Uma Thurman regressa à ação com “Pretty Lethal”, um thriller violento que junta ballet, sangue e espírito de sobrevivência

Há filmes cuja premissa parece demasiado estranha para resultar e que, precisamente por isso, despertam curiosidade imediata. “Pretty Lethal” é um desses casos. O novo thriller protagonizado por Uma Thurman parte de uma ideia invulgar — um grupo de jovens bailarinas transformadas em máquinas de sobrevivência — e cruza esse conceito com violência gráfica, estética pop e uma energia muito própria de cinema de ação contemporâneo. O resultado, ao que indicam as primeiras reacções, poderá estar longe de ser apenas um exercício de estilo. Depois da estreia no festival SXSW, o filme começou a ganhar atenção positiva e já surge como uma das propostas mais inesperadas desta fase do ano. A estreia no Prime Video em Portugal está marcada para 25 de março.  

Realizado por Vicky Jewson, “Pretty Lethal” acompanha cinco jovens bailarinas — Zoe, Princess, Chloe, Grace e Bones — que seguem viagem para uma importante competição de dança quando tudo começa a descarrilar. O autocarro avaria numa floresta isolada, obrigando o grupo a procurar abrigo numa estalagem perdida no meio do nada. Naturalmente, isto nunca acaba bem num thriller. O local é controlado por uma antiga prodígio do ballet, Devora Kasimer, agora transformada numa figura obscura e perigosa, rodeada por homens armados. É essa personagem que Uma Thurman interpreta, assumindo o lado mais sombrio do filme e funcionando como contraponto a um grupo de raparigas que, até ali, mal conseguia comunicar sem tensão, ressentimento ou rivalidade. Perante a ameaça, o que antes era competição interna passa a ser uma luta pela sobrevivência.  

O que torna “Pretty Lethal” mais curioso é a forma como tenta construir a ação a partir do universo da dança. A realizadora explicou que o filme foi pensado primeiro como uma história sobre bailarinas, e só depois como cinema de combate. Isso significa que os movimentos de luta não foram concebidos como simples coreografias de pancadaria, mas como extensões naturais da linguagem corporal do ballet. Foi dessa ideia que nasceu o conceito de “ballet-fu”, uma fusão entre disciplina clássica e combate físico. Jewson trabalhou esse lado com uma equipa de duplos experiente e com actrizes que passaram por um treino intensivo antes das filmagens, num processo que procurava tornar credível a transformação da elegância em arma. O filme parece assim apostar numa violência estilizada, mas sem abdicar da identidade das personagens nem da especificidade física do mundo em que vivem.  

Também ajuda o facto de o elenco jovem trazer perfis bastante diferentes para esse grupo. Iris ApatowLana CondorMillicent SimmondsAvantika e Maddie Ziegler interpretam personagens com tensões, fragilidades e instintos muito próprios, o que sugere que o filme tenta fazer mais do que apenas alinhar cenas de ação vistosas. Pelo que foi sendo partilhado pela equipa, existe uma forte dimensão de união, trabalho de grupo e reconstrução de confiança entre estas raparigas, num contexto em que a competitividade típica de uma companhia de dança se transforma gradualmente numa necessidade de sobrevivência coletiva. Essa parece ser, aliás, a principal ideia emocional do filme: num meio onde todos lutam pelo destaque individual, chega um momento em que só é possível continuar se houver verdadeira cooperação.  

Uma Thurman, por sua vez, aparece aqui numa posição curiosa. Não é a heroína em busca de justiça, como muitos ainda a associam desde “Kill Bill”, mas a presença ameaçadora que domina o espaço e obriga a história a ganhar tensão. A actriz terá sido atraída precisamente por essa combinação entre exagero visual, energia feminina e um tom de empowerment pouco convencional. Em vez de uma lição óbvia, “Pretty Lethal” parece querer construir uma fábula brutal sobre resistência, identidade e poder, onde a vulnerabilidade e a força convivem sem grande cerimónia. Há sangue, há confrontos, há raiva, mas também há uma ideia central de mulheres a encontrarem poder umas nas outras — mesmo quando o filme decide resolver isso com pontapés, lâminas e muito caos.

As primeiras críticas têm sido favoráveis. O filme estreou no SXSW e conseguiu uma recepção inicial positiva, com uma classificação de 90% no Rotten Tomatoes no arranque das primeiras avaliações. Isso não significa necessariamente que estamos perante um futuro clássico do género, mas indica pelo menos que o filme está a funcionar junto de quem já o viu, especialmente pela energia visual e pela forma como assume sem vergonha a sua mistura improvável de géneros.  

Em Portugal, portanto, ainda não está disponível para streaming, mas já falta pouco. “Pretty Lethal” chega ao Prime Video no dia 25 de março, e tudo indica que poderá tornar-se uma daquelas estreias que geram curiosidade imediata: pela presença de Uma Thurman, pelo conceito extravagante e por essa promessa de transformar o ballet num campo de batalha. E convenhamos: só essa ideia já vale pelo menos um clique.