De A Coisa a Inception: 25 filmes entram no Registo Nacional de Cinema dos Estados Unidos

O cinema enquanto património cultural voltou a ser celebrado nos Estados Unidos com o anúncio da mais recente selecção do Registo Nacional de Cinema, iniciativa da Library of Congress que visa preservar obras consideradas essenciais para a memória colectiva do país. Este ano, 25 novos filmes foram escolhidos, elevando o total para 925 títulos, abrangendo mais de um século de História do cinema, desde o final do século XIX até à segunda década do século XXI.

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A decisão foi tornada pública a 29 de Janeiro, pelo National Film Preservation Board, e reflete uma selecção particularmente eclética: cinema mudo, clássicos de Hollywood, documentários, animação e filmes contemporâneos que, apesar da sua relativa juventude, já demonstraram um impacto cultural duradouro.

Entre os títulos agora consagrados encontram-se A Coisa, de John Carpenter, Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, e Inception, de Christopher Nolan — três obras muito diferentes entre si, mas unidas pela forma como moldaram o imaginário cinematográfico das últimas décadas.

Um século de cinema preservado

O arco temporal desta selecção é particularmente expressivo. O filme mais antigo incluído é The Tramp and the Dog(1896), enquanto o mais recente é O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson. Pelo meio, surgem obras que marcaram épocas, géneros e gerações, confirmando que a noção de “clássico” já não está limitada ao cinema do passado distante.

Entre os títulos mais reconhecidos pelo grande público estão Karate Kid – O Momento da VerdadeGloryPhiladelphiaAs Meninas de Beverly HillsO Show de Truman e Os Incríveis. Filmes que, apesar de recentes quando comparados com os primórdios do cinema, já provaram a sua relevância cultural e estética.

Seis filmes mudos e histórias recuperadas do esquecimento

Um dos aspectos mais sublinhados pela organização é a inclusão de seis filmes mudos, demonstrando um esforço contínuo de preservação dos primeiros anos da produção cinematográfica norte-americana. Segundo Jacqueline Stewart, presidente do conselho e rosto habitual da Turner Classic Movies, esta selecção “mostra a diversidade temática e estilística do cinema nos seus anos formativos”.

Entre estes títulos destaca-se The Tramp and the Dog, considerado perdido durante décadas e redescoberto apenas em 2021 na Biblioteca Nacional da Noruega. O filme tem ainda a particularidade de ser o primeiro comercialmente produzido em Chicago e incluir aquele que muitos historiadores consideram o primeiro exemplo de humor físico envolvendo… a perda de calças em cena.

Outros títulos mudos agora preservados incluem The Oath of the Sword, um dos primeiros exemplos conhecidos de cinema asiático-americano, The Maid of McMillan, considerado o mais antigo filme estudantil existente, The Lady, um melodrama realizado por Frank Borzage, e Sparrows, protagonizado por Mary Pickford, numa das suas interpretações mais elogiadas.

Autores modernos entram definitivamente no cânone

A lista de 2025 confirma também a consolidação de vários cineastas contemporâneos no cânone cultural norte-americano. Para além de Carpenter, Linklater e Nolan, surgem nomes como Amy Heckerling, com As Meninas de Beverly Hills, e Ken Burns, que entra pela primeira vez no Registo Nacional com um dos seus documentários históricos — um reconhecimento simbólico da importância do documentário enquanto forma de cinema.

Cinema como memória colectiva

Segundo Robert R. Newlen, “quando preservamos filmes, preservamos a cultura americana para as gerações futuras”. Uma ideia reforçada por representantes da indústria exibidora, que sublinham o papel das salas de cinema como espaços de memória social, descoberta e formação cultural.

Os 25 filmes agora escolhidos foram seleccionados a partir de quase 8.000 nomeações feitas pelo público, num processo que continua aberto a novas propostas. Qualquer filme com mais de dez anos pode ser nomeado até 15 de Agosto de 2026.

Para assinalar a selecção deste ano, a Turner Classic Movies vai emitir um especial televisivo a 19 de Março, com a exibição de vários dos filmes agora integrados no Registo Nacional.

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Entre o cinema mudo e os grandes filmes contemporâneos, esta lista lembra-nos de algo essencial: o cinema não é apenas entretenimento — é História, identidade e memória projectada em luz.