Channing Tatum Reinventa-se em Roofman: Da Síndrome do Impostor à Nova Vida como Ator

Estreia mundial em Toronto com Kirsten Dunst

Channing Tatum regressou em grande ao Festival Internacional de Cinema de Toronto, apresentando Roofman, a comédia romântica inspirada na história verídica de Jeffrey Manchester, um ex-militar que assaltou dezenas de restaurantes McDonald’s nos anos 90, entrando sempre pelos telhados.

Ao lado de Kirsten Dunst, que interpreta a funcionária de uma loja de brinquedos com quem Manchester se envolve, Tatum confessou que este filme o fez superar um dos maiores bloqueios da sua carreira: a síndrome do impostor.

“Já conseguia trabalhos como ator antes mesmo de saber o que estava a fazer. Pela primeira vez, talvez até neste filme, sinto que realmente conquistei o meu lugar à mesa”, disse o ator de 45 anos.

O homem por trás da lenda

Conhecido pela alcunha de Roofman, Manchester regressou à vida civil após servir no Exército dos EUA, mas acabou mergulhado em dificuldades financeiras. Nos assaltos, era notado pela forma quase cortês como tratava os funcionários: chegava a garantir que tinham casacos antes de os trancar nas câmaras frigoríficas.

Preso e condenado a várias décadas, fugiu em 2004 e passou meses escondido numa loja Toys “R” Us, em Charlotte, Carolina do Norte, onde sobreviveu a bolachas e M&Ms, lavava-se nas casas de banho e saía apenas de noite. Foi durante esse período que conheceu a funcionária que inspirou o romance retratado no filme.

O tom do filme: comédia romântica com um toque agridoce

O realizador Derek Cianfrance (Blue ValentineThe Place Beyond the Pines) optou por dar à história um tom mais leve, quase jovial, em vez de focar apenas nos crimes. “A sociedade já o julgou com severidade, e ele está a cumprir 45 anos de prisão. No nosso filme, quisemos olhar para ele com um pouco mais de graciosidade”, explicou.

Entre a vida e o papel

Para se preparar, Tatum falou diversas vezes com Manchester por telefone a partir da prisão. Apesar dos erros do homem que interpreta, mostrou empatia: “Olhem, eu era stripper. Às vezes, a ladeira escorregadia fica cada vez mais escorregadia, e depois damos por nós lá em baixo sem saber como voltar a levantar.”

A experiência pessoal de Tatum acabou por ser chave para dar humanidade ao personagem. “Consegui ver nele um homem que tomou decisões terríveis, mas sempre com o objetivo de sustentar os seus três filhos”, disse o ator.

Estreia marcada

Com estreia mundial em Toronto e chegada aos cinemas prevista para 16 de outubroRoofman apresenta-se como uma mistura ousada de romance, humor e drama humano, e pode muito bem redefinir a carreira de Channing Tatum, marcando o início de uma fase mais madura e consciente na sua filmografia.

Hamnet: Chloé Zhao Regressa em Força com Shakespeare e Paul Mescal

Um drama íntimo que já sonha com os Óscares

Depois do êxito arrebatador de Nomadland, que lhe valeu três estatuetas douradas, incluindo o Óscar de Melhor Realização, Chloé Zhao regressa ao cinema de autor com Hamnet. O filme, exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto, surge já como um dos favoritos para a temporada de prémios e promete emocionar plateias em todo o mundo.

Inspirado no romance homónimo de Maggie O’Farrell, o filme imagina a vida íntima de William Shakespeare(interpretado por Paul Mescal) e da sua esposa Agnes (papel de Jessie Buckley), centrando-se na tragédia da perda do filho, Hamnet — cujo nome, segundo estudiosos, seria praticamente indistinguível de Hamlet na Inglaterra isabelina.

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Shakespeare, amor e luto

A narrativa especula que Agnes terá encorajado William a seguir sozinho para Londres, acreditando na força do seu amor. Mas numa época assolada pela peste e pela mortalidade infantil, a dor da separação e da perda acaba por transformar o casamento numa ferida aberta.

Chloé Zhao assume aqui uma abordagem mais cronológica do que no livro, colocando em primeiro plano o luto e a dor que terão marcado o dramaturgo e inspirado a sua obra-prima. A intensidade das cenas levou muitos em Toronto às lágrimas, num retrato cru e poético do amor e da tragédia.

O percurso de Zhao: entre horizontes e intimismo

A realizadora recordou em Toronto a sua própria jornada — desde os tempos em que era uma “aluna de intercâmbio esquisita” num colégio britânico, sem saber falar inglês, até ao reconhecimento máximo em Hollywood.

Depois de The Rider (2017) e do fenómeno Nomadland (2020), Zhao teve uma incursão atribulada nos super-heróis da Marvel com Eternals, mas em Hamnet reencontra o território que a consagrou: um cinema mais íntimo, poético e profundamente humano.

“Passei os meus trintas a fazer filmes sobre horizontes e pores do sol”, confessou a realizadora. “Agora, nos meus quarentas, percebo que estava a fugir de mim mesma — tal como o Will em Hamnet.”

Paul Mescal e Jessie Buckley em destaque

O filme volta a reunir dois dos atores mais talentosos da sua geração. Mescal, nomeado ao Óscar por Aftersun, e Buckley, também já distinguida pela Academia, dão corpo a um casal dilacerado pela distância e pela perda, em interpretações que a crítica descreve como intensas e devastadoras.

Há ainda espaço para o jovem Noah Jupe, que interpreta um ator no mítico Globe Theatre. Mesmo com o papel em reescrita durante a rodagem, Zhao exigiu que decorasse cada linha da peça, para estar sempre preparado — uma prova da exigência e perfeccionismo da realizadora.

De Toronto para os Óscares

Sem data de estreia em Portugal, Hamnet já é visto como um dos grandes concorrentes da próxima temporada de prémios. Mais do que preencher lacunas históricas, Zhao oferece uma visão pessoal de Shakespeare: menos génio distante, mais homem vulnerável.

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Se Nomadland foi o filme que a colocou no mapa dos Óscares, Hamnet pode muito bem consolidar Chloé Zhao como uma das vozes mais importantes e ousadas do cinema contemporâneo.

Poetic License: A Estreia de Maude Apatow na Realização Divide Críticos em Toronto

Um retrato intergeracional com muito coração, mas pouca direção

Apresentado na secção Special Presentations do Festival de TorontoPoetic License marca a estreia de Maude Apatowcomo realizadora. O filme é descrito pela crítica internacional como uma comédia universitária calorosa e bem interpretada, mas também genérica e sem rumo definido.

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A história acompanha Liz (Leslie Mann), uma mulher de meia-idade que, ao mudar-se para uma nova cidade com o marido (Method Man), decide frequentar uma aula de poesia para ocupar o tempo. Enquanto o marido e a filha Dora (Nico Parker) se adaptam facilmente ao novo ambiente, Liz sente-se deslocada e acaba por se aproximar de dois estudantes: Sam (Andrew Barth Feldman) e Ari (Cooper Hoffman), que rapidamente a transformam numa figura de admiração e conselheira.

Triângulo improvável e conflitos familiares

O enredo mistura elementos de coming-of-age e comédia romântica enviesada: Ari é um jovem rico, sem grandes objetivos além de querer viver com Sam; este, por sua vez, prefere a vida de dormitório, tem ambições académicas em economia e uma namorada (Maisy Stella) que irrita o amigo. Liz, ex-terapeuta de casais, percebe logo a dependência entre os dois rapazes, mas aproxima-se deles tanto pela curiosidade como pela vontade de revisitar a própria juventude.

Enquanto Sam e Ari competem pela sua atenção, Liz lida com o vazio deixado pela independência crescente da filha e com um casamento pouco inspirador.

Críticas à falta de foco

Segundo a imprensa presente em Toronto, Poetic License sofre de uma execução dispersa. A narrativa “vagueia de cena em cena sem grande visão”, com momentos emocionais interrompidos antes de poderem ganhar profundidade. As aulas de poesia, por exemplo, raramente abordam a escrita ou o ofício, servindo mais como pano de fundo cómico para a professora excêntrica interpretada por Martha Kelly.

A crítica aponta ainda que elementos como “poesia” ou “economia” parecem escolhidos ao acaso, sem real impacto na construção das personagens. Method Man surge mal aproveitado e pouco convincente como académico, enquanto Nico Parker, embora competente, não recebe material suficiente para brilhar.

Os pontos fortes: elenco e química

Apesar das fragilidades do guião, o elenco é amplamente elogiado. Leslie Mann, com a sua habitual leveza cómica, lidera a narrativa com charme. Cooper Hoffman é destacado como o grande ladrão de cenas, trazendo dimensão a um personagem que podia facilmente ser irritante. E a relação entre Mann e Parker confere ao filme alguns dos momentos mais ternos, revelando o olhar carinhoso de Apatow sobre a mãe.

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Um começo promissor, mas irregular

Com 1h57 de duração, Poetic License mostra que Maude Apatow tem potencial como realizadora, sobretudo na forma como dirige os atores e capta intimidade em pequenos gestos. No entanto, a crítica sublinha que o filme, apesar de bem-intencionado e “de grande coração”, se dissipa rapidamente da memória quando terminam os créditos.

Good Fortune: A Comédia de Aziz Ansari Que Divide Críticos em Toronto

Apresentado no Festival de TorontoGood Fortune marcou o regresso de Aziz Ansari como realizador, argumentista e protagonista. Depois de vários anos afastado do grande ecrã e após o colapso do seu projeto anterior (Being Mortal), Ansari reuniu Seth RogenKeke Palmer e Keanu Reeves para dar vida a uma comédia de troca de corpos com ambições sociais.

Apesar da expectativa, a receção internacional tem sido morna. A crítica elogia as intenções, mas aponta a falta de ritmo e de gargalhadas como os principais problemas do filme.

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Uma premissa com potencial

A história acompanha Arj (Ansari), um editor de documentários que sobrevive a trabalhos precários e dorme no carro, até cruzar-se com o milionário da tecnologia Jeff (Rogen). A intervenção divina surge através de Gabriel, um anjo interpretado por Keanu Reeves, que decide trocar as vidas dos dois.

O objetivo é mostrar que a riqueza não resolve todos os problemas, mas o plano sai ao contrário: Arj recusa-se a abdicar do luxo, e o enredo mergulha em caos cómico.

O que dizem as críticas internacionais

Segundo as primeiras análises publicadas em meios estrangeiros, Good Fortune sofre com um tom inconsistente. O jornal The Guardian sublinha que o filme tem “nobres intenções” ao abordar as desigualdades sociais, mas “não arranca grandes gargalhadas”.

A crítica nota que o estilo de humor de Ansari, mais associado à ironia e observação subtil em Master of None, não se adapta com facilidade a uma comédia de alto conceito. A estrutura solta, as regras pouco claras da troca de corpos e a edição apressada deixam o filme “sem ritmo e repetitivo”.

O elenco, no entanto, recebe elogios: Ansari continua carismático, Rogen é sempre uma presença sólida e Reeves diverte ao satirizar a própria imagem, embora a piada se esgote depressa. Já Keke Palmer é considerada “encantadora mas subaproveitada”, num papel que poderia ter acrescentado maior profundidade política.

Entre intenções e resultados

As reações convergem na mesma conclusão: Good Fortune tem o coração no sítio certo e levanta questões relevantes sobre precariedade laboral e desigualdade, mas não consegue equilibrar a mensagem com o humor. O resultado é visto como uma obra simpática, mas irregular, que não devolve à comédia o impacto que Ansari pretendia.

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A estreia comercial está marcada para 17 de outubro, com a dúvida sobre como o público reagirá a este regresso do género às salas.

Dwayne Johnson arrisca tudo em The Smashing Machine: “Estava demasiado assustado para explorar este lado”

Conhecido por ser o herói musculado que salva o mundo em superproduções como Jumanji ou Red Notice, Dwayne “The Rock” Johnson está prestes a mostrar uma faceta completamente diferente em The Smashing Machine. O biopic realizado por Benny Safdie (um dos irmãos por trás de Uncut Gems) leva o ator para um território mais cru, vulnerável e, segundo o próprio, assustador.

Da ação familiar ao retrato cru de um campeão problemático

Em entrevista à Vanity Fair, Johnson admitiu que talvez papéis mais “gritty” nunca lhe tenham surgido porque ele próprio tinha medo de os enfrentar.

“Era muito real. Estava mesmo assustado e pensei: não sei se consigo fazer isto. Talvez estas oportunidades não viessem ter comigo porque eu estava demasiado assustado para explorar este lado.”

No filme, Johnson interpreta Mark Kerr, lendário lutador de MMA e duas vezes campeão do UFC, mas também uma figura marcada por problemas pessoais, dependências e fragilidades emocionais — tudo muito distante do habitual carisma inquebrável do ator.

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13 próteses para se transformar em Mark Kerr

Para o papel, The Rock submeteu-se a um processo de caracterização intenso, com cerca de 13 a 14 próteses diferentesque alteraram subtilmente a sua aparência.

“Passei três ou quatro horas em frente ao espelho a ver tudo mudar. Quando cheguei ao set, já era Mark Kerr. Sentia-o na forma como andava, como falava e até como olhava para a vida.”

Uma parceria poderosa com Emily Blunt

Ao lado de Johnson estará Emily Blunt, numa colaboração que promete acrescentar camadas emocionais ao drama. A dupla, já testada em Jungle Cruise, regressa agora em registos muito diferentes, longe do escapismo da Disney e muito mais próximos da dor e intensidade do cinema independente.

Estreia nos festivais e nos cinemas

The Smashing Machine terá a sua estreia norte-americana no Festival de Toronto a 8 de setembro, antes de chegar às salas de cinema no dia 3 de outubro. O filme, produzido pela A24, insere-se na tradição do estúdio de reinventar atores populares em registos inesperados — e poderá até abrir caminho para que Johnson entre, pela primeira vez, na corrida aos prémios.

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✨ Ao que tudo indica, The Rock decidiu deixar cair a persona de herói invencível para mostrar a fragilidade de um homem em pedaços. E isso pode ser o maior combate da sua carreira.