Quando a galáxia muito, muito distante pareceu demasiado familiar
Quando Frank Herbert publicou Dune em 1965, criou algo que poucos romances de ficção científica tinham ousado antes: um universo político, religioso e social de tal forma denso que exigia glossários, árvores genealógicas e uma atenção quase académica por parte do leitor. Ambientada dezenas de milhares de anos no futuro, a saga de Duneapresentava um império galáctico governado por casas nobres, ordens místicas, profecias perigosas e uma substância central — a especiaria — essencial tanto para a expansão da consciência como para a navegação espacial.
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Durante anos, Dune foi um fenómeno sobretudo entre leitores dedicados, aqueles dispostos a mergulhar numa space opera complexa, filosófica e deliberadamente exigente. Em 1977, porém, o panorama da ficção científica no cinema mudou para sempre com a estreia de Star Wars: A New Hope. O impacto foi imediato e avassalador. Hollywood virou-se de repente para o espaço, os efeitos especiais tornaram-se prioridade e uma nova mitologia pop nasceu diante dos olhos do mundo.
Nem todos ficaram encantados.
“Isto soa-me demasiado familiar”
Na altura da estreia de Star Wars, Frank Herbert já tinha publicado Dune Messiah e Children of Dune, expandindo ainda mais o seu universo literário. Foi neste contexto que o autor deu uma entrevista onde deixou clara a sua irritação. Para Herbert, o filme de George Lucas não era apenas outra história espacial — parecia-lhe um conjunto de ideias demasiado próximas das suas.
Herbert chegou mesmo a ponderar avançar com um processo judicial. Numa entrevista de 1977, afirmou que tentaria “com afinco não processar”, mas não escondeu a suspeita de que Dune poderia estar na origem de várias semelhanças. Apontou, por exemplo, a coincidência entre os nomes Princesa Alia e Princesa Leia, a presença de desertos habitados por povos encapuzados e até restos de criaturas gigantes semelhantes aos vermes de areia de Arrakis.
O processo nunca avançou, mas a animosidade ficou no ar.

Lucas minimizou… e seguiu caminho
Questionado sobre as semelhanças, George Lucas foi seco: para ele, Star Wars e Dune tinham apenas uma coisa em comum — desertos. Lucas sempre foi transparente quanto às suas influências, citando repetidamente os serials de ficção científica como Flash Gordon, o cinema de Akira Kurosawa e até filmes de guerra britânicos dos anos 50. Duneraramente surgiu nas suas referências públicas.
Para muitos críticos, se houve influência, terá sido indirecta ou inconsciente. Dune já fazia parte do imaginário colectivo da ficção científica muito antes de 1977, e é plausível que algumas ideias tenham sido absorvidas sem intenção deliberada.
Afinal… as semelhanças existem?
Mesmo admitindo diferenças profundas de tom — Star Wars é uma fábula acessível e optimista, Dune uma tragédia política e religiosa —, as semelhanças estruturais são difíceis de ignorar. Ambas as histórias assentam em impérios galácticos, linhagens nobres, desertos hostis, forças místicas e protagonistas que se tornam peças centrais de profecias maiores do que eles próprios.
A comparação entre Leia e Alia é particularmente curiosa. Ambas são de sangue nobre, ambas irmãs dos heróis centrais das respectivas sagas e ambas sensíveis a forças extraordinárias: a Força, no caso de Leia; capacidades psíquicas induzidas pela Água da Vida, no caso de Alia.
Será isso suficiente para sustentar um processo judicial? Provavelmente não. Mas ajuda a perceber porque Frank Herbert sentiu que o seu território criativo estava a ser invadido.
Dois mitos, dois caminhos diferentes
O mais interessante é que, com o passar do tempo, Dune e Star Wars seguiram trajectórias muito distintas. Star Warstornou-se um fenómeno global, moldando gerações e definindo o blockbuster moderno. Dune, por seu lado, manteve-se como uma obra de culto respeitada, cuja influência se sente mais no cinema de autor e na ficção científica filosófica — algo bem visível nas adaptações recentes de Denis Villeneuve.
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Frank Herbert nunca processou George Lucas, mas nunca escondeu o desconforto. A sua reacção serve hoje como um lembrete curioso: mesmo na ficção científica, onde tudo parece possível, as ideias têm memória — e os seus criadores também.



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