O que acontece quando uma mega-estrela pop decide rir de si própria, da indústria que a rodeia e do circo mediático que ajudou a criar? A resposta chama-se The Moment — um falso documentário protagonizado por Charli XCX que está a provar ser tudo menos uma brincadeira passageira. Apresentado recentemente no Festival de Sundance, o filme tornou-se no lançamento limitado da A24 com vendas mais rápidas de sempre nos Estados Unidos.
De acordo com o estúdio, mais de 50 sessões esgotaram em tempo recorde nos chamados mercados estratégicos, com bilhetes a desaparecerem antes mesmo da estreia oficial. Para completar o fenómeno, uma sessão especial com perguntas e respostas, em Brooklyn, com Charli XCX e o realizador Aidan Zamiri, esgotou de imediato e viu os ingressos a serem revendidos online — algo raro para um filme de lançamento limitado e ainda sem distribuição alargada.
Uma diva fictícia… demasiado próxima da realidade
Em The Moment, Charli XCX interpreta uma versão exagerada e autoconsciente de si própria: uma “diva” controladora, obsessiva com detalhes e presa entre a vontade de evoluir artisticamente e a pressão constante para manter uma imagem rentável. O ponto de partida é simples e irónico: depois de dominar um verão inteiro, lançar um álbum multimilionário (Brat) e até influenciar dicionários a elegerem a palavra do ano, o que deve fazer uma estrela pop a seguir?
A resposta surge sob a forma de crise existencial, sátira mordaz e um olhar desconfortavelmente honesto sobre a fama contemporânea. A Charli do filme tenta afastar-se da estética “brat”, das tank tops justas e da atitude “IDGAF” que definiram 2024, mas encontra resistência precisamente onde menos queria: na máquina industrial que vive dessa persona.
Indústria vs. artista, com humor ácido
O elenco secundário reforça esta guerra de visões criativas. Hailey Benton Gates interpreta Celeste, a directora criativa da digressão, aliada na tentativa de mudança estética. Do outro lado da barricada estão a executiva da editora discográfica, vivida por Rosanna Arquette, e Johannes, um realizador egocêntrico contratado para supervisionar o filme da digressão, interpretado por Alexander Skarsgård.
O choque de egos e ideias transforma o planeamento da digressão num campo de batalha criativo: luzes estroboscópicas e mensagens directas dão lugar a pulseiras luminosas e a um palco que, segundo uma das personagens, “parece uma lâmpada de lava”. Pelo meio, surgem absurdos deliciosos, como uma campanha publicitária de um cartão de crédito dirigido a jovens queer ou uma fuga para um spa em Ibiza, símbolo máximo da alienação pop.
Críticos divididos, público rendido
A estreia em Sundance dividiu a crítica — como costuma acontecer com obras que brincam com o ego da indústria —, mas o público respondeu em força. Durante a sessão no festival, Charli XCX assumiu com humor a proximidade entre ficção e realidade:
“Gostaria de acreditar que não sou tão problemática como a Charli do filme”, brincou, arrancando gargalhadas.
O argumento, assinado por Bertie Brandes e pelo próprio Zamiri, assume conscientemente os arquétipos do clássico “artista contra a indústria”, algo que a cantora defendeu como realista: “Conheci versões de todas estas pessoas. Algumas torcem mesmo por ti; outras só querem estar perto do artista.”
De Spinal Tap à Berlim
O estilo de falso documentário deve muito a This Is Spinal Tap, influência assumida por Zamiri, que aproveitou a estreia para prestar homenagem a Rob Reiner, realizador do clássico de 1984.
Depois de Sundance, The Moment prepara-se para a estreia europeia na Festival de Berlim, que decorre de 12 a 22 de Fevereiro, levando consigo o estatuto de fenómeno inesperado. Para Charli XCX, o cinema surge também como uma tentativa consciente de se afastar da persona “brat” — ou, como a própria resumiu citando uma das suas canções: quando se ama algo, simplesmente faz-se, sem dormir nem parar.



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