Demorou 12 Anos a Nascer — e Apenas 15 Dias a Ser Filmado: “Blue Moon” Chega Finalmente às Salas Portuguesas

Richard Linklater filma o ocaso de um génio num drama íntimo com Ethan Hawke nomeado ao Óscar

Há projectos que exigem tempo. Não apenas financiamento ou logística, mas maturidade. Blue Moon, o mais recente filme de Richard Linklater, estreia finalmente nas salas portuguesas depois de um percurso invulgar: levou 12 anos a amadurecer e foi filmado em apenas 15 dias.

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O argumento, assinado por Robert Kaplow, chegou às mãos de Linklater há mais de uma década. O realizador enviou-o de imediato a Ethan Hawke, mas sentiu que ainda não era o momento certo. Hawke era, nas suas palavras, “demasiado jovem e bem-parecido” para interpretar Lorenz Hart nos seus últimos dias. Em vez de recorrer a maquilhagem ou truques de caracterização, decidiu esperar. Ao longo de anos, realizaram leituras regulares do texto, afinando personagens e deixando que o tempo marcasse naturalmente o rosto do actor.

Quando finalmente avançaram para a rodagem, o processo foi fulgurante: 15 dias bastaram para filmar uma história concentrada quase inteiramente numa única noite — 31 de Março de 1943, a estreia do musical Oklahoma!.

O Génio e o Declínio

Blue Moon centra-se em Lorenz Hart, metade da lendária dupla Rodgers & Hart. Enquanto Richard Rodgers era disciplinado e metódico, Hart era um poeta brilhante, mas profundamente instável. Sofria de depressão, lutava com a sua sexualidade num tempo em que esta era clandestina e enfrentava um alcoolismo que se tornava cada vez mais devastador.

O filme acompanha o momento em que Rodgers decide avançar com Oscar Hammerstein II para criar um novo tipo de musical, em que as canções fazem avançar a narrativa — revolução que culminaria em Oklahoma!. Hart, incapaz de acompanhar essa viragem criativa, assiste à estreia como um homem deixado para trás. Pouco depois, desaparece numa espiral autodestrutiva que o levaria à morte aos 48 anos.

Linklater evita o biopic tradicional. Em vez de percorrer toda a vida do compositor, concentra-se num recorte temporal preciso, fiel ao seu gosto por narrativas contidas. Como explicou numa entrevista, trata-se de um filme sobre vulnerabilidade: “São 100 minutos em que sentimos que somos todos vulneráveis.”

Um Filme de Palavra e Presença

Rodado integralmente em estúdio, com uma recriação minuciosa do restaurante Sardi’s, em Nova Iorque, o filme respira teatro e diálogo. Andrew Scott interpreta Richard Rodgers, Margaret Qualley surge como a jovem Elizabeth Weiland e Bobby Cannavale encarna o barman Eddie, o último confidente de Hart.

Mas é Ethan Hawke quem sustenta o filme. A sua interpretação valeu-lhe nomeações ao Globo de Ouro e ao Óscar de Melhor Actor, a quinta colaboração de peso com Linklater. Hawke descreveu o papel como algo que “exige uma vida inteira para lá chegar”, uma personagem simultaneamente insegura e excessivamente confiante, genial e autodestrutiva.

Linklater optou por gravar vários momentos musicais ao vivo no set, privilegiando a crueza da interpretação sobre a perfeição técnica de estúdio. O resultado é um retrato íntimo e melancólico de um artista à beira do abismo.

De Berlim às Salas Portuguesas

Apresentado na Berlinale 2025, onde recebeu elogios consistentes, Blue Moon enfrentou inicialmente dificuldades na distribuição internacional. Em Portugal, chega agora às salas numa estreia tardia mas significativa, impulsionada pela visibilidade das nomeações de Hawke.

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O filme funciona como contraponto a Me and Orson Welles, também de Linklater. Se esse celebrava o entusiasmo juvenil da criação, Blue Moon é o filme do “depois”: quando o génio já brilhou e resta apenas o eco.

O título não é casual. “Blue Moon”, uma das canções mais célebres da dupla, simboliza algo raro e belo — mas também melancólico. Como o próprio Hart, cujo talento extraordinário foi inseparável da sua fragilidade.