Há realizadores que resistem à inteligência artificial como se fosse uma ameaça existencial. Steven Soderbergh não é um deles. Numa entrevista à Filmmaker Magazine, o realizador de Traffic, Erin Brockovich e Contágio revelou que o seu próximo filme de ficção — sobre a Guerra Hispano-Americana de 1898, com Wagner Moura no papel principal — vai recorrer extensivamente à IA para recriar batalhas navais, cenários históricos e toda a logística visual de um conflito do séc. XIX que nunca foi filmado com esta ambição.

“É uma história muito boa e ninguém a fez ainda”, disse Soderbergh. “Todos os dias que passam ela torna-se mais oportuna.” A afirmação não é despropositada: a Guerra Hispano-Americana foi o conflito que transformou os Estados Unidos numa potência imperial — a guerra em que Cuba ganhou a independência de Espanha com ajuda americana, e em que as Filipinas, Porto Rico e Guam passaram para soberania dos EUA em circunstâncias que continuam a ser discutidas. Num momento em que o debate sobre imperialismo, poder e influência americana está mais activo do que nunca, a escolha do tema tem uma camada política que Soderbergh claramente reconhece.
Wagner Moura está confirmado no elenco. O actor brasileiro, conhecido internacionalmente pelo papel de Pablo Escobar em Narcos e mais recentemente pela sua nomeação ao Óscar de Melhor Actor pelo papel em The Secret Agent, traz ao projecto exatamente o tipo de gravidade e ambiguidade moral que uma história destas exige. Soderbergh ainda está a montar o elenco — “preciso de mais algumas pessoas” — e tem dois estúdios interessados, mas diz que o orçamento final depende de quem mais consegue atrair. “Se conseguir juntar o elenco certo, isso vai torná-lo num evento, e as pessoas vão sentir que têm de o ver no cinema em vez de esperar dois meses até chegar ao streaming.”
A frase é, em si mesma, um diagnóstico da indústria. Soderbergh, que conhece Hollywood melhor do que a maioria, está a descrever exactamente o problema central do cinema comercial em 2026: a única razão pela qual as pessoas ainda saem de casa para ir ao cinema é o sentido de urgência — e esse sentido de urgência só existe quando o elenco é suficientemente poderoso para criar o momento.
A IA, neste contexto, não é uma substituição do talento humano mas uma ferramenta de produção que permite a Soderbergh fazer um filme de guerra de grande escala com um orçamento controlado. Está a usar a mesma tecnologia no seu documentário sobre John Lennon e Yoko Ono — John Lennon: The Last Interview, que será exibido em Cannes este mês como sessão especial —, para criar “imagens surrealistas que ocupam um espaço onírico, não um espaço literal.” “Precisas de um doutoramento em literatura para lhe dizer o que fazer”, admite. “Mas como qualquer outra ferramenta tecnológica, exige supervisão humana muito próxima.”
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