Um actor eternizado pelos maus da fita, mas cansado de viver na sombra dos vilões
Durante décadas, Alan Rickman foi um dos grandes mestres do vilão carismático no cinema. A sua voz grave, o olhar irónico e a presença imponente tornaram-no inesquecível sempre que surgia do lado “errado” da história. No entanto, segundo Emma Thompson, essa imagem pública acabou por se tornar um peso inesperado na carreira do actor.
Numa entrevista à GQ, Emma Thompson recordou o entusiasmo quase juvenil de Rickman quando interpretou o Coronel Brandon em Sentido e Sensibilidade. Para o actor, aquele papel representava algo raro: a oportunidade de ser visto como alguém nobre, gentil e emocionalmente contido — longe da galeria de vilões que o público parecia exigir dele.

“Ele estava tão feliz por interpretar alguém heróico e bom”, contou Thompson. “Estava farto de as pessoas quererem sempre que fosse o Xerife de Nottingham.”
O vilão perfeito… em demasia
A ironia é que um dos papéis que mais contribuiu para esse rótulo foi também um dos mais celebrados da sua carreira. Em Robin Hood: Príncipe dos Ladrões, Rickman transformou o Xerife de Nottingham numa figura absolutamente delirante, roubando cada cena a Kevin Costner com sarcasmo, crueldade exagerada e frases que entraram directamente para a história do cinema popular.
A interpretação foi tão marcante — incluindo a famosa ameaça de arrancar o coração “com uma colher” — que lhe valeu uma nomeação para os BAFTA. Mas o sucesso teve um efeito colateral: Hollywood passou a vê-lo sobretudo como o vilão ideal.
Esse estatuto consolidou-se ainda mais com Hans Gruber em Die Hard e, mais tarde, com Severus Snape na saga Harry Potter. Personagens icónicas, complexas e amadas pelo público — mas que reforçaram a ideia de que Rickman “pertencia” ao lado negro da força.
Quando Alan Rickman era o coração da história
O que muitos esquecem é que algumas das suas interpretações mais belas surgiram precisamente quando fazia o oposto. Para lá do contido e melancólico Coronel Brandon, Rickman emocionou profundamente em Truly, Madly, Deeply, como o namorado que regressa do além para ajudar a mulher a lidar com o luto.
Em Dogma, de Kevin Smith, deu vida ao anjo Metatron com uma mistura perfeita de solenidade e humor, enquanto em Galaxy Quest criou uma das personagens mais queridas da sua carreira: Alexander Dane, também conhecido como Dr. Lazarus — um actor shakespeariano preso num papel de ficção científica que detesta… até aprender a aceitá-lo.
Um legado que vai muito além do bem e do mal
No final, o público pode ter acorrido em massa para ver Alan Rickman como vilão, mas a verdade é simples: fosse herói ou antagonista, estava sempre garantida uma grande interpretação. Rickman tinha o raro talento de elevar qualquer personagem, mesmo as mais caricatas, a um nível de humanidade e complexidade pouco comum.
Talvez por isso a sua frustração seja tão reveladora. Não por rejeitar os vilões — muitos deles brilhantes —, mas por querer ser lembrado também pelo outro lado: o da empatia, da bondade e da vulnerabilidade. Um desejo legítimo para um actor que nunca foi apenas “o mau da fita”, mas um dos intérpretes mais completos e respeitados da sua geração.
