O documentário sobre Mel Brooks, a crise das comédias de estúdio e um apelo pouco habitual: desligar a televisão e sair à rua
Quando Judd Apatow aceitou o convite da HBO para realizar um documentário sobre Mel Brooks, achava que conhecia tudo sobre o homem que ajudou a definir a comédia moderna. Estava enganado. O resultado desse reencontro — Mel Brooks: The 99 Year Old Man! — é um mergulho raro e profundamente humano na vida de um criador que, aos 99 anos, continua a ser uma referência absoluta… e um espelho incómodo para o presente de Hollywood.
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Dividido em duas partes, o documentário não se limita a alinhar anedotas ou sucessos. Apatow quis ir mais fundo: falar da II Guerra Mundial, das perdas, dos casamentos, das inseguranças e do que fica depois de uma vida inteira dedicada a fazer rir. Mel Brooks aceitou — e isso faz toda a diferença.
Quando Mel Brooks era “a Beyoncé” da comédia
Apatow recorda o impacto de Brooks nos anos 70 com uma comparação improvável, mas certeira: Mel Brooks era, na altura, “a Beyoncé da comédia”. Blazing Saddles e Young Frankenstein estrearam no mesmo ano, algo impensável hoje, e dominaram completamente a cultura popular.
Era um tempo em que o país inteiro parecia concordar sobre o que importava. Se alguém surgia na capa da Time, isso significava alguma coisa. Brooks fazia filmes escandalosos, politicamente incorrectos, cheios de sátira racial e sexual — e mesmo assim chegava ao centro do sistema. Ou talvez precisamente por isso.
Curiosamente, The Producers, hoje considerado um clássico absoluto, foi inicialmente um fracasso comercial. O reconhecimento veio mais tarde, incluindo um Óscar de Argumento Original que Mel Brooks ganhou… batendo Stanley Kubrick e 2001: Odisseia no Espaço. Um daqueles momentos que hoje parecem impossíveis.
O lado íntimo por detrás do humor
Uma das grandes forças do documentário está na forma como Apatow consegue afastar Brooks do registo de “contador de histórias profissionais”. O realizador admite que muitas das anedotas já tinham sido contadas dezenas de vezes. O desafio foi outro: perceber o que existe por baixo da persona.
Brooks perdeu o pai aos dois anos de idade, cresceu em dificuldades económicas profundas e construiu o humor como uma forma de sobrevivência. Apatow insiste nessas feridas antigas, não por voyeurismo, mas porque elas explicam a urgência, a agressividade e a coragem do seu cinema.
Rob Reiner, Carl Reiner e uma amizade irrepetível
Um dos momentos mais emocionantes do documentário envolve Rob Reiner, que surge numa das suas últimas entrevistas antes de morrer tragicamente, juntamente com a mulher. A sua presença é essencial não só pelo seu próprio percurso, mas porque funciona como ponte para o pai, Carl Reiner, um dos amigos mais próximos e colaboradores de Mel Brooks durante mais de 70 anos.
A relação entre Brooks e Carl Reiner é descrita como algo quase impossível de repetir: uma amizade criativa baseada em admiração mútua, generosidade e respeito. Brooks, figura explosiva e dominadora, via em Carl uma espécie de figura paterna — alta, calma, protectora. Uma revelação que muda completamente a leitura pública do comediante.
A comédia de estúdio está em vias de extinção?
A entrevista de Apatow aborda também um tema que lhe é particularmente caro: o colapso da comédia nos grandes estúdios. Segundo o realizador, o fim do mercado de DVDs destruiu o modelo económico que sustentava este tipo de filmes. Metade das receitas vinha das salas, metade do mercado doméstico. O streaming nunca compensou essa perda.
O resultado foi uma indústria cada vez mais avessa ao risco. Filmes de terror baratos tornaram-se apostas “seguras”, enquanto a comédia passou a ser vista como pouco exportável. O problema? Sem comédias, não surgem novos talentos. Não há novos Adam Sandler, Kristen Wiig ou Jim Carrey. O público continua a consumir humor — mas fora das salas, no TikTok ou no YouTube.
O paradoxo Apatow: cinema, activismo e desconforto
Talvez o momento mais inesperado da conversa surja quando Apatow, em plena promoção do documentário, faz um apelo frontal: desliguem a televisão e protestem contra o ICE. Para ele, a normalização do caos político e social nos Estados Unidos é tão perigosa quanto a estagnação criativa de Hollywood.
É uma posição desconfortável, até contraditória — pedir que não vejam o seu próprio trabalho — mas profundamente coerente com o espírito de Mel Brooks: usar a visibilidade para dizer algo que incomoda.
Um legado que desafia o presente
Mel Brooks: The 99 Year Old Man! não é apenas um retrato de um génio da comédia. É um lembrete de que Hollywood já foi um espaço onde o risco, a provocação e o mau gosto inteligente tinham lugar no centro do sistema. E que talvez seja isso que mais falta hoje.
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Aos 99 anos, Mel Brooks continua a rir-se da morte, do poder e do medo. E Judd Apatow, ao escutá-lo com atenção rara, deixa uma pergunta no ar: será que ainda há espaço para este tipo de coragem no cinema contemporâneo? 🎬








