Quando a maternidade se transforma num campo de batalha emocional: Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé chega aos cinemas

Há filmes que se instalam lentamente no espectador e outros que entram sem pedir licença. Se Eu Tivesse Pernas, Dava‑te um Pontapé pertence claramente ao segundo grupo. O novo filme da realizadora Mary Bronstein estreia-se nas salas portuguesas a 19 de Fevereiro, trazendo consigo um retrato implacável do esgotamento emocional, da ansiedade e das pressões invisíveis associadas à maternidade contemporânea.

Protagonizado por Rose Byrne, o filme apoia-se quase integralmente numa interpretação intensa e sem rede de segurança, capaz de sustentar um drama psicológico que oscila entre o thriller emocional, o humor negro e uma sensação constante de colapso iminente.

Uma vida em queda livre

Linda é terapeuta, mãe e uma mulher que tenta desesperadamente manter o controlo quando tudo à sua volta começa a ruir. A filha desenvolve uma doença misteriosa e resistente a tratamentos, o marido está emocionalmente — e fisicamente — ausente, uma paciente desaparece sem explicação e a própria saúde mental de Linda começa a deteriorar-se a um ritmo alarmante.

O filme acompanha esta descida progressiva com um olhar próximo, quase claustrofóbico, recusando explicações fáceis ou soluções reconfortantes. A câmara insiste no desgaste, na repetição, na exaustão acumulada — como se o espectador fosse obrigado a partilhar o mesmo fôlego curto da protagonista.

Drama psicológico com nervo de thriller

Mary Bronstein constrói o filme com um ritmo tenso e nervoso, mais próximo de um thriller psicológico do que de um drama convencional. Cada situação quotidiana é tratada como um potencial detonador emocional, e o humor negro surge não como alívio, mas como mecanismo de sobrevivência.

Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé fala de maternidade sem romantização, expondo as expectativas irreais, o isolamento silencioso e a culpa permanente que tantas vezes acompanham este papel. O resultado é um filme desconfortável, mas profundamente humano, que recusa suavizar a experiência feminina para consumo fácil.

Rose Byrne em estado de graça

O grande motor do filme é, sem dúvida, a prestação de Rose Byrne. A actriz — vencedora de um Globo de Ouro e nomeada para o ÓscarBAFTA e outros prémios de prestígio — entrega aqui uma das interpretações mais cruas e exigentes da sua carreira. A sua Linda é frágil, obsessiva, por vezes difícil de suportar, mas sempre reconhecível.

Esta performance valeu-lhe o Prémio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Berlim, consolidando o filme como uma das propostas mais intensas do cinema independente recente.

Uma estreia que não passa despercebida

Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé chega aos cinemas como uma experiência imersiva, desconfortável e absolutamente contemporânea. Um filme que não procura agradar, mas sim confrontar — e que encontra na honestidade emocional a sua maior força.

Para quem procura cinema desafiante, centrado em personagens complexas e disposto a explorar zonas emocionalmente difíceis, esta é uma estreia a não ignorar.

De A Coisa a Inception: 25 filmes entram no Registo Nacional de Cinema dos Estados Unidos

O cinema enquanto património cultural voltou a ser celebrado nos Estados Unidos com o anúncio da mais recente selecção do Registo Nacional de Cinema, iniciativa da Library of Congress que visa preservar obras consideradas essenciais para a memória colectiva do país. Este ano, 25 novos filmes foram escolhidos, elevando o total para 925 títulos, abrangendo mais de um século de História do cinema, desde o final do século XIX até à segunda década do século XXI.

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A decisão foi tornada pública a 29 de Janeiro, pelo National Film Preservation Board, e reflete uma selecção particularmente eclética: cinema mudo, clássicos de Hollywood, documentários, animação e filmes contemporâneos que, apesar da sua relativa juventude, já demonstraram um impacto cultural duradouro.

Entre os títulos agora consagrados encontram-se A Coisa, de John Carpenter, Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, e Inception, de Christopher Nolan — três obras muito diferentes entre si, mas unidas pela forma como moldaram o imaginário cinematográfico das últimas décadas.

Um século de cinema preservado

O arco temporal desta selecção é particularmente expressivo. O filme mais antigo incluído é The Tramp and the Dog(1896), enquanto o mais recente é O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson. Pelo meio, surgem obras que marcaram épocas, géneros e gerações, confirmando que a noção de “clássico” já não está limitada ao cinema do passado distante.

Entre os títulos mais reconhecidos pelo grande público estão Karate Kid – O Momento da VerdadeGloryPhiladelphiaAs Meninas de Beverly HillsO Show de Truman e Os Incríveis. Filmes que, apesar de recentes quando comparados com os primórdios do cinema, já provaram a sua relevância cultural e estética.

Seis filmes mudos e histórias recuperadas do esquecimento

Um dos aspectos mais sublinhados pela organização é a inclusão de seis filmes mudos, demonstrando um esforço contínuo de preservação dos primeiros anos da produção cinematográfica norte-americana. Segundo Jacqueline Stewart, presidente do conselho e rosto habitual da Turner Classic Movies, esta selecção “mostra a diversidade temática e estilística do cinema nos seus anos formativos”.

Entre estes títulos destaca-se The Tramp and the Dog, considerado perdido durante décadas e redescoberto apenas em 2021 na Biblioteca Nacional da Noruega. O filme tem ainda a particularidade de ser o primeiro comercialmente produzido em Chicago e incluir aquele que muitos historiadores consideram o primeiro exemplo de humor físico envolvendo… a perda de calças em cena.

Outros títulos mudos agora preservados incluem The Oath of the Sword, um dos primeiros exemplos conhecidos de cinema asiático-americano, The Maid of McMillan, considerado o mais antigo filme estudantil existente, The Lady, um melodrama realizado por Frank Borzage, e Sparrows, protagonizado por Mary Pickford, numa das suas interpretações mais elogiadas.

Autores modernos entram definitivamente no cânone

A lista de 2025 confirma também a consolidação de vários cineastas contemporâneos no cânone cultural norte-americano. Para além de Carpenter, Linklater e Nolan, surgem nomes como Amy Heckerling, com As Meninas de Beverly Hills, e Ken Burns, que entra pela primeira vez no Registo Nacional com um dos seus documentários históricos — um reconhecimento simbólico da importância do documentário enquanto forma de cinema.

Cinema como memória colectiva

Segundo Robert R. Newlen, “quando preservamos filmes, preservamos a cultura americana para as gerações futuras”. Uma ideia reforçada por representantes da indústria exibidora, que sublinham o papel das salas de cinema como espaços de memória social, descoberta e formação cultural.

Os 25 filmes agora escolhidos foram seleccionados a partir de quase 8.000 nomeações feitas pelo público, num processo que continua aberto a novas propostas. Qualquer filme com mais de dez anos pode ser nomeado até 15 de Agosto de 2026.

Para assinalar a selecção deste ano, a Turner Classic Movies vai emitir um especial televisivo a 19 de Março, com a exibição de vários dos filmes agora integrados no Registo Nacional.

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Entre o cinema mudo e os grandes filmes contemporâneos, esta lista lembra-nos de algo essencial: o cinema não é apenas entretenimento — é História, identidade e memória projectada em luz.

Brian De Palma prepara novo regresso a Hollywood com talento brasileiro — e filmagens em Portugal

Aos 85 anos, Brian De Palma não mostra qualquer intenção de abrandar. Pelo contrário: o realizador norte-americano prepara-se para regressar aos sets com Sweet Vengeance, um novo projecto que marca o seu retorno ao cinema internacional e que conta com a participação de dois nomes centrais do cinema brasileiro contemporâneo.

A informação foi confirmada pelo produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, durante uma mesa-redonda da Mostra de Cinema de Tiradentes dedicada à internacionalização do audiovisual brasileiro. Segundo Teixeira, Sweet Vengeance terá direcção de fotografia de Pedro Sotero e figurinos de Cláudia Kopke.

Talento brasileiro ao serviço de um mestre do cinema

Pedro Sotero é amplamente reconhecido pelo seu trabalho em Bacurau e Aquarius, ambos realizados por Kleber Mendonça Filho, bem como em títulos mais recentes como Propriedade (2022) e Baby (2024). A sua fotografia, marcada por uma atenção rigorosa ao espaço e à textura da imagem, tornou-se uma referência no cinema brasileiro contemporâneo.

Já Cláudia Kopke chega a este projecto depois de assinar os figurinos de filmes emblemáticos como Que Horas Ela Volta? e Ainda Estou Aqui, este último distinguido com o primeiro Óscar da história do cinema brasileiro. O seu trabalho é frequentemente elogiado pela forma como contribui para a construção psicológica das personagens, sem nunca se impor de forma gratuita.

Um regresso aguardado de Brian De Palma

Sweet Vengeance será o primeiro filme de Brian De Palma desde Domino – A Hora da Vingança (2019). O realizador é responsável por uma filmografia fundamental do cinema norte-americano, que inclui títulos como Carrie, a EstranhaVestida para MatarUm Tiro na NoiteO Duplo e Os Intocáveis — obras que continuam a influenciar cineastas e espectadores décadas depois da sua estreia.

Embora os detalhes do enredo permaneçam em segredo, sabe-se que o filme será inspirado em dois homicídios reais, o que sugere um regresso a um território mais sombrio e próximo do thriller psicológico, género onde De Palma sempre se moveu com particular mestria.

Filmagens em Portugal e ambições internacionais

As filmagens de Sweet Vengeance deverão arrancar em Maio, em Portugal, reforçando a crescente atractividade do país como palco de produções internacionais de grande escala. A escolha sublinha também a vocação cada vez mais global da RT Features, produtora que tem no seu currículo filmes como Chama‑me Pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino, e A Bruxa, de Robert Eggers.

Sem data de estreia definida e com o elenco ainda por anunciar, Sweet Vengeance começa desde já a gerar expectativa, não apenas pelo regresso de Brian De Palma, mas pela forma como cruza talento brasileiro, produção internacional e uma filmografia lendária que continua longe de dizer a última palavra.

Há imagens novas… e a imortalidade regressa: Henry Cavill assume o legado de Highlander

Quase quatro décadas depois de se tornar um clássico improvável da cultura pop, Highlander – O Guerreiro Imortalprepara-se para regressar ao grande ecrã — e as primeiras imagens oficiais do remake já começaram a circular. O responsável pela revelação foi o próprio Henry Cavill, que recorreu ao Instagram para mostrar um primeiro vislumbre da sua transformação no novo Connor MacLeod, o lendário guerreiro imortal que ficou eternamente associado a Christopher Lambert.

Ainda sem data oficial de estreia, o novo Highlander é realizado por Chad Stahelski, cineasta conhecido sobretudo pelo universo John Wick, o que desde logo levanta expectativas quanto ao tratamento da acção, do combate corpo-a-corpo e, claro, das inevitáveis decapitações.

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Cavill: do Super-Homem ao guerreiro imortal

Na legenda que acompanha as imagens, Cavill mostrou-se visivelmente entusiasmado com o projecto:

“Divirtam-se com esta primeira prévia de Highlander! Tem sido uma grande jornada para mim, que contarei quando chegar a altura certa. É um momento especial poder partilhar isto convosco.”

Depois de ter vestido a capa de Superman em O Homem de AçoBatman v Superman: Dawn of Justice e Liga da Justiça, Cavill regressa agora a um território que parece talhado à sua imagem: um herói físico, solene, marcado pelo peso do tempo e da violência — características que encaixam naturalmente no mito de Connor MacLeod.

O regresso de uma mitologia muito própria

Highlander original, realizado por Russell Mulcahy, contava a história de MacLeod, um guerreiro escocês do século XVI que descobre ser imortal e é treinado por Ramirez, também ele um imortal, interpretado por Sean Connery. A premissa era simples e absolutamente irresistível: guerreiros imortais espalhados pelo mundo enfrentam-se ao longo dos séculos, sabendo que “só pode haver um” — e que a única forma de morrer é pela decapitação.

No remake, o papel de Ramirez passa para Russell Crowe, numa escolha que promete dar uma nova gravidade à personagem. Já o antagonista principal será interpretado por Dave Bautista, actor que tem vindo a construir uma carreira curiosamente equilibrada entre o cinema de acção e projectos mais autorais.

Um elenco recheado… e ambições renovadas

Além de Cavill, Crowe e Bautista, o elenco inclui ainda Karen GillanDjimon HounsouMarisa Abela e Max Zhang. Um conjunto de nomes que sugere uma abordagem mais global e contemporânea ao universo Highlander, sem perder a sua essência mitológica.

A escolha de Chad Stahelski para a realização é particularmente reveladora. Depois de redefinir o cinema de acção moderno com John Wick, o realizador tem agora nas mãos uma mitologia que pede precisamente isso: coreografias rigorosas, combate estilizado e uma linguagem visual forte que ajude a diferenciar épocas, espaços e séculos.

Um legado difícil… mas tentador

O filme de 1986 teve duas sequelas cinematográficas — Highlander II: A Ressurreição e Highlander III: O Feiticeiro —, além de uma série televisiva extremamente popular nos anos 90, animações, bandas desenhadas e romances. Nem tudo envelheceu bem, mas o conceito base manteve sempre um poder quase mítico.

Este remake surge, por isso, como uma oportunidade rara: respeitar o espírito do original, corrigir excessos do passado e apresentar Highlander a uma nova geração de espectadores. As primeiras imagens com Henry Cavill não revelam muito — mas dizem o suficiente para perceber que a imortalidade está longe de estar gasta.

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No fim, continua a aplicar-se a velha regra: só pode haver um. Resta saber se este Highlander será o escolhido.

O vento da mudança não espera: Living the Land e a China num ponto de viragem histórico

Há filmes que chegam às salas como simples estreias semanais e há outros que se impõem como verdadeiros retratos de um país em transformação. Living the Land – O Vento é Imparável, que se estreia esta quinta-feira em Portugal, pertence claramente ao segundo grupo. Vencedor do Urso de Prata para Melhor Realização no Festival de Cinema de Berlim em 2025, o segundo filme do realizador Huo Meng afirma-se como um olhar delicado, sensorial e profundamente humano sobre uma China em mutação acelerada.

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Da Revolução Cultural à explosão criativa

Durante décadas, o cinema chinês viveu sob fortes limitações, especialmente no período da Revolução Cultural. O seu ressurgimento internacional começou nos anos 1980 com a chamada Quinta Geração, onde se destacaram nomes como Zhang Yimou e Chen Kaige. Hoje, essa classificação tornou-se quase irrelevante: o número de cineastas chineses revelados e premiados em grandes festivais é tal que já não se contam gerações — contam-se filmes marcantes.

Huo Meng é um desses novos nomes a acompanhar de perto. Com apenas a sua segunda longa-metragem, conquista Berlim e confirma que o cinema chinês contemporâneo continua a reinventar-se, agora com um olhar mais íntimo, menos épico e mais atento ao quotidiano.

Um ano, um lugar, um país em transição

Living the Land decorre numa região rural do nordeste da China, em 1991, um ano simbólico num país que acelerava a modernização económica e social. Partindo das suas próprias memórias de infância, Huo Meng constrói um retrato sensível das consequências dessa mudança, sobretudo na relação entre campo e cidade.

A narrativa acompanha uma família rural ao longo de um ciclo completo das estações do ano. No centro está Chuang, um rapaz de dez anos que vê os dois irmãos mais velhos partirem para a cidade em busca de trabalho e futuro, enquanto ele permanece no campo, ligado à terra, aos rituais e a uma forma de vida que começa lentamente a desaparecer.

Cinema como experiência sensorial

Mais do que uma história linear, Living the Land propõe uma experiência impressionista. Pessoas e paisagem surgem em pé de igualdade, num cinema que observa gestos, silêncios e rituais com paciência quase contemplativa. O realizador recorre maioritariamente a actores amadores, reforçando a autenticidade dos rostos e das emoções, e constrói um universo onde o som — do vento, da terra, dos animais — é tão importante quanto a imagem.

Sem negar o progresso nem cair na nostalgia fácil, o filme sublinha algo essencial: a modernização tem custos, e a ruptura total com a tradição pode significar a perda de uma identidade espiritual profunda, enraizada na vida rural chinesa.

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Um filme necessário

Encantador enquanto espectáculo cinematográfico e revelador na sua dimensão sociológica, Living the Land – O Vento é Imparável confirma Huo Meng como uma voz a seguir com atenção. Um filme discreto, mas poderoso, que observa a História a partir do chão — literalmente — e lembra que, por mais imparável que seja o vento da mudança, a terra guarda sempre memória.

Falso documentário, sucesso bem real: filme de Charli XCX esgota sessões e agita Sundance

O que acontece quando uma mega-estrela pop decide rir de si própria, da indústria que a rodeia e do circo mediático que ajudou a criar? A resposta chama-se The Moment — um falso documentário protagonizado por Charli XCX que está a provar ser tudo menos uma brincadeira passageira. Apresentado recentemente no Festival de Sundance, o filme tornou-se no lançamento limitado da A24 com vendas mais rápidas de sempre nos Estados Unidos.

De acordo com o estúdio, mais de 50 sessões esgotaram em tempo recorde nos chamados mercados estratégicos, com bilhetes a desaparecerem antes mesmo da estreia oficial. Para completar o fenómeno, uma sessão especial com perguntas e respostas, em Brooklyn, com Charli XCX e o realizador Aidan Zamiri, esgotou de imediato e viu os ingressos a serem revendidos online — algo raro para um filme de lançamento limitado e ainda sem distribuição alargada.

Uma diva fictícia… demasiado próxima da realidade

Em The Moment, Charli XCX interpreta uma versão exagerada e autoconsciente de si própria: uma “diva” controladora, obsessiva com detalhes e presa entre a vontade de evoluir artisticamente e a pressão constante para manter uma imagem rentável. O ponto de partida é simples e irónico: depois de dominar um verão inteiro, lançar um álbum multimilionário (Brat) e até influenciar dicionários a elegerem a palavra do ano, o que deve fazer uma estrela pop a seguir?

A resposta surge sob a forma de crise existencial, sátira mordaz e um olhar desconfortavelmente honesto sobre a fama contemporânea. A Charli do filme tenta afastar-se da estética “brat”, das tank tops justas e da atitude “IDGAF” que definiram 2024, mas encontra resistência precisamente onde menos queria: na máquina industrial que vive dessa persona.

Indústria vs. artista, com humor ácido

O elenco secundário reforça esta guerra de visões criativas. Hailey Benton Gates interpreta Celeste, a directora criativa da digressão, aliada na tentativa de mudança estética. Do outro lado da barricada estão a executiva da editora discográfica, vivida por Rosanna Arquette, e Johannes, um realizador egocêntrico contratado para supervisionar o filme da digressão, interpretado por Alexander Skarsgård.

O choque de egos e ideias transforma o planeamento da digressão num campo de batalha criativo: luzes estroboscópicas e mensagens directas dão lugar a pulseiras luminosas e a um palco que, segundo uma das personagens, “parece uma lâmpada de lava”. Pelo meio, surgem absurdos deliciosos, como uma campanha publicitária de um cartão de crédito dirigido a jovens queer ou uma fuga para um spa em Ibiza, símbolo máximo da alienação pop.

Críticos divididos, público rendido

A estreia em Sundance dividiu a crítica — como costuma acontecer com obras que brincam com o ego da indústria —, mas o público respondeu em força. Durante a sessão no festival, Charli XCX assumiu com humor a proximidade entre ficção e realidade:

“Gostaria de acreditar que não sou tão problemática como a Charli do filme”, brincou, arrancando gargalhadas.

O argumento, assinado por Bertie Brandes e pelo próprio Zamiri, assume conscientemente os arquétipos do clássico “artista contra a indústria”, algo que a cantora defendeu como realista: “Conheci versões de todas estas pessoas. Algumas torcem mesmo por ti; outras só querem estar perto do artista.”

De Spinal Tap à Berlim

O estilo de falso documentário deve muito a This Is Spinal Tap, influência assumida por Zamiri, que aproveitou a estreia para prestar homenagem a Rob Reiner, realizador do clássico de 1984.

Depois de Sundance, The Moment prepara-se para a estreia europeia na Festival de Berlim, que decorre de 12 a 22 de Fevereiro, levando consigo o estatuto de fenómeno inesperado. Para Charli XCX, o cinema surge também como uma tentativa consciente de se afastar da persona “brat” — ou, como a própria resumiu citando uma das suas canções: quando se ama algo, simplesmente faz-se, sem dormir nem parar.

Paul Dano reage às críticas de Tarantino — com classe, gratidão e o apoio de Hollywood

Nem todos os dias um actor é publicamente “arrasado” por Quentin Tarantino, muito menos por alguém conhecido por opiniões fortes e língua afiada. Mas foi exactamente isso que aconteceu com Paul Dano, alvo recente de comentários particularmente duros do realizador durante uma conversa no podcast de Bret Easton Ellis. A resposta de Dano? Elegância, contenção… e uma dose inesperada de gratidão.

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“O mundo falou por mim”

Paul Dano abordou o tema esta semana no Festival de Sundance, onde marcou presença para celebrar os 20 anos de Little Miss Sunshine, filme que ajudou a consolidar o seu estatuto em Hollywood. Questionado pela Variety sobre a polémica, o actor optou por uma resposta desarmante:

“Foi mesmo muito bonito. Fiquei incrivelmente grato por o mundo ter falado por mim, para que eu não tivesse de o fazer.”

Uma frase simples, mas reveladora de alguém que prefere deixar o trabalho — e os colegas — falarem mais alto.

O ataque de Tarantino

A polémica teve origem em Dezembro, quando Tarantino afirmou que a presença de Dano em There Will Be Blood foi suficiente para fazer o filme cair do topo da sua lista pessoal de melhores filmes de sempre para o quinto lugar. O realizador descreveu a prestação de Dano como o “defeito” do filme, recorrendo a expressões como “weak sauce” e “weak sister”, e acrescentando que o actor lhe parecia uma “não-entidade” em cena.

Apesar de Tarantino ter clarificado que não considerava a performance “terrível”, a agressividade da crítica gerou reacções imediatas — não tanto pela opinião em si, mas pelo tom utilizado.

Hollywood fecha fileiras

A resposta da indústria foi rápida e praticamente unânime. Várias figuras de peso saíram em defesa de Paul Dano, sublinhando o seu talento e consistência ao longo da carreira. Entre os nomes que manifestaram apoio estiveram Ethan HawkeBen StillerSimu Liu e Reese Witherspoon, todos apontando Dano como um actor “brilhante” e “profundamente talentoso”.

Esta onda de solidariedade acabou por transformar um ataque isolado num raro momento de consenso em Hollywood — algo que, convenhamos, não acontece todos os dias.

Toni Collette não poupou palavras

Durante a celebração de Little Miss Sunshine em Sundance, houve ainda espaço para reacções menos diplomáticas. Toni Collette, colega de Dano no filme, foi directa ao assunto quando questionada sobre Tarantino:

“F*** that guy! Ele devia estar pedrado… Foi tudo muito confuso. Quem é que faz uma coisa dessas?”

Uma resposta crua, espontânea e muito alinhada com o espírito independente que sempre marcou o filme.

Um actor que não precisa de defesa

A ironia de toda esta situação é que Paul Dano nunca precisou verdadeiramente de ser defendido. A sua carreira fala por si: de Little Miss Sunshine a There Will Be Blood, passando por Love & Mercy12 Years a Slave ou mais recentemente The Batman, Dano construiu um percurso sólido, discreto e respeitado — precisamente o oposto do ruído mediático que agora o rodeia.

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No fim de contas, enquanto Tarantino continua fiel ao seu estilo incendiário, Paul Dano mostrou que há outras formas de lidar com a crítica: silêncio, gratidão e um reconhecimento sereno de que, às vezes, a melhor resposta vem dos outros.

Muito Para Além do Mito: o retrato definitivo de Liza Minnelli chega finalmente ao cinema

Durante décadas, Liza Minnelli foi vista como um ícone maior do que a vida: a voz poderosa, a presença eléctrica em palco, o sorriso indestrutível mesmo nos momentos mais difíceis. Mas por detrás da figura pública existiu sempre uma mulher complexa, moldada por uma herança artística esmagadora e por uma determinação rara. Liza Minnelli: A Incrível e Absolutamente Verdadeira História propõe-se finalmente olhar para essa vida sem filtros nem reverências fáceis. O documentário estreia em exclusivo nos cinemas portugueses a 29 de Janeiro de 2026.

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Uma infância vivida sob holofotes intensos demais

Filha de Vincente Minnelli, um dos grandes nomes do cinema clássico de Hollywood, e da lendária Judy Garland, Liza Minnelli cresceu num mundo onde o espectáculo não era excepção, mas regra. O filme acompanha de perto essa infância pouco convencional, marcada por bastidores de estúdios, ensaios intermináveis e a consciência precoce de que o talento, por si só, não garante felicidade.

Sem cair no sensacionalismo, o documentário contextualiza o impacto psicológico de crescer à sombra de um mito como Garland, mostrando como essa herança foi simultaneamente um privilégio e um fardo. Mais do que “a filha de”, Liza foi obrigada desde cedo a provar que existia por mérito próprio.

A afirmação de uma artista irrepetível

É nos anos 1970 que Liza Minnelli: A Incrível e Absolutamente Verdadeira História ganha uma energia particular. O filme acompanha a afirmação artística de Minnelli num período em que se torna uma referência internacional absoluta, tanto no cinema como nos palcos. O Oscar por Cabaret surge aqui não como um ponto de chegada, mas como a confirmação pública de um percurso feito de disciplina, estudo e resistência.

Através de imagens de arquivo raramente exibidas, entrevistas e momentos de bastidores, o documentário revela uma artista obcecada pelo rigor, pela entrega total e pela ideia de que cada actuação poderia ser a última. Uma ética de trabalho que ajudou a construir um legado singular no entretenimento do século XX.

Um olhar humano, informado e sem mitificações fáceis

Realizado por Bruce David Klein, o filme distingue-se pela abordagem clara e profundamente humana. Não há aqui tentativa de criar uma narrativa artificialmente heróica, nem de esconder fragilidades. Pelo contrário: o documentário entende que é precisamente nas contradições, nas quedas e nos recomeços que se constrói a verdadeira dimensão de Liza Minnelli.

O resultado é uma leitura rigorosa e informada sobre uma carreira extraordinária, mas também um retrato íntimo de uma mulher que nunca deixou de lutar pela sua identidade artística, mesmo quando o mundo parecia exigir apenas que fosse uma continuação do passado.

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Um documentário essencial para cinéfilos e melómanos

Mais do que um simples exercício biográfico, Liza Minnelli: A Incrível e Absolutamente Verdadeira História afirma-se como um documento essencial sobre fama, herança e sobrevivência artística. Um filme que respeita a inteligência do espectador e faz justiça a uma das figuras mais marcantes do entretenimento moderno.

Anos de Inquietude: quatro filmes, quatro olhares sobre a juventude em ebulição no TVCine Edition

Fevereiro promete noites intensas no TVCine Edition, com um especial que olha a juventude sem filtros, romantizações fáceis ou respostas simples. Anos de Inquietude, exibido todos os domingos, de 1 a 22 de Fevereiro, sempre às 22h00, reúne quatro filmes assinados por cineastas de referência que exploram o crescimento, o conflito e a procura de identidade como territórios instáveis, por vezes dolorosos, mas sempre transformadores  .

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Quatro filmes, uma mesma urgência de viver

O especial parte de uma ideia simples e poderosa: a juventude como um tempo de incerteza permanente. Seja nos subúrbios ingleses, numa escola de teatro em Paris, numa herdade argentina ou numa aldeia rural francesa, estas histórias falam de personagens que tentam perceber quem são, de onde vêm e para onde podem ir. Em comum, há inquietação, desejo de fuga e a sensação constante de que o mundo exige decisões antes de estarmos preparados para as tomar.

Bird: crescer quando ninguém está a olhar

O ciclo abre a 1 de Fevereiro com Bird, de Andrea Arnold, uma das vozes mais consistentes do cinema britânico contemporâneo. O filme acompanha Bailey, uma adolescente negligenciada que vive com o pai e o irmão nos subúrbios de Kent. Entre realismo social e um lirismo subtil, Arnold constrói um retrato duro e comovente sobre invisibilidade, identidade e pertença. Apresentado em competição no Festival de Cannes em 2024, Bird confirma a capacidade da realizadora para transformar quotidianos marginais em cinema profundamente humano.

Les Amandiers – Jovens para Sempre: memórias de palco e de pele

No dia 8 de Fevereiro, chega Les Amandiers – Jovens para Sempre, de Valeria Bruni Tedeschi, um filme marcado pela nostalgia e pela intensidade emocional. Inspirado nas memórias da própria realizadora, o drama acompanha um grupo de jovens actores admitidos numa prestigiada escola de teatro no final dos anos 80. Entre paixões, excessos e descobertas, o filme é uma carta de amor à juventude criativa e caótica, distinguida em Cannes e nos Prémios César.

Um Segredo de Família: crescer à sombra do passado

15 de Fevereiro, o tom muda com Um Segredo de Família, do argentino Pablo Trapero. Aqui, a juventude é confrontada com heranças emocionais e políticas difíceis de digerir. O regresso de uma filha à propriedade familiar desencadeia revelações sobre mentiras antigas, traumas da ditadura e relações marcadas por ressentimentos silenciosos. Um melodrama contido, mas devastador, ancorado em interpretações intensas de Bérénice Bejo e Martina Gusmán.

Amor e Queijo: a idade adulta chega sem pedir licença

O especial termina a 22 de Fevereiro com Amor e Queijo, de Louise Courvoisier, uma estreia sensível e luminosa sobre o fim da adolescência. Num meio rural francês, Totone vê-se obrigado a assumir responsabilidades demasiado cedo, num filme que mistura descoberta amorosa, sobrevivência económica e a beleza rude do campo. Apresentado na secção Un Certain Regard de Cannes, o filme conquistou o Prémio da Juventude e dois Césares, afirmando Courvoisier como um nome a seguir de perto.

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Um ciclo para ver e sentir

Anos de Inquietude não oferece respostas fáceis, mas propõe algo mais valioso: empatia. Quatro filmes, quatro olhares autorais e uma certeza comum — crescer é sempre um processo imperfeito, instável e profundamente cinematográfico.

Quando a fama não deixa dormir: Hurry Up Tomorrow leva The Weeknd ao limite no TVCine Top

A fama, quando vista de fora, parece feita de luzes, aplausos e sucesso sem fim. Mas Hurry Up Tomorrow propõe um mergulho inquietante no lado menos glamoroso desse estrelato — aquele onde a insónia, a exaustão emocional e a perda de identidade caminham de mãos dadas. O thriller psicológico protagonizado por The Weeknd e Jenna Ortega estreia-se na televisão portuguesa no dia 31 de Janeiro, às 21h30, em exclusivo no TVCine Top e no TVCine+ .

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Uma descida vertiginosa ao abismo psicológico

No centro da narrativa está um músico no auge da carreira que, incapaz de dormir há semanas, começa a ver a sua perceção da realidade fragmentar-se perigosamente. Entre concertos, entrevistas e noites intermináveis, a mente entra em curto-circuito. É numa dessas madrugadas sem fim que surge uma jovem fã misteriosa, cuja presença oscila entre o conforto emocional e uma ameaça silenciosa. O encontro entre os dois desencadeia uma sucessão de episódios cada vez mais intensos e perturbadores, levando o protagonista a confrontar traumas antigos, culpas mal resolvidas e a pressão esmagadora do sucesso.

À medida que a relação se aprofunda, Hurry Up Tomorrow transforma-se numa espiral psicológica onde nada é totalmente fiável — nem as pessoas, nem as memórias, nem o próprio protagonista. Cada decisão aproxima-o de um ponto de rutura inevitável, num jogo perigoso entre identidade pública e intimidade pessoal.

Thriller existencial com assinatura de autor

Realizado por Trey Edward Shults, conhecido por filmes como Ele Vem à Noite e As Ondas, o filme cruza o thriller psicológico com um drama profundamente existencial. Shults volta a explorar estados emocionais extremos, usando o som, a música e a noite como extensões da mente humana em colapso.

The Weeknd apresenta-se num registo surpreendentemente vulnerável, dando corpo a uma personagem consumida pela autoexigência e pelo vazio que muitas vezes acompanha o estrelato. Já Jenna Ortega constrói uma figura inquietante e imprevisível, funcionando como catalisadora de uma viagem emocional tão sedutora quanto destrutiva.

Uma experiência sensorial e perturbadora

Com uma estética marcada pela escuridão, pela música e por uma atmosfera quase hipnótica, Hurry Up Tomorrow não é apenas um filme sobre fama — é um retrato desconfortável da solidão, da obsessão e do preço psicológico do sucesso. Uma obra que pede entrega total do espectador e que promete ficar na memória muito depois dos créditos finais.

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Para quem procura um thriller intenso, emocionalmente exigente e longe das fórmulas convencionais, a noite de sábado, 31 de Janeiro, tem destino marcado.