Quatro Filmes, Quatro Olhares: Janeiro de Cinema de Autor no Cine-Teatro Avenida

O início de 2026 traz consigo uma proposta cinematográfica sólida e exigente no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, que aposta em quatro filmes de forte identidade autoral e reconhecido relevo no panorama internacional contemporâneo. A programação de janeiro confirma uma linha curatorial coerente, centrada no cinema de autor europeu e norte-americano, com obras que exploram o trauma, a memória, o reencontro e a reconstrução pessoal e colectiva.

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O ciclo arranca a 7 de janeiro com Onde Aterrar, do realizador norte-americano Hal Hartley. A comédia, de tom assumidamente existencial, acompanha um realizador aposentado que se vê confrontado com os equívocos, projeções e mal-entendidos daqueles que o rodeiam. Fiel ao estilo minimalista e irónico de Hartley, o filme propõe uma reflexão sobre identidade, envelhecimento e a forma como somos lidos pelos outros num mundo que raramente escuta com atenção.

13 de janeiro, chega ao ecrã Pequenos Clarões, da realizadora espanhola Pilar Palomero. Trata-se de um drama intimista centrado em reencontros familiares, no cuidado prestado aos outros e nas memórias que permanecem por resolver. Com uma abordagem sensível e contida, o filme inscreve-se numa tradição de cinema emocionalmente rigoroso, onde os silêncios e os pequenos gestos assumem um peso narrativo determinante.

No dia 20 de janeiro, é exibido Justa, da cineasta portuguesa Teresa Villaverde. Inspirado na tragédia dos incêndios de Pedrógão Grande, o filme acompanha várias personagens num território marcado pela perda, pelo luto e pela difícil tentativa de reconstrução. Sem recorrer a dramatismos fáceis, Justa propõe um olhar humanista sobre uma ferida colectiva ainda aberta, cruzando experiências individuais com uma dimensão social e política profundamente enraizada na realidade portuguesa recente.

A programação encerra a 27 de janeiro com Miroirs Nº 3, do realizador alemão Christian Petzold. O filme explora as consequências do trauma e as relações humanas construídas a partir do acolhimento e da partilha. Petzold volta a demonstrar a sua mestria na construção de narrativas psicológicas densas, onde a identidade se reconstrói lentamente através do contacto com o outro e da aceitação da fragilidade.

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Todas as sessões decorrem no Cine-Teatro Avenida, sempre às 18h00 e 21h30, com classificação etária M/12. O bilhete tem o custo de 4,00 euros, estando prevista uma oferta especial na compra de três ingressos, com direito ao quarto bilhete gratuito. Uma programação que reforça o papel do Cine-Teatro Avenida como espaço de resistência cultural e de promoção de um cinema exigente, reflexivo e profundamente humano.  

“Pequenos Clarões”: Pilar Palomero estreia em Portugal o seu novo drama sobre luto, memória e perdão

A realizadora espanhola Pilar Palomero, uma das vozes mais marcantes da nova geração de cineastas do país vizinho, traz a Portugal a sua nova longa-metragem, “Pequenos Clarões”, um drama intimista que mergulha nas dores invisíveis do luto e nos caminhos difíceis do perdão. Inspirado no conto “Un corazón demasiado grande”, da escritora Eider Rodríguez, o filme chega carregado de emoção e história pessoal.

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Embora não seja uma obra autobiográfica, Palomero confessa que o impulso criativo nasceu num momento profundamente íntimo: a morte do pai. O luto atravessou-a de forma silenciosa mas determinante, e isso sente-se na sensibilidade com que as personagens procuram reconstruir-se entre memórias, fragilidades e pequenas revelações — os “clarões” que iluminam a dor. Uma das cenas mais significativas inclui a leitura de um excerto de “Platero e Eu”, de Juan Ramón Jiménez, uma homenagem directa ao pai da realizadora e um dos pilares emocionais do filme.

As filmagens decorreram na Horta de Sant Joan, perto de Tarragona, terra ligada às raízes familiares de Palomero. O cenário rural, marcado por uma luminosidade austera e uma atmosfera de introspecção, torna-se parte essencial da narrativa, como se a paisagem dialogasse com o estado emocional das personagens.

Pilar Palomero não é desconhecida do grande público: conquistou reconhecimento imediato com a sua primeira longa-metragem, “Las Niñas”, que venceu quatro Prémios Goya, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizadora Revelação e Melhor Argumento Original. A sua assinatura cinematográfica é marcada por uma atenção muito particular às emoções contidas, às relações familiares e à forma como crescemos — e mudamos — perante aquilo que perdemos.

“Pequenos Clarões” foi apresentado no LEFFEST, reforçando o prestígio do festival enquanto plataforma de exibição para novos autores do cinema europeu. A obra estabelece-se como uma carta aberta à família, à memória e à vida, numa combinação de delicadeza e verdade que tem definido o percurso da realizadora.

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O filme chega agora a Portugal com a promessa de tocar quem já viveu os silêncios do luto, quem procura reconciliação com o passado ou simplesmente quem aprecia cinema que ilumina a condição humana com autenticidade e profundidade.