Há episódios da História que parecem impossíveis de acreditar. E depois há aqueles que são tão absurdos que quase parecem ficção — mas não são.
Pai Nosso: Os Últimos Dias de Salazar, realizado por José Filipe Costa, mergulha num dos momentos mais insólitos — e menos falados — da história portuguesa recente: os últimos anos de António de Oliveira Salazar.
E o que revela é, no mínimo, desconcertante.
Uma mentira mantida durante dois anos
Após uma queda e um AVC em 1968, Salazar é afastado do poder e substituído por Marcelo Caetano. Mas há um detalhe crucial: ninguém lhe conta.
Durante dois anos, o antigo líder continua a viver como se ainda governasse o país. Recebe ministros que já não são ministros, fala com embaixadores que não representam ninguém e mantém uma rotina cuidadosamente encenada para sustentar uma ilusão.
Um verdadeiro teatro político… dentro do próprio poder.
E o mais inquietante? Todos participam.
Desde a sua governanta, Maria de Jesus, até ao Presidente da República, Américo Thomaz, passando por médicos e funcionários — todos ajudam a alimentar esta realidade paralela.
Um retrato perturbador do “medinho português”
José Filipe Costa não está interessado apenas em recontar factos históricos. O realizador usa este episódio para explorar algo mais profundo: os mecanismos de obediência, medo e conformismo que marcaram uma época — e que, segundo ele, ainda ecoam na sociedade portuguesa.
Como o próprio refere, trata-se de um filme sobre “o medinho português” — sobre a forma como uma mentira pode crescer até se tornar uma verdade aceite por todos.
E talvez seja essa a ideia mais inquietante de todas.
Um elenco que sustenta a ilusão
O filme conta com Jorge Mota no papel de Salazar e uma interpretação destacada de Catarina Avelar como Maria de Jesus, premiada pela sua performance.
Ao lado deles, um conjunto de personagens que vivem entre a lealdade, o medo e a cumplicidade, criando um ambiente onde a realidade deixa de ser clara — e onde a sanidade começa a ser posta em causa.
Reconhecimento internacional e estreia em Portugal
Pai Nosso: Os Últimos Dias de Salazar estreou mundialmente no Festival de Roterdão e foi distinguido nos Caminhos do Cinema Português com prémios de Melhor Ficção, Melhor Caracterização e Melhor Interpretação.
Chega agora às salas nacionais a 28 de Maio, uma data simbólica que assinala o centenário da Revolução de 1926 — o início do regime que viria a levar Salazar ao poder.
Uma história real… mais estranha do que qualquer ficção
Há filmes que contam o passado. Este questiona-o.
E talvez obrigue a olhar para ele de forma diferente.
Porque, no fim, a pergunta não é apenas como isto aconteceu…
Mas como foi possível ninguém ter dito a verdade.
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