O thriller futurista estreia nos cinemas portugueses a 22 de Janeiro de 2026 e questiona quem deve julgar: humanos ou máquinas
À primeira vista, Mercy parecia um projecto condenado ao cepticismo. Um thriller distópico sobre justiça algorítmica protagonizado por Chris Pratt, actor que passou a última década soterrado pelo peso das grandes franquias, dificilmente soaria a proposta refrescante. No entanto, o filme revela-se uma surpresa moderada — não revolucionária, mas mais inteligente, dinâmica e provocadora do que o seu ponto de partida fazia prever.
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Em Portugal, o filme chega com o título Mercy: Prova de Culpa e tem estreia marcada para 22 de Janeiro de 2026, alinhando-se com o lançamento internacional. Uma data que coloca este thriller de ficção científica mesmo no início do ano cinematográfico, com ambições claras de captar a atenção de quem gosta de histórias tensas, tecnológicas e moralmente desconfortáveis.

Um julgamento onde o relógio dita a sentença
A acção decorre num futuro próximo, demasiado plausível para conforto. Chris Raven é um agente da polícia de Los Angeles que acorda após uma noite de excessos para descobrir que foi detido e colocado numa cadeira de interrogatório digital. A acusação é devastadora: o homicídio da própria mulher. Sem direito a um julgamento tradicional, Raven é integrado no programa “Mercy”, uma experiência judicial radical onde o arguido é avaliado por uma inteligência artificial.
Essa entidade chama-se Judge Maddox, interpretada com frieza elegante por Rebecca Ferguson, e acumula os papéis de juíza, júri e carrasca. A lógica do sistema é simples e aterradora: Raven dispõe de 90 minutos para provar a sua inocência. Se a probabilidade calculada de inocência ultrapassar os 94%, é libertado. Caso contrário, a execução acontece automaticamente quando o tempo termina.
A culpa é presumida. A dúvida razoável é um número. A justiça é um algoritmo.
Menos panfleto, mais mistério
Seria fácil transformar Mercy: Prova de Culpa num manifesto anti-tecnologia ou numa sátira pesada ao Estado policial. O filme evita esse caminho mais óbvio e opta por algo mais interessante. O tribunal virtual não está completamente viciado contra o arguido. Pelo contrário, Raven tem acesso total a provas, testemunhas, imagens de vigilância e documentos, navegando por um arquivo digital quase infinito.
Este dispositivo transforma o filme num híbrido curioso: parte thriller em tempo real, parte investigação criminal acelerada, com ecos de Minority Report, Memento e até de videojogos de detectives. As pistas acumulam-se rapidamente, o ritmo raramente abranda e a narrativa mantém-se envolvente mesmo quando a conspiração central não foge a terrenos muito inovadores.
Um Chris Pratt mais áspero e eficaz
Chris Raven é um protagonista imperfeito: alcoólico em recaída, emocionalmente instável, divorciado e com um passado profissional que o coloca numa posição irónica — foi ele próprio responsável por levar a tribunal o primeiro arguido julgado pelo programa Mercy, num processo pensado para legitimar o sistema.
Pratt interpreta-o como um herdeiro directo dos detectives dos anos 90, à la Bruce Willis, abandonando a persona de boa disposição genérica que marcou a sua fase mais comercial. Aqui, está mais duro, mais agressivo e mais convincente. É uma das suas performances mais interessantes fora do universo das franquias.
Rebecca Ferguson domina o filme
Apesar de um elenco secundário competente, é Judge Maddox quem verdadeiramente marca o filme. Rebecca Fergusonconsegue dar a uma entidade programada uma estranha sensação de presença e quase-consciência, falando com uma lógica autoritária que nunca perde o controlo.
É através desta personagem que o filme lança a sua questão mais provocadora: será que uma inteligência artificial pode avaliar provas com mais objectividade do que um júri humano? Mercy: Prova de Culpa não responde de forma simplista. Pelo contrário, sugere que o problema não está apenas na tecnologia, mas na forma como os humanos a utilizam — ou se escondem atrás dela.
Um thriller eficaz, mesmo sem reinventar o género
Realizado por Timur Bekmambetov, conhecido por Wanted, o filme aposta numa montagem nervosa, numa estética digital agressiva e num ritmo quase constante, ao ponto de justificar a existência de três editores. Nem todas as personagens secundárias são plenamente desenvolvidas, mas o foco mantém-se onde interessa: no dilema moral e na corrida contra o tempo.
Mercy: Prova de Culpa não vai redefinir o cinema de ficção científica nem o thriller judicial, mas é um exemplo sólido de entretenimento adulto, consciente do mundo em que vivemos e das perguntas desconfortáveis que já não podemos evitar.
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Veredicto final
Sem ser brilhante, Mercy: Prova de Culpa é um thriller eficaz, tenso e surpreendentemente equilibrado na forma como aborda a justiça, a tecnologia e o papel humano no meio de ambos. Uma estreia interessante para quem procura mais do que explosões e respostas fáceis.
