Há plataformas que abrem escritórios. A Netflix abriu ontem um quartel-general em Buenos Aires — e aproveitou para anunciar uma programação que qualquer fã de cinema e televisão de língua ibérica vai querer acompanhar de perto.
O novo espaço, com dois mil metros quadrados no bairro boémio de Villa Crespo, é o terceiro que a Netflix inaugura na América Latina este ano, depois de São Paulo e Cidade do México. É mais pequeno do que os outros dois — o Brasil tem 8.200 metros quadrados —, mas Francisco Ramos, vice-presidente de conteúdos para a América Latina, foi claro sobre o que significa: “Estamos a sinalizar que estamos aqui para ficar.” A Argentina começou a produzir conteúdos para a plataforma em 2018. Oito anos depois, tem um escritório feito à medida — e um catálogo que já chegou ao topo das tabelas mundiais.
O ponto de partida para tudo o que foi anunciado é The Eternaut. A série de ficção científica com Ricardo Darín — baseada na graphic novel de Héctor Germán Oesterheld, uma obra que é simultaneamente um clássico da cultura popular argentina e um símbolo de resistência política desde os anos da ditadura — foi a maior produção televisiva argentina de sempre e entrou imediatamente no Top 10 global da Netflix quando estreou em 2025. A segunda temporada está em desenvolvimento avançado, com estreia prevista para 2027, e a escala é significativamente maior: “A ambição subiu a um nível completamente diferente”, disse Ramos. “O orçamento e a concepção são muito maiores do que na primeira temporada.” Há também conversa séria sobre uma terceira temporada — o que inicialmente estava previsto como uma história de dois arcos pode vir a ter mais.
Mas o anúncio que mais surpreendeu — e entusiasmou — foi a série animada de Mafalda, prevista para 2027 e realizada por Juan José Campanella, o mesmo que ganhou o Óscar de Melhor Filme Internacional em 2010 com O Segredo dos Seus Olhos. Mafalda, a personagem de banda desenhada criada por Quino em 1964, é um ícone ibero-americano de dimensões quase mitológicas: uma rapariga de seis anos com opiniões afiadas sobre política, sociedade e a condição humana, que em Portugal é conhecida e amada por gerações. Trazê-la ao streaming, em animação, com um realizador com Óscar na prateleira, é uma das apostas mais inesperadamente deliciosas da temporada.
A programação argentina da Netflix para 2027 inclui ainda uma mini-série distópica baseada num romance de Philip K. Dick — o autor de Blade Runner, Minority Report e O Homem do Castelo Alto —, um thriller político de Santiago Mitre com Verónica Llinás e Peter Lanzani, e um projecto de Sebastián Borensztein sobre um cantor de tango judeu que é enganado a viajar para a Alemanha Nazi durante a Segunda Guerra Mundial. A Argentina, que tem uma das tradições cinematográficas mais ricas da América Latina e uma diáspora portuguesa considerável, continua a produzir histórias que chegam muito além das suas fronteiras. A Netflix percebeu isso antes de toda a gente — e está a investir em conformidade.
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