Angelina Jolie protagoniza o filme mais íntimo da carreira, e o assunto veio da própria vida

Angelina Jolie chama “Couture” ao único filme que, segundo ela, não lhe parece um filme. A frase explica-se quando se percebe o que a personagem atravessa e o que a atriz já atravessou na vida real. Realizado e escrito por Alice Winocour, no seu primeiro trabalho em inglês depois de “Proxima”, o drama estreou-se em Toronto no ano passado, passou por San Sebastián e Roma, saiu em França em Fevereiro e chega aos cinemas norte-americanos a 26 de Junho pela Vertical. A estreia portuguesa ainda não está marcada.

Jolie interpreta Maxine Walker, uma realizadora americana de cinema de terror independente, sofisticada e algo sombria, que é chamada a Paris para dirigir um projeto durante a Semana da Moda. No meio da azáfama dos desfiles, recebe um diagnóstico de cancro da mama. À volta dela cruzam-se outras duas mulheres que sustentam o filme como um mosaico de destinos, uma jovem modelo sul-sudanesa que entra pela primeira vez naquele mundo, interpretada pela estreante Anyier Anei, e uma maquilhadora que escreve umas memórias que lhe dizem não terem saída comercial, vivida por Ella Rumpf. Louis Garrel é o diretor de fotografia por quem Maxine se deixa envolver, Garance Marillier é a costureira e Vincent Lindon o médico que acompanha o caso.

O que separa “Couture” de tantos dramas sobre doença é a distância que o filme mantém do melodrama. Winocour escolhe um registo quase neorrealista, em que a moda continua a girar, indiferente, enquanto o chão se abre debaixo da protagonista. A crítica dividiu-se quanto ao conjunto, alguns acharam que as várias linhas narrativas não chegam a encaixar, mas há um ponto em que praticamente todos concordam, a interpretação de Jolie. O Screen Daily falou de uma força capaz de dobrar o filme à sua volta.

A razão dessa intensidade não é segredo. Jolie, hoje com cinquenta anos, fez uma mastectomia preventiva em 2013 depois de descobrir ser portadora da mutação BRCA1. A mãe, Marcheline Bertrand, morreu em 2007 de cancro do ovário e da mama, e a tia e a avó também morreram da doença. Para uma cena em que se sentia particularmente vulnerável, a atriz pediu para usar um colar que tinha sido da mãe. Não é todos os dias que o gesto privado de uma atriz entra desta forma dentro de uma personagem.

O filme funciona, por isso, em dois planos ao mesmo tempo. Há o retrato do mundo da moda, com a sua superfície brilhante e o seu vazio, e há a história de uma mulher que tem de continuar a trabalhar enquanto processa a notícia que mudou tudo. O divórcio em que Maxine também se encontra acrescenta peso a um percurso que já estava carregado. Winocour não tenta resolver a tensão entre os dois planos, e talvez seja esse o ponto, uma crise destas chega quando menos se espera, no meio de um dia de trabalho como outro qualquer.

Para o público português, “Couture” interessa por duas razões. A primeira é óbvia, Jolie continua a ser um dos nomes que mais mexem com a curiosidade do espectador, e este é um regresso a um papel de protagonista com substância dramática. A segunda é que se trata de um filme europeu, falado em francês e inglês, com uma realizadora que já provou saber filmar mulheres em situações limite. Quando chegar às salas cá, será dos títulos a vigiar.

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