Terry Gilliam não perdoa: porque Time Bandits falhou sem anões — e porque nunca poderia resultar

Terry Gilliam nunca foi conhecido por medir palavras. Mas, desta vez, o realizador de Brazil e 12 Monkeys foi particularmente directo: a série Time Bandits, reimaginada por Taika Waititi para a Apple TV, falhou por uma razão muito simples — não tinha anões. E, para Gilliam, isso não é um detalhe estético nem uma decisão lateral. É estrutural. É o coração do filme original.

A série, cancelada após apenas uma temporada, nasceu envolta numa decisão polémica desde o primeiro momento: substituir os icónicos anões do filme de 1981 por personagens de estatura “normal”, numa tentativa assumida de evitar controvérsia ou leituras problemáticas junto de um público mais jovem. Uma opção que, para Gilliam, retirou à história aquilo que a tornava única.

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Em declarações recentes à imprensa italiana, o cineasta foi claro ao afirmar que essa mudança foi escondida dele durante meses. Só quando o projecto estava já demasiado avançado percebeu que os ladrões do tempo deixariam de ser anões. Nessa altura, diz Gilliam, o destino da série estava traçado. Não por vingança pessoal ou purismo artístico, mas porque Time Bandits deixa simplesmente de ser Time Bandits sem esse elemento central.

O filme original, realizado por Gilliam em 1981, não usava os anões como curiosidade visual ou gimmick cómico. Eles eram parte essencial da lógica do mundo, da subversão da escala, do humor absurdo e da identidade visual profundamente ligada ao imaginário dos Monty Python. Eram figuras marginalizadas, irreverentes, moralmente ambíguas — e, acima de tudo, profundamente humanas. Retirá-los é tornar a narrativa genérica, indistinta, semelhante a qualquer aventura juvenil de catálogo.

Gilliam foi creditado como produtor executivo não argumentista na série, acreditando que teria algum controlo criativo. Mas, ao ler os guiões, percebeu que o espírito do projecto lhe escapava por completo. O próprio Waititi, de quem Gilliam diz ter gostado muito em Jojo Rabbit, acabou por se afastar criativamente do desenvolvimento da série, algo que o realizador veterano não deixou passar sem uma farpa subtil, referindo-se a trabalhos recentes do neozelandês como “desapontantes”.

A tensão tornou-se evidente durante uma visita de Gilliam ao set, na Nova Zelândia. A sua presença, que deveria durar duas semanas, resumiu-se a apenas três dias. Testemunhos da equipa descrevem um Gilliam visivelmente irritado, a comentar em voz alta e a demonstrar desconforto constante com o rumo do projecto. Saiu cedo e nunca mais falou bem da série.

O cancelamento acabou por confirmar aquilo que muitos fãs do filme original já suspeitavam: ao tentar “corrigir” Time Bandits para um novo contexto cultural, o projecto perdeu a sua alma. A decisão de eliminar os anões não foi apenas uma escolha de casting — foi uma amputação conceptual.

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Num tempo em que remakes e reimaginações parecem obcecados em evitar riscos, Time Bandits serve de exemplo claro de como o medo de ofender pode resultar em algo ainda mais problemático: um objecto cultural inofensivo, mas irrelevante. E, para Terry Gilliam, irrelevância é o maior dos pecados.

Fackham Hall: A resposta britânica a The Naked Gun promete rir-se de Downton Abbey

Com Damian Lewis, Thomasin McKenzie e Katherine Waterston, esta comédia promete trazer de volta o charme da sátira britânica — e talvez o regresso triunfal dos filmes de paródia.

Será que o cinema de paródias está de volta? Depois do sucesso inesperado do reboot de The Naked Gun com Liam Neeson, eis que surge Fackham Hall, uma comédia que promete aplicar a mesma receita — humor absurdo, ritmo britânico e um toque de nostalgia — ao universo aristocrático de Downton Abbey.

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Realizado por Jim O’Hanlon (A Long Way DownCatastrophe), o filme estreia nos cinemas norte-americanos a 5 de Dezembro de 2025, pela Bleecker Street, embora ainda não haja data confirmada para Portugal.

Um “Downton Abbey” passado no modo paródia

Descrito como uma mistura entre Downton AbbeyAirplane! e Monty PythonFackham Hall segue Eric Noone, um simpático batedor de carteiras que, por uma série de coincidências, consegue um emprego num majestoso solar inglês. Rapidamente sobe na hierarquia da casa e apaixona-se pela aristocrata Rose Davenport — mas quando um misterioso assassinato ocorre, Eric é acusado injustamente, mergulhando a nobre família num escândalo de proporções cómicas.

O elenco é um verdadeiro festim britânico: Thomasin McKenzieBen RadcliffeKatherine WaterstonEmma LairdTom Felton (sim, o Draco Malfoy de Harry Potter), Damian LewisAnna Maxwell Martin e Sue Johnston, entre outros.

O argumento — assinado por Steve Dawson, Andrew Dawson, Tim Inman, Jimmy Carr e Patrick Carr — promete humor afiado, cheio de anacronismos e nonsense britânico, a par de um amor assumido pelas produções de época.

Entre a sátira e a homenagem

Com produções como Downton Abbey: The Grand Finale (lançado em Setembro de 2025) a encerrar definitivamente o ciclo da série criada por Julian Fellowes, Fackham Hall surge quase como uma catarse coletiva — uma forma de rir do que o público tanto amou.

Jim O’Hanlon parece disposto a recuperar o espírito das paródias clássicas, homenageando o melodrama britânico com a ironia dos tempos modernos. O trailer promete colunas douradas, sotaques pomposos, intrigas absurdas e um desfile de slapstick digno de Monty Python.

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E, convenhamos, só o título já é suficiente para arrancar um sorriso malicioso.

O Mundo Continua Louco, 40 Anos Depois: Brazil, de Terry Gilliam, Ainda Nos Persegue

O clássico distópico celebra quatro décadas enquanto o seu criador tenta, mais uma vez, concretizar o impossível

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Foi há precisamente 40 anos que Terry Gilliam nos atirou de cabeça para um pesadelo burocrático tão delirante quanto profético. Brazil, lançado em 1985, continua a ser um dos filmes mais visionários de sempre — uma mistura explosiva de Kafka, Orwell e Monty Python — e, segundo o próprio realizador, continua dolorosamente actual. A propósito do aniversário do filme, Gilliam foi ao Umbria Film Festival em Itália, e o que devia ser apenas uma celebração nostálgica acabou por ser também um desabafo sobre os desafios do cinema actual… e do futuro (ou falta dele).

A luta contra o sistema… dentro e fora do ecrã

Na entrevista ao Deadline, Gilliam confessou que ainda hoje se lembra vividamente da guerra que travou com a Universal para que Brazil fosse lançado tal como o concebeu — sem finais felizes impostos nem cortes “amistosos”. O que parecia uma loucura tornou-se lenda: Gilliam desafiou os estúdios, venceu, e abriu uma brecha de liberdade criativa que durou… algumas semanas. “Depois voltou tudo ao mesmo”, admite, entre risos e resignação.

Mas talvez a maior ironia de todas é que o mundo retratado em Brazil, feito com metáforas carregadas e humor negro, parece ter envelhecido como um vinho amargo — cada vez mais real, cada vez mais próximo. “As pessoas perguntam como é que eu sabia que o mundo ia ser assim”, diz Gilliam. “Mas era só olhar à volta. Já era assim.”

A burocracia mudou de forma, mas o pesadelo mantém-se

Se nos anos 80 Gilliam lutava contra formulários em duplicado e departamentos de informação omnipresentes, hoje enfrenta um inimigo mais subtil mas igualmente castrador: a falta de coragem dos estúdios. O cineasta de 83 anos está a tentar tirar do papel Carnival at the End of Days, uma comédia apocalíptica em que Deus decide destruir a humanidade por ter arruinado o planeta. O elenco é de luxo — Johnny Depp, Adam Driver, Jeff Bridges, Jason Momoa, Tom Waits, Asa Butterfield — mas, ainda assim, ninguém quer pagar a conta.

“O problema é que os produtores estão todos com medo”, explica. “Ninguém quer arriscar com ideias fortes ou provocadoras.” Gilliam lamenta que o cinema de hoje seja tecnicamente perfeito, mas sem alma. “Vejo filmes bem feitos, mas que não me fazem pensar. Não me chocam. Não me mudam.”

Satirizar o mundo já não chega — o mundo ultrapassou a sátira

Um dos maiores obstáculos? Donald Trump. Literalmente. O argumento de Carnival at the End of Days foi escrito em 2020, mas Gilliam confessa que o regresso do ex-presidente baralhou-lhe os planos. “Trump tornou-se o próprio carnaval. É difícil satirizar o mundo quando ele próprio se tornou uma sátira.”

Mesmo assim, não desiste. “Tenho saudades de filmar”, admite. “Até pensaria em trabalhar com a Netflix… mas continuo a sonhar com ecrãs gigantes, som a rebentar e aquela experiência quase religiosa de entrar numa sala escura para ver cinema.”

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E o legado de Brazil?

Para Gilliam, o filme continua a viver não dentro dele, mas nas reacções do público. “Não vejo os meus filmes depois de os acabar”, diz. “Mas há dois anos vi As Aventuras do Barão Munchausen em 4K e pensei: ‘Isto é mesmo bom! Gostava de ter feito isto.’” E talvez essa seja a verdadeira magia dos filmes de Terry Gilliam: mesmo que ele já não se reconheça neles, nós reconhecemo-nos. E precisamos deles mais do que nunca.

🏰 “Monty Python e o Cálice Sagrado” celebra 50 anos de humor anárquico e intemporal

Em 2025, o clássico da comédia britânica Monty Python e o Cálice Sagrado assinala meio século desde a sua estreia. Lançado em 1975, este filme marcou a primeira longa-metragem narrativa do grupo Monty Python, conhecido pelo seu programa televisivo Monty Python’s Flying Circus. Dirigido por Terry Gilliam e Terry Jones, o filme parodia a lenda arturiana, acompanhando o Rei Artur e os seus cavaleiros numa busca absurda pelo Santo Graal, com momentos icónicos como o uso de metades de coco para simular o som de cavalos.  

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🎬 Uma sátira intemporal

Apesar do seu orçamento limitado e estrutura narrativa deliberadamente caótica, o filme oferece uma crítica mordaz ao romantismo heroico, à mitificação histórica e às estruturas de classe. Cenas memoráveis, como o debate sobre a velocidade de voo de uma andorinha carregada, tornaram-se parte integrante da cultura popular. O filme também satiriza a severidade do cinema de terror folclórico britânico dos anos 70, transformando a violência e o erotismo em elementos ridículos.  


🧠 Legado duradouro

Cinquenta anos após o seu lançamento, Monty Python e o Cálice Sagrado continua a ser uma referência no mundo da comédia. Embora o grupo tenha produzido obras mais ambiciosas posteriormente, como A Vida de Brian e O Sentido da Vida, este filme permanece como um pico criativo do coletivo, sendo recitado de cor por fãs e mantendo-se hilariante mesmo quando evocado em segunda mão.  

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