadores, que transformaram o cinema moderno.
Visconti, Bertolucci e a política do desejo
O ciclo não ignora o cinema abertamente político e histórico. Luchino Visconti surge com obras que cruzam decadência aristocrática, luta de classes e desejo reprimido, enquanto Bernardo Bertolucci assina títulos como Antes da Revolução e O Conformista, verdadeiros retratos de uma Itália dividida entre ideologia, moral e conveniência.
Aqui, o cinema italiano afirma-se como espaço de debate político, reflexão histórica e questionamento profundo das estruturas de poder.
Dos anos 70 ao virar do século
O percurso estende-se até décadas mais recentes, com realizadores como Nanni Moretti, que fecha o ciclo com Abril e O Quarto do Filho, dois filmes onde o íntimo e o político se cruzam de forma subtil e profundamente humana. É uma prova clara de que o cinema italiano nunca deixou de se reinventar, mantendo uma forte ligação à realidade social e emocional do país.
Um ciclo para ver com tempo — e atenção
Mais do que uma maratona, Anos de Ouro do Cinema Italiano pede tempo, curiosidade e disponibilidade. Não é programação de consumo rápido. É cinema para ver, pensar e, muitas vezes, discutir depois. Um verdadeiro serviço público cinéfilo, raro na televisão generalista.
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📅 Anos de Ouro do Cinema Italiano — Destaques do Ciclo
(Todos os sábados, de 3 de Janeiro a 7 de Fevereiro, no TVCine Edition)
Neorrealismo e Pós-Guerra
- Roma, Cidade Aberta (1945) – Roberto Rossellini
- Paisà (1946) – Roberto Rossellini
- Ladrões de Bicicletas (1948) – Vittorio De Sica
- Alemanha, Ano Zero (1948) – Roberto Rossellini
- A Terra Treme (1948) – Luchino Visconti
Os Mestres
- Os Inúteis (1953) – Federico Fellini
- A Doce Vida (1960) – Federico Fellini
- 8½ (1963) – Federico Fellini
- A Aventura (1960) – Michelangelo Antonioni
- A Noite (1961) – Michelangelo Antonioni
- O Eclipse (1962) – Michelangelo Antonioni
Cinema Político e Moderno
- Antes da Revolução (1964) – Bernardo Bertolucci
- O Conformista (1970) – Bernardo Bertolucci
- Violência e Paixão (1974) – Luchino Visconti
Encerramento do Ciclo
- Abril (1998) – Nanni Moretti
- O Quarto do Filho (2001) – Nanni Moretti
(Programação completa inclui 43 filmes e pode variar)
