Ethan Hawke e Sydney Sweeney: um combo perfeito fala de “Christy”, “Euphoria” e do lado perigoso de “perder-se” num papel

Há entrevistas de actores que soam a promoção automática e depois há conversas que parecem uma aula aberta de cinema, empaquetada em confidências pessoais. Foi isso que aconteceu quando Sydney Sweeney, 28 anos, e Ethan Hawke, 55, se sentaram frente a frente para falar de Christy, de Blue Moon, de boxe, de teatro, de filhos e da arte de se atirar de cabeça a um papel.

No meio de histórias de bastidores, cabeçadas reais no ringue, crises existenciais e memórias de Dead Poets Society, ficou uma frase que praticamente resume o tom da conversa: “Man, I wish you were my dad”, diz Sweeney a Hawke, já perto do fim. Não é apenas uma graçola – é a forma mais directa de reconhecer aquilo que a entrevista mostra do início ao fim: um actor veterano em modo mentor, e uma das estrelas do momento a absorver tudo.

ler também : Marcello Mastroianni: o homem por detrás do mito chega à RTP2 num documentário imperdível

Uma campeã no ringue e no cinema

Em Christy, Sydney Sweeney interpreta Christy Martin, lenda do boxe feminino e pioneira num mundo dominado por homens. No ecrã, vemos uma campeã invencível no ringue, enquanto fora dele se afunda num casamento-abuso com o marido/treinador. Sweeney não chegou ao projecto por acaso: andava à procura de histórias de combate.

“Cresci a fazer kickboxing, queria algo mais físico”, conta. Quando o argumento sobre Christy lhe chegou às mãos, a meio da leitura já estava em lágrimas. No fim, ligou de imediato ao realizador David Michôd para praticamente implorar o papel: “Disse-lhe: faço qualquer coisa, quero perder-me nisto.”

E perdeu mesmo. Treinou duas vezes por dia, todos os dias, ganhou cerca de 15 quilos de massa, levou socos a sério e acabou com uma concussão de que fala com um orgulho quase perverso. As coreografias de combate foram recriadas a partir das lutas reais de Christy; ela insistiu que as duplas de risco lhe batessem a sério. “Houve narizes a sangrar. Era real”, diz, mais divertida do que arrependida.

Hawke reconhece esse “alto” de desaparecermos dentro de um papel: “Quando é bom, a representação não é sobre ti. É um estado que ando a perseguir há 40 anos.”

Ethan Hawke, pai, mentor e cúmplice cinéfilo

A ligação de Hawke a Christy começou em casa. O actor conta que a primeira vez que viu o filme foi porque a filha de 17 anos, zero impressionada com a carreira do pai, lhe mandou mensagem a perguntar se queria ir ao cinema. “Quero ver o novo filme da Sydney Sweeney”, disse-lhe ela. Ele obedeceu.

Entre hambúrgueres vegetarianos e uppercuts emocionais, saíram da sessão com uma conversa séria sobre abuso, dependência emocional e o labirinto de sair de uma relação tóxica. A filha pediu-lhe para agradecer a Sweeney por ter contado aquela história. É desse lugar de pai que Hawke olha para a colega: com a mistura perfeita de orgulho, respeito e entusiasmo genuíno pelo que ela está a construir.

Ao longo da conversa, Hawke vai alternando entre anedotas de carreira — da vez em que quis ser trompetista de jazz como Chet Baker até ao trauma de ter levado tareia na única luta de boxe em que entrou depois de ver Rocky — e conselhos muito concretos sobre ofício. De como memoriza diálogos (passar tudo à mão, ouvir gravações, atar os atacadores enquanto diz o texto) à forma como, inspirando-se em Paul Newman, tenta ficar com o melhor dos seus personagens e “desligar” os traços que reconhece como sombrios em si próprio.

Christy, Cassie e a arte de não ter plano B

Se Euphoria foi “o início de tudo” para Sweeney, Christy é o papel que, por agora, resume o ponto em que ela está: uma actriz que já provou que sabe ir ao limite e que não tem medo de decisões “malucas” em cena. Com Cassie, diz, teve de aprender a não julgar o que fazia, a atirar-se sem rede, a aceitar que as melhores takes às vezes nascem da improvisação emocional mais arriscada.

Hawke reconhece o método: também Richard Linklater lhe pedia, em Blue Moon, que fizesse uma versão “sem filtro” das cenas, onde dissesse e fizesse tudo aquilo que, noutras circunstâncias, teria vergonha de experimentar. Quase sempre, é daí que vem o ouro.

Sweeney conta ainda que começou a trabalhar aos 12 ou 13 anos e que nunca teve plano B. “Não estou preparada para falhar”, diz. Hawke concorda: quando a vocação aparece tão cedo, mais do que uma escolha, é um facto biográfico. E recorda como percebeu muito cedo que a arte iria salvar a vida da filha Maya Hawke, hoje estrela de Stranger Things e do cinema independente.

De “Dead Poets Society” a “Christy”: personagens que ficam connosco

Há um momento bonito em que Hawke fala do impacto duradouro de certos filmes. Décadas depois de Dead Poets Society, continuam a abordá-lo em cafés para lhe dizer “O Captain! My Captain!”. E é com essa perspectiva de longo prazo que ele diz a Sweeney que, daqui a 10 ou 15 anos, novas gerações lhe vão contar como Christy lhes mudou a forma de olhar para o abuso, o desespero e a resistência.

A conversa também entra em territórios mais dolorosos, como a relação de Christy com a mãe — uma cena que Sweeney descreve como uma das mais difíceis de rodar, por não conseguir compreender um pai ou mãe incapaz de proteger o próprio filho. Hawke pega nesse tema para falar dos pais que projectam nos filhos uma imagem de espelho, em vez de os verem como pessoas autónomas. É aqui que se nota, mais do que nunca, o lado “pai em serviço” de Ethan.

No fim, quando ele a encoraja a experimentar teatro e lhe diz que o nervosismo é só falta de prática, Sweeney solta a frase que já corre as redes sociais: “Man, I wish you were my dad.” Ele ri-se, mas a verdade é que, ao longo da entrevista, funcionou exactamente como tal: a tranquilizá-la, a validar o que ela faz, a lembrá-la de que a vulnerabilidade é uma força e que o mundo responde quando um actor tem coragem de se atirar ao abismo.

ler também . Billie Eilish chega ao grande ecrã em 3D: trailer e primeiras imagens de Hit Me Hard and Soft: The Tour (Live in 3D) já disponíveis

Para o resto de nós, que só podemos assistir de fora, fica a sensação de termos espreitado um daqueles raros momentos em que a promoção se transforma em partilha verdadeira sobre aquilo que nos faz amar o cinema: histórias que nos lembram quem somos, quem podíamos ser — e como, às vezes, é preciso levar um murro bem dado para acordar.

Sydney Sweeney Fala Sobre “Ter de Aguentar Tudo” — e o Que a Nova Biopic Christy Revela Sobre as Pressões Sobre as Mulheres

A actriz interpreta a lendária pugilista Christy Martin e reflecte sobre a dificuldade de pedir ajuda, o machismo na indústria e a história brutal mas inspiradora da atleta.

Sydney Sweeney está de volta ao grande ecrã com “Christy”, o novo filme biográfico realizado por David Michôd, que se centra na vida complexa e muitas vezes trágica de Christy Martin, uma das primeiras mulheres a conquistar fama mundial no boxe profissional. Mas, para Sweeney, a experiência trouxe mais do que um papel desafiante: trouxe também um espelho das próprias pressões que sente enquanto mulher na indústria.

ler também : Billie Eilish Chega ao Grande Ecrã com Filme-Concerto em 3D — E a Realização É de… James Cameron

Em entrevista à Sky News, a actriz admite que tem enorme dificuldade em pedir ajuda — algo que reconheceu imediatamente na personagem.

“Tenho muita dificuldade em pedir ajuda. As minhas amigas dizem-me constantemente: ‘Sydney, podes pedir. Não há mal nenhum.’ Mas custa-me mesmo.”

Sweeney explica que esta resistência é alimentada por expectativas profundamente enraizadas:

“Especialmente sendo mulher, há tantas expectativas para termos tudo sob controlo. Se pedimos ajuda, é visto como fraqueza. Quando um homem pede ajuda, ninguém questiona. Mas se uma realizadora pedir ajuda, dizem logo que não está preparada.”

Uma luta real dentro e fora do ringue

O realizador David Michôd, que escreveu o argumento juntamente com a esposa Mirrah Foulkes, confirma que essa pressão é algo que a própria Foulkes sentiu repetidamente na indústria:

“Para muitas mulheres, assim que admitem que não sabem algo, surge imediatamente o julgamento: ‘não está preparada’, ‘não consegue’, ‘está fora de profundidade’. Eu digo que não sei o que estou a fazer vinte vezes por dia.”

É neste contexto que nasce “Christy”, filme que retrata não só a carreira lendária de Christy Martin, mas também a violência doméstica, o controlo coercivo e o sofrimento silencioso que marcaram a sua vida privada.

A ascensão de uma pioneira — e o inferno que viveu em segredo

Christy Martin tornou-se, em 1993, a primeira mulher contratada por Don King, um dos mais poderosos promotores de boxe do mundo. Conhecida como “The Coal Miner’s Daughter”, conquistou o título mundial WBC de super-meio-médio em 2009 e foi mais tarde incluída no International Boxing Hall of Fame.

Mas a sua vida pessoal era dominada por James “Jim” Martin, marido e treinador, 25 anos mais velho. Conheceram-se no final dos anos 80, casaram um ano depois e, durante décadas, Christy sofreu abuso físico e psicológico, enquanto tentava manter a carreira e ocultar a sua orientação sexual.

Em 2010, o caso tornou-se público da forma mais violenta possível: Jim esfaqueou-a e baleou-a no quarto da própria casa. Pensando que ela morreria, foi tomar banho, dando-lhe tempo para escapar e pedir ajuda. Sobreviveu. Ele foi condenado a 25 anos de prisão e morreu sob custódia em 2024.

“Incrível, inspiradora” — a verdadeira Christy Martin

Michôd encontrou-se com a atleta semanas antes do início das filmagens e ficou marcado pela sua humanidade:

“É incrivelmente doce, apesar de tudo o que viveu. E no mundo do boxe, é uma autêntica estrela.”

Um filme de impacto, não de números

Nos EUA, Christy estreou com 1,3 milhões de dólares, uma das piores aberturas para um filme lançado em mais de 2.000 salas. Mas Sydney Sweeney defende que o valor artístico e emocional do projecto não deve ser medido apenas pela bilheteira:

“Nem sempre fazemos arte para números. Fazemo-la pelo impacto.”

E impacto é precisamente o que Christy procura — ao expor a violência escondida por trás de uma atleta lendária e ao questionar as expectativas sufocantes que continuam a recair sobre as mulheres, tanto no desporto como no quotidiano.

lhe também :

Christy: A Força de Uma Campeã estreou nas salas portuguesas a 13 de Novembro de 2025.

Sydney Sweeney Brilha como Pioneira do Boxe no Trailer de Christy

A história real de Christy Martin chega ao grande ecrã

Foi divulgado o primeiro trailer de Christy, a cinebiografia da lendária pugilista norte-americana Christy Martin, com Sydney Sweeney no papel principal. O filme, realizado por David Michôd, estreia em novembro e promete trazer para o grande ecrã a história de uma das figuras mais marcantes do boxe feminino.

Uma vida de glória… e de luta fora do ringue

Nascida na Virgínia Ocidental, Christy Martin tornou-se um fenómeno ao conquistar títulos e ao ser promovida pelo icónico Don King (interpretado por Chad L. Coleman). No ringue, surgia sempre vestida de rosa e com uma energia imparável. Mas fora das luzes da ribalta, enfrentava uma vida marcada por violência doméstica e pela luta para assumir a sua sexualidade.

No filme, vemos a relação tumultuosa com o seu treinador e futuro marido, Jim Martin (Ben Foster), 25 anos mais velho, que viria a abusar dela. A sinopse resume: “Baseado em acontecimentos verídicos, a história de Christy Martin é uma de resiliência, coragem e da luta por recuperar a própria vida.”

Sydney Sweeney em transformação

Para interpretar a campeã, Sweeney passou por um processo físico intenso: meses de treinos, aumento de massa muscular e até ganhou 13 quilos para encarnar a atleta no auge da sua carreira.

Estreia em Portugal

Christy estreia nos cinemas norte-americanos a 7 de novembro, e deverá chegar a Portugal no mesmo período, embora ainda não tenha data confirmada pela distribuidora.

O filme promete ser não apenas um retrato desportivo, mas também um drama humano poderoso, com foco na luta de uma mulher que enfrentou tanto no ringue como na vida pessoal.