O cinema francês perdeu um dos seus últimos grandes clássicos vivos. Jean-Paul Rappeneau, realizador de “Cyrano de Bergerac”, morreu na terça-feira, dia 2 de setembro, aos 94 anos, confirmou um dos seus filhos à imprensa francesa. Nascido a 8 de abril de 1932 em Auxerre, no centro de França, Rappeneau construiu uma carreira que atravessou mais de meio século de história do cinema, ainda que com uma produção deliberadamente escassa: apenas oito longas-metragens em cinquenta anos, cada uma delas tratada como um projeto de fôlego, quase artesanal, em vez de responder a uma lógica de produtividade.
Foi precisamente essa escolha de qualidade sobre quantidade que tornou “Cyrano de Bergerac” (1990) o momento definidor da sua carreira. A adaptação da peça de Edmond Rostand, com Gérard Depardieu no papel do poeta de nariz proeminente e coração ainda maior, tornou-se um fenómeno tanto crítico como comercial, arrecadando dez prémios César, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador para Rappeneau, e valendo a Depardieu uma nomeação para o Óscar de Melhor Ator, um feito raríssimo para uma interpretação inteiramente em francês.

O filme continua, mais de três décadas depois, a ser uma referência incontornável sempre que se discute a melhor adaptação cinematográfica alguma vez feita de uma peça de teatro francesa, e apresentou a gerações inteiras de espectadores fora de França a poesia de Rostand através da
mestria visual e do ritmo impecável de Rappeneau.Mas a carreira de Rappeneau começou muito antes, e não atrás da câmara. Nos anos 60, foi guionista antes de realizador, contribuindo para dois marcos da Nouvelle Vague e do cinema de aventura francês: assinou o guião de “Zazie no Metro”, de Louis Malle, e de “O Homem de Rio”, a comédia de aventuras de Philippe de Broca estrelada por Jean-Paul Belmondo, que se tornaria uma referência tão influente que Steven Spielberg citou-a como inspiração direta para “Os Salteadores da Arca Perdida”.
A sua estreia na realização veio com “A Vida no Castelo” (1966), uma comédia sobre a Resistência francesa que já revelava o seu gosto por narrativas de época contadas com leveza e ironia, uma marca que manteria ao longo de toda a carreira.Seguiram-se “Alegrias e Desgraças de um Casado no Ano II” (1971), outra parceria com Belmondo ambientada na Revolução Francesa, e “O Meu Homem é um Selvagem” (1975), antes de Rappeneau regressar em grande estilo com “Cyrano de Bergerac”. Cinco anos depois, voltaria a reunir-se com Juliette Binoche em “O Húsar no Telhado” (1995), adaptação do romance de Jean Giono ambientada numa epidemia de cólera no século XIX, um filme visualmente arrebatador que confirmou a sua reputação como um dos grandes cineastas de época do cinema francês.
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A sua última longa-metragem, “Belas Famílias”, chegaria já em 2015, encerrando uma carreira notavelmente consistente na sua raridade e ambição.Rappeneau pertencia a uma geração de realizadores franceses que souberam equilibrar ambição artística com apelo popular, algo cada vez mais raro num cinema europeu frequentemente polarizado entre autoralismo hermético e entretenimento comercial vazio. A sua morte fecha um capítulo importante do cinema de género histórico francês, numa altura em que poucos realizadores continuam a demonstrar o mesmo domínio da reconstituição de época sem sacrificar o ritmo e o humor que sempre caracterizaram o seu trabalho.
Vale notar que esta notícia chega com alguns dias de atraso em relação à data real do falecimento, mas a relevância da obra de Rappeneau, sobretudo de “Cyrano de Bergerac”, justifica a homenagem mesmo fora da janela habitual de atualidade que seguimos neste espaço.
