O vento da mudança não espera: Living the Land e a China num ponto de viragem histórico

Há filmes que chegam às salas como simples estreias semanais e há outros que se impõem como verdadeiros retratos de um país em transformação. Living the Land – O Vento é Imparável, que se estreia esta quinta-feira em Portugal, pertence claramente ao segundo grupo. Vencedor do Urso de Prata para Melhor Realização no Festival de Cinema de Berlim em 2025, o segundo filme do realizador Huo Meng afirma-se como um olhar delicado, sensorial e profundamente humano sobre uma China em mutação acelerada.

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Da Revolução Cultural à explosão criativa

Durante décadas, o cinema chinês viveu sob fortes limitações, especialmente no período da Revolução Cultural. O seu ressurgimento internacional começou nos anos 1980 com a chamada Quinta Geração, onde se destacaram nomes como Zhang Yimou e Chen Kaige. Hoje, essa classificação tornou-se quase irrelevante: o número de cineastas chineses revelados e premiados em grandes festivais é tal que já não se contam gerações — contam-se filmes marcantes.

Huo Meng é um desses novos nomes a acompanhar de perto. Com apenas a sua segunda longa-metragem, conquista Berlim e confirma que o cinema chinês contemporâneo continua a reinventar-se, agora com um olhar mais íntimo, menos épico e mais atento ao quotidiano.

Um ano, um lugar, um país em transição

Living the Land decorre numa região rural do nordeste da China, em 1991, um ano simbólico num país que acelerava a modernização económica e social. Partindo das suas próprias memórias de infância, Huo Meng constrói um retrato sensível das consequências dessa mudança, sobretudo na relação entre campo e cidade.

A narrativa acompanha uma família rural ao longo de um ciclo completo das estações do ano. No centro está Chuang, um rapaz de dez anos que vê os dois irmãos mais velhos partirem para a cidade em busca de trabalho e futuro, enquanto ele permanece no campo, ligado à terra, aos rituais e a uma forma de vida que começa lentamente a desaparecer.

Cinema como experiência sensorial

Mais do que uma história linear, Living the Land propõe uma experiência impressionista. Pessoas e paisagem surgem em pé de igualdade, num cinema que observa gestos, silêncios e rituais com paciência quase contemplativa. O realizador recorre maioritariamente a actores amadores, reforçando a autenticidade dos rostos e das emoções, e constrói um universo onde o som — do vento, da terra, dos animais — é tão importante quanto a imagem.

Sem negar o progresso nem cair na nostalgia fácil, o filme sublinha algo essencial: a modernização tem custos, e a ruptura total com a tradição pode significar a perda de uma identidade espiritual profunda, enraizada na vida rural chinesa.

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Um filme necessário

Encantador enquanto espectáculo cinematográfico e revelador na sua dimensão sociológica, Living the Land – O Vento é Imparável confirma Huo Meng como uma voz a seguir com atenção. Um filme discreto, mas poderoso, que observa a História a partir do chão — literalmente — e lembra que, por mais imparável que seja o vento da mudança, a terra guarda sempre memória.

‘Ne Zha 2’ Torna-se o Filme de Animação Mais Rentável da História com Apoio Patriótico na China

O cinema chinês acaba de quebrar mais um recorde com Ne Zha 2, a sequela animada baseada num conto clássico do século XVI. O filme, que segue a jornada de um jovem marginalizado com poderes mágicos, já arrecadou 12,4 mil milhões de yuans (cerca de 1,7 mil milhões de dólares), tornando-se o filme de animação mais rentável de sempre e integrando a lista dos dez filmes mais lucrativos da história do cinema.

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Uma Onda de Apoio Patriótico

O sucesso de Ne Zha 2 não se deve apenas à sua história cativante ou à qualidade da animação, mas também a um forte sentimento patriótico que tem levado empresas e organizações chinesas a impulsionar as bilheteiras de forma ativa.

Na província de Shandong, a empresa Weilong Food suspendeu operações temporariamente para levar 900 funcionários ao cinema, partilhando vídeos da iniciativa na plataforma Douyin. A empresa exibiu uma faixa com a mensagem: “Número um de bilheteira mundial; Vamos, vamos, vamos!”.

O diretor de promoção da Weilong Food, Li Zhiwei, explicou a iniciativa: “Queremos ajudar os filmes e a animação chineses a irem mais longe. Agora é a nossa vez — marcas nacionais a apoiarem a animação nacional.”

A empresa automóvel Zeekr distribuiu vouchers de cinema para os seus colaboradores, ajudando a impulsionar as bilheteiras, enquanto a Xiaomi também organizou exibições especiais para os seus funcionários.

Este fenómeno de nacionalismo participativo é visto como um reflexo do crescente orgulho cultural chinês. De acordo com Xiaoning Lu, especialista em cinema chinês na Universidade SOAS de Londres: “Os indivíduos mobilizam-se voluntariamente para apoiar um produto cultural como um gesto patriótico.”

Cinema Chinês a Dominar o Mercado Interno

A ascensão de Ne Zha 2 acontece num momento em que as audiências chinesas estão a afastar-se dos filmes de Hollywood, preferindo produções nacionais que exploram temas históricos e mitológicos. Um exemplo semelhante é o videojogo Black Myth: Wukong, baseado em mitologia chinesa e que também despertou uma onda de entusiasmo no país.

Em 2021, o filme chinês The Battle at Lake Changjin, financiado pelo Departamento de Propaganda do Partido Comunista, arrecadou 99% das suas receitas na China, demonstrando como o mercado interno se tem tornado autossuficiente. De forma semelhante, Ne Zha 2 dominou as bilheteiras domésticas, alcançando o primeiro lugar global na animação apenas com o seu desempenho na China.

O lançamento norte-americano, no entanto, teve um impacto limitado, arrecadando 7,2 milhões de dólares no fim de semana de estreia, ficando em quinto lugar na bilheteira, liderada por Captain America: Brave New World.

Impacto nas Salas de Cinema

O sucesso estrondoso de Ne Zha 2 também teve efeitos colaterais nos cinemas chineses. De acordo com Wu, gerente de um cinema em Zhenjiang, houve um aumento significativo na procura de sessões privadas organizadas por empresas, escolas e até departamentos governamentais.

Wu também relatou que muitos espectadores têm evitado Captain America: Brave New World para “guardar bilheteira para Ne Zha”. Os cinemas responderam reduzindo o número de sessões do blockbuster americano para dar mais espaço ao sucesso da animação chinesa.

O Futuro do Cinema Chinês

Para Ying Zhu, autora de Hollywood in China: Behind the Scenes of the World’s Largest Movie Market, o fenómeno Ne Zha 2 ilustra a crescente independência do cinema chinês em relação a Hollywood. Já Stanley Rosen, diretor do East Asian Studies Center na Universidade do Sul da Califórnia, reforça: “O mercado global continuará a ser dominado por Hollywood, mas o mercado chinês será dominado pela China.”

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Com o crescimento de um público cada vez mais fiel a produções nacionais e um nacionalismo cultural em ascensão, a indústria cinematográfica chinesa parece estar a entrar numa nova era de autossuficiência e dominação do seu próprio mercado. Ne Zha 2 é apenas o mais recente símbolo dessa tendência.

“Nezha 2” Torna-se no Filme Mais Visto da História da China e Pode Bater Novo Recorde 🎬🏆

O cinema chinês acaba de alcançar um marco impressionante: “Nezha 2” tornou-se o filme mais visto da história da China, ultrapassando o recorde de bilheteira de “Wolf Warrior” (2015) e consolidando-se como um fenómeno cultural e financeiro.

Este filme de animação, baseado na mitologia chinesa, arrecadou até agora 5,8 mil milhões de yuan (770 milhões de euros) e já vendeu mais de 159 milhões de bilhetes. Especialistas preveem que pode vir a ser o primeiro filme a ultrapassar os 10 mil milhões de yuan (1,3 mil milhões de euros) no país.

🔥 Um Fenómeno de Bilheteira

📅 Estreia: O filme chegou às salas durante as férias do Ano Novo Lunar, um dos períodos de maior afluência aos cinemas chineses.

📈 Recordes batidos:

✅ Filme com mais bilhetes vendidos da história da China 🎟️

✅ Maior bilheteira da história do país 💰

✅ Pode tornar-se no primeiro filme a ultrapassar 10 mil milhões de yuan 🚀

🔎 Qual o segredo do sucesso?

Segundo a agência oficial Xinhua, o impacto de “Nezha 2” deve-se à sua narrativa envolvente, à forte ligação com a cultura chinesa e à impressionante qualidade visual.

📖 O Que Conta “Nezha 2”?

A animação é baseada no romance clássico chinês do século XVI, “Investidura dos Deuses”, e continua a história do primeiro filme, “Nezha” (2019), que também foi um sucesso de bilheteira.

👦 Quem é Nezha?

Nezha é uma figura mitológica muito popular na China, frequentemente representado como um jovem guerreiro que luta contra forças do mal. A sua história é repleta de batalhas épicas, magia e dilemas morais.

🎥 Sucesso da franquia:

📌 “Nezha” (2019): arrecadou 5 mil milhões de yuan (660 milhões de euros).

📌 “Nezha 2” (2025): já superou os números do primeiro filme e pode bater todos os recordes.

🎭 Impacto na Indústria Cinematográfica Chinesa

O sucesso de “Nezha 2” surge num momento crucial para o cinema chinês, que tem enfrentado dificuldades financeiras:

📉 Receita de bilheteira em 2024: 42,5 mil milhões de yuan (cerca de 6 mil milhões de euros) – queda de 22,5%face a 2023.

🏛️ Impacto da política ‘zero Covid’: nos últimos anos, milhares de salas fecharam e muitas outras funcionaram com limitações de lotação.

Apesar destas dificuldades, os filmes chineses continuam a dominar o mercado doméstico, representando 78,7% das receitas totais em 2024.

🚧 Restrições aos filmes estrangeiros:

O governo chinês impõe um sistema de quotas que limita o número de produções internacionais em exibição – apenas cerca de 35 filmes estrangeiros são permitidos por ano.

🔮 O que esperar do futuro?

Com a recuperação da indústria e o sucesso de “Nezha 2”, a animação chinesa pode estar prestes a entrar numa nova era de ouro, consolidando-se como uma das forças mais relevantes do cinema mundial.

📅 Será que o filme vai mesmo ultrapassar os 10 mil milhões de yuan? Os próximos meses serão decisivos!

China Bate Recorde de Bilheteira Durante o Ano Novo Lunar Graças a Sequências Populares 🎬🇨🇳

A indústria cinematográfica chinesa começou 2025 com o pé direito! Durante o feriado do Ano Novo Lunar, os cinemas chineses registaram um recorde histórico de bilheteira, superando a marca anterior estabelecida em 2021.

📈 Entre os dias 29 de janeiro e 2 de fevereiro, as bilheteiras arrecadaram um total de 5,74 mil milhões de yuans (aproximadamente 791,65 milhões de dólares). O sucesso deve-se, em grande parte, ao lançamento de sequências de grandes sucessos chineses, que conseguiram atrair o público numa altura em que outros setores da economia enfrentam dificuldades.

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O impacto dos incentivos do governo

O crescimento da bilheteira não ocorreu apenas devido ao entusiasmo do público com os filmes. O governo chinês implementou um pacote de incentivos para estimular o consumo, incluindo vales de desconto para bilhetes de cinema, distribuídos em regiões como Pequim, Jiangsu, Hubei e Guangdong.

O efeito foi imediato: salas de cinema lotadas em diversas cidades e, em algumas regiões como Hunan, a procura foi tão elevada que alguns cinemas começaram a vender bilhetes de pé para atender à demanda.

Os filmes que dominaram o Ano Novo Chinês

Os grandes responsáveis por esse sucesso foram as sequências de franquias populares, que se destacaram entre os filmes mais vistos:

🥇 “Nezha 2” – Com mais de 2,3 mil milhões de yuans arrecadados nos primeiros quatro dias, a animação mitológica foi o grande destaque do período. A história do guerreiro divino da mitologia chinesa conquistou novamente o público, após o sucesso do primeiro filme em 2019.

🥈 “Detective Chinatown 1900” – O quarto capítulo da saga Detective Chinatown arrecadou 1,54 mil milhões de yuans. A mistura de comédia e mistério continua a ser um grande chamariz para os espectadores chineses.

A escolha por sequências não foi acidental: com um mercado de entretenimento cada vez mais competitivo, as grandes franquias oferecem uma garantia de retorno financeiro, aproveitando a familiaridade e a base de fãs consolidada.

A estratégia do governo para impulsionar o consumo

O sucesso da bilheteira chinesa no Ano Novo Lunar reflete uma estratégia governamental para reverter a tendência de desaceleração económica. A extensão do feriado para oito dias foi uma das iniciativas para incentivar o consumo, já que muitos cidadãos têm optado por economizar em vez de gastar, devido a preocupações com o mercado de trabalho e o setor imobiliário.

Além dos incentivos diretos às bilheteiras, o governo chinês também aplicou subsídios para troca de veículos antigos, o que impulsionou as vendas de automóveis e veículos elétricos em 2024 e ajudou a elevar o crescimento do consumo.

O que esperar para 2025?

O recorde de bilheteira no Ano Novo Lunar reforça a importância da indústria cinematográfica para o mercado de consumo chinês. As sequências de sucessos locais continuam a dominar o interesse do público, mostrando que as narrativas enraizadas na cultura chinesa têm um apelo forte.

Com a China a apostar em incentivos para estimular o consumo e um público ansioso por experiências cinematográficas envolventes, o futuro do cinema chinês em 2025 promete continuar em ascensão.

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