“Gabriela” volta à televisão e continua tão provocadora, livre e irresistível como sempre
Há histórias que não envelhecem — apenas ganham mais sabor com o tempo. Gabriela é uma delas. E não é preciso muito para perceber porquê: basta regressar à Ilhéus dos anos 20, onde o calor, o cacau e os desejos mal escondidos se misturam numa combinação que continua a funcionar décadas depois.
Realizado por Bruno Barreto e baseado no universo literário de Jorge Amado, este clássico de 1983 regressa agora à televisão portuguesa numa exibição especial no TVCine Edition, no dia 29 de março às 22h00 . E sim, continua a ser daqueles filmes que se vêem como quem abre uma garrafa de vinho — sem pressa, mas com prazer.

No centro de tudo está Gabriela, interpretada por Sônia Braga num daqueles papéis que não se esquecem. Não porque seja apenas sensual — isso seria redutor — mas porque é livre. Radicalmente livre. Chega à cidade sem passado que a prenda nem futuro que a limite, e isso, num lugar governado por regras não escritas e homens com demasiado poder, é quase um acto revolucionário.
Quando começa a trabalhar para Nacib, vivido por Marcello Mastroianni, o que parecia ser apenas mais uma história de atração transforma-se lentamente em algo mais desconfortável — e muito mais interessante. Porque o problema nunca foi a paixão. Foi tudo o que vem com ela.
Nacib quer Gabriela, mas também quer moldá-la. Quer o encanto… mas dentro de limites. E é aí que o filme encontra a sua verdadeira força: no confronto entre o desejo de posse e a impossibilidade de controlar alguém que simplesmente não nasceu para obedecer.
À volta desta relação, desenha-se um retrato mais amplo de uma sociedade em transformação. Ilhéus não é apenas um cenário exótico — é um campo de batalha subtil, onde tradição, poder económico e mudança social colidem constantemente. Há coronéis, intrigas políticas, jogos de influência… mas, no meio de tudo isso, é uma mulher que desorganiza o sistema.
E fá-lo sem discursos. Sem grandes gestos. Apenas sendo quem é.

É precisamente essa naturalidade que faz de Gabriela um filme tão eficaz ainda hoje. Não tenta impor uma mensagem — deixa-a emergir. E talvez por isso continue a ser relevante: porque fala de liberdade, de identidade e de desejo de uma forma que não precisa de ser explicada.
Para o público português, há ainda uma camada extra de nostalgia. Antes deste filme, Gabriela, Cravo e Canela já tinha sido um fenómeno televisivo em 1977, tornando-se a primeira telenovela exibida em Portugal e marcando uma geração inteira . Esta versão cinematográfica não substitui essa memória — mas dialoga com ela.
E isso torna este regresso ainda mais interessante.
Porque no fim de contas, Gabriela não é apenas uma história sobre amor ou sensualidade. É uma história sobre aquilo que acontece quando alguém recusa jogar pelas regras — e, sem pedir licença, muda tudo à sua volta.
E há poucas coisas mais perigosas — ou mais fascinantes — do que isso.
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