A televisão musical fecha um capítulo histórico no último dia de 2025 — e fá-lo com a canção que deu início a tudo
O último dia de 2025 marcou o encerramento silencioso — mas simbólico — de uma das maiores aventuras culturais da televisão. A MTV desligou os seus canais dedicados exclusivamente a videoclipes, pondo termo a um formato que ajudou a definir gerações, lançar carreiras e moldar a relação entre música e imagem durante mais de quatro décadas.
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Em Portugal, os canais MTV Live e MTV 00s deixaram de estar disponíveis a 31 de Dezembro. A despedida surgiu sob a forma de uma mensagem simples e directa: “A MTV está agora fechada. Obrigado por nos ter visto”. No MEO, o canal principal da MTV Portugal também ficou offline, com o aviso de que deixara de integrar a grelha.
Não foi um corte isolado nem meramente local. No Reino Unido, vários canais temáticos — MTV Music, MTV 80s, MTV 90s, Club MTV e MTV Live — foram igualmente desligados. E, como não podia deixar de ser, a música escolhida para o momento final foi “Video Killed The Radio Star”, dos The Buggles.
A canção que abriu — e fechou — a história
A escolha não foi um acaso. “Video Killed The Radio Star” foi o primeiro videoclip transmitido pela MTV nos Estados Unidos, a 1 de Agosto de 1981. A letra, que falava do impacto da imagem sobre a música, tornou-se uma espécie de profecia cultural. Quarenta e quatro anos depois, a mesma canção encerra o ciclo.
O gesto é irónico, melancólico e profundamente consciente do seu próprio simbolismo. A MTV sempre soube trabalhar a sua mitologia — e esta despedida confirma-o.
Da revolução cultural ao declínio do videoclip televisivo
Quando surgiu, a MTV não foi apenas um canal de música. Foi um fenómeno cultural. Transformou artistas em ícones visuais, redefiniu a estética pop e aproximou música, moda, cinema e publicidade. O videoclip deixou de ser promoção para se tornar arte, narrativa e identidade.
A expansão foi rápida. Depois do lançamento nos EUA, a MTV Europe arrancou em 1987, abrindo emissões com “Money For Nothing”, dos Dire Straits — uma escolha igualmente carregada de ironia, já que a canção menciona o próprio canal. A MTV UK surgiu em 1997, mas, significativamente, deixou de passar videoclipes de forma regular já em 2011.
Esse dado é essencial para compreender o que agora acontece. O fim dos canais de videoclipes não é uma ruptura súbita: é o culminar de um processo longo, em que a música migrou para outras plataformas.
O streaming venceu — e a MTV mudou de pele
A ascensão do YouTube, das plataformas de streaming e das redes sociais alterou radicalmente o consumo musical. O videoclip passou a ser visto sob demanda, no telemóvel, no computador, fora da grelha televisiva. A MTV respondeu mudando o foco para reality shows, séries juvenis e formatos de entretenimento — uma estratégia que garantiu sobrevivência, mas afastou o canal da sua identidade original.
Com o desligar destes canais, a MTV assume oficialmente aquilo que já era evidente: o videoclip deixou de precisar da televisão.
Um adeus que é também um legado
Para muitos espectadores, este encerramento tem um peso emocional difícil de ignorar. A MTV foi banda sonora visual da adolescência, janela para novos géneros, novos artistas e novas atitudes. Foi ali que muitos descobriram o rock alternativo, o hip hop, a pop dos anos 80, 90 e 2000 — e aprenderam que a música também se vê.
O fim dos canais de videoclipes não apaga esse legado. Pelo contrário, cristaliza-o. A MTV pode já não passar música como antigamente, mas a forma como hoje consumimos imagem e som continua a carregar a sua influência.
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No silêncio do ecrã desligado, ecoa uma verdade simples: a MTV não morreu — transformou-se. E deixou para trás uma história que dificilmente será repetida.
