Brian De Palma prepara novo regresso a Hollywood com talento brasileiro — e filmagens em Portugal

Aos 85 anos, Brian De Palma não mostra qualquer intenção de abrandar. Pelo contrário: o realizador norte-americano prepara-se para regressar aos sets com Sweet Vengeance, um novo projecto que marca o seu retorno ao cinema internacional e que conta com a participação de dois nomes centrais do cinema brasileiro contemporâneo.

A informação foi confirmada pelo produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, durante uma mesa-redonda da Mostra de Cinema de Tiradentes dedicada à internacionalização do audiovisual brasileiro. Segundo Teixeira, Sweet Vengeance terá direcção de fotografia de Pedro Sotero e figurinos de Cláudia Kopke.

Talento brasileiro ao serviço de um mestre do cinema

Pedro Sotero é amplamente reconhecido pelo seu trabalho em Bacurau e Aquarius, ambos realizados por Kleber Mendonça Filho, bem como em títulos mais recentes como Propriedade (2022) e Baby (2024). A sua fotografia, marcada por uma atenção rigorosa ao espaço e à textura da imagem, tornou-se uma referência no cinema brasileiro contemporâneo.

Já Cláudia Kopke chega a este projecto depois de assinar os figurinos de filmes emblemáticos como Que Horas Ela Volta? e Ainda Estou Aqui, este último distinguido com o primeiro Óscar da história do cinema brasileiro. O seu trabalho é frequentemente elogiado pela forma como contribui para a construção psicológica das personagens, sem nunca se impor de forma gratuita.

Um regresso aguardado de Brian De Palma

Sweet Vengeance será o primeiro filme de Brian De Palma desde Domino – A Hora da Vingança (2019). O realizador é responsável por uma filmografia fundamental do cinema norte-americano, que inclui títulos como Carrie, a EstranhaVestida para MatarUm Tiro na NoiteO Duplo e Os Intocáveis — obras que continuam a influenciar cineastas e espectadores décadas depois da sua estreia.

Embora os detalhes do enredo permaneçam em segredo, sabe-se que o filme será inspirado em dois homicídios reais, o que sugere um regresso a um território mais sombrio e próximo do thriller psicológico, género onde De Palma sempre se moveu com particular mestria.

Filmagens em Portugal e ambições internacionais

As filmagens de Sweet Vengeance deverão arrancar em Maio, em Portugal, reforçando a crescente atractividade do país como palco de produções internacionais de grande escala. A escolha sublinha também a vocação cada vez mais global da RT Features, produtora que tem no seu currículo filmes como Chama‑me Pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino, e A Bruxa, de Robert Eggers.

Sem data de estreia definida e com o elenco ainda por anunciar, Sweet Vengeance começa desde já a gerar expectativa, não apenas pelo regresso de Brian De Palma, mas pela forma como cruza talento brasileiro, produção internacional e uma filmografia lendária que continua longe de dizer a última palavra.

O “Não” Que Mudou Hollywood: Don Johnson Recusou o Filme Que Transformou Kevin Costner numa Estrela

Uma decisão improvável nos anos 80 que continua a intrigar cinéfilos

Há decisões em Hollywood que parecem inexplicáveis à distância. Uma delas aconteceu em 1986, quando Don Johnson, então no auge da popularidade graças a Miami Vice, recusou o papel principal em Os Intocáveis, de Brian De Palma. O filme viria a tornar-se um clássico do cinema de gangsters… e a lançar definitivamente Kevin Costner para o estrelato.

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À primeira vista, parecia dinheiro fácil e prestígio garantido. Um grande realizador, um argumento ambicioso e um lugar de destaque num épico criminal sobre Eliot Ness e Al Capone. Mas Johnson viu exactamente o contrário: um risco sério de ficar preso para sempre ao mesmo tipo de personagem.

Quando Miami Vice era o centro do mundo

Entre 1984 e 1989, Miami Vice foi um fenómeno cultural. Carros desportivos, fatos italianos, cores pastel e música pop definiram uma estética que marcou toda uma década. Don Johnson, no papel do detective Sonny Crockett, tornou-se um ícone global quase da noite para o dia.

Curiosamente, esse sucesso absoluto não lhe trouxe conforto. Pelo contrário. Johnson sentia-se sufocado pela imagem do “polícia estiloso” e receava tornar-se um actor de um só registo. Num meio onde o rótulo pode ser uma sentença, decidiu travar antes que fosse tarde demais.

O convite de Brian De Palma — e a recusa imediata

Quando Brian De Palma lhe apresentou o projecto de Os Intocáveis, Johnson não ficou impressionado. O argumento que leu pareceu-lhe superficial, excessivamente decorativo e pouco desafiante. Eliot Ness, aos seus olhos, era apenas mais um polícia bem-apessoado, sem margem para crescimento dramático.

Anos mais tarde, numa conversa no podcast WTF with Marc Maron, Johnson explicou o seu raciocínio com franqueza: precisava de separar Don Johnson de Sonny Crockett “o mais depressa possível” e escolher projectos diametralmente opostos para evitar o temido typecasting. Recusar Os Intocáveis foi, para ele, um acto consciente de sobrevivência artística.

O actor admitiu ainda que desconhecia um detalhe crucial: Robert De Niro iria interpretar Al Capone. Se soubesse, garante que a decisão teria sido outra.

Kevin Costner: o homem certo, na hora certa

Sem Don Johnson, o papel acabou nas mãos de Kevin Costner, então um actor praticamente desconhecido. O timing foi perfeito. Os Intocáveis não só foi um sucesso comercial e crítico, como abriu caminho a uma carreira fulgurante, que incluiria Dances with WolvesJFK e The Bodyguard.

Curiosamente, Costner não era o primeiro nome numa longa lista de actores abordados — Gene HackmanHarrison Ford e Mickey Rourke também terão recusado. Às vezes, Hollywood funciona mesmo assim: quem aceita o papel que ninguém quer acaba por ganhar tudo.

Vida depois da recusa (e depois do Vice)

Após dizer “não” ao filme que podia tê-lo tornado uma estrela de cinema, Don Johnson seguiu outros caminhos — nem sempre felizes. Fez uma comédia romântica discreta (Sweet Hearts Dance), arriscou em projectos menores e acabou por perder o embalo enquanto protagonista de grandes produções.

Ironia das ironias, regressou ao papel de polícia nos anos 90 com Nash Bridges, voltando a patrulhar as ruas — desta vez sem fatos Armani, mas com o mesmo carisma. Mais tarde, reinventou-se como actor de carácter em filmes como Django Unchained e Knives Out.

Arrependimento? Nem pensar

Apesar de tudo, Don Johnson garante que nunca se arrependeu da decisão. Na altura, estava envolvido em música, corridas de lanchas rápidas e múltiplos projectos. Recentemente, participou na série Doctor Odyssey, entretanto cancelada, mostrando que continua activo e selectivo.

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Recusar Os Intocáveis pode ter custado uma carreira de blockbusters. Mas, para Johnson, foi o preço justo por manter controlo sobre quem queria ser — dentro e fora do ecrã.

Brian De Palma e o Legado de Scarface: Do Desprezo Inicial ao Status de Clássico

Brian De Palma, um dos realizadores mais icónicos de Hollywood, reflete frequentemente sobre como os seus filmes têm resistido ao teste do tempo, mesmo após receções iniciais negativas. Uma das suas obras mais discutidas, Scarface (1983), é um exemplo perfeito de como as tendências culturais e críticas podem mudar, transformando um filme controverso num marco cinematográfico.

Receção Inicial: Violência e Controvérsia

Quando foi lançado, Scarface enfrentou duras críticas pela sua violência gráfica, linguagem explícita e retratos crús do mundo do crime. A New York Magazine descreveu-o como “um filme vazio, intimidante e exagerado”. Até figuras proeminentes como os escritores Kurt Vonnegut e John Irving abandonaram a sessão de estreia, chocados pela infame cena da motosserra. Durante as filmagens, Martin Scorsese chegou a alertar Steven Bauer, que interpretava Manny: “Preparem-se, porque vão odiar isto em Hollywood… porque é sobre eles.”

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O público também ficou dividido. Celebridades como Cher elogiaram o filme, mas outras, como Lucille Ball, ficaram horrorizadas com a violência gráfica. Até Dustin Hoffman foi apanhado a dormir durante uma sessão, segundo relatos. Além disso, a comunidade cubana em Miami protestou contra o retrato de cubanos como criminosos e traficantes de droga.

Uma Mudança de Perceção

Apesar das críticas iniciais, Scarface foi gradualmente reavaliado. Com o passar do tempo, críticos e cinéfilos reconheceram-no como uma das maiores obras do género de gangsters. A história de ascensão e queda de Tony Montana, interpretado magistralmente por Al Pacino, tornou-se um estudo intemporal sobre ganância, poder e moralidade.

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Hoje, Scarface é venerado por gerações de fãs, sendo especialmente influente na cultura pop e no hip-hop. No entanto, De Palma manteve-se fiel à visão original do filme, rejeitando propostas de adicionar canções de rap à banda sonora como forma de promover o relançamento. “A música de Giorgio Moroder era fiel à época,” defendeu De Palma. “Eu disse: ‘Se isto é a “obra-prima” que dizem, deixem-na como está.’ Tive corte final, e isso encerrou a questão.”

Brian De Palma e a Resiliência Criativa

Para De Palma, o impacto duradouro de um filme é mais importante do que as críticas iniciais. “Alguns dos meus filmes que receberam as piores críticas são os que mais falam hoje em dia,” refletiu o realizador. “Estás sempre a ser julgado de acordo com a moda do momento, mas essa moda muda constantemente. O que importa é o que perdura, e sou muito sortudo por ter feito filmes que parecem ter resistido ao tempo.”

O Legado de Scarface

Scarface continua a ser uma referência no cinema, influenciando não só outros filmes de crime, mas também música, moda e cultura popular. A frase icónica “Say hello to my little friend” tornou-se um símbolo da atitude desafiadora e excessos de Tony Montana, encapsulando a essência do filme.

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Mais do que uma história de gangsters, Scarface é um testemunho da visão de De Palma e da colaboração com talentos como Al Pacino e Giorgio Moroder. É um lembrete de que o verdadeiro valor de uma obra de arte é frequentemente determinado pelo tempo e pelo impacto cultural que deixa para trás.