Robert De Niro é conhecido por interpretar algumas das personagens mais intensas da história do cinema — de mafiosos implacáveis a figuras atormentadas. Mas numa noite especial no Carnegie Hall, em Nova Iorque, o actor subiu ao palco para fazer algo bem diferente: dar voz a um dos discursos mais famosos de Abraham Lincoln, numa intervenção carregada de significado político e histórico.
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A aparição aconteceu durante o 39.º concerto anual de beneficência da organização cultural e educativa Tibet House US, um evento que reuniu músicos, artistas e activistas numa celebração da arte, da liberdade cultural e da reflexão social.
Um discurso de 1838 com ecos no presente
De Niro surgiu inesperadamente no palco, sendo recebido com fortes aplausos do público presente. Ao contrário do que muitos poderiam esperar, não apresentou um discurso próprio. Em vez disso, leu excertos do famoso “Lyceum Address”, um discurso proferido por Abraham Lincoln em 1838, muito antes de se tornar Presidente dos Estados Unidos.
Nesse texto, Lincoln alertava para os perigos da violência colectiva e da erosão das instituições democráticas. Numa leitura pausada, que começou hesitante mas rapidamente ganhou força, De Niro deu vida às palavras do futuro presidente:
“A razão, fria, calculista e desapaixonada, deve fornecer todos os materiais para o nosso futuro apoio e defesa.”
O actor continuou a leitura sublinhando outro princípio central do discurso: a necessidade de uma sociedade baseada na inteligência colectiva, na moralidade e, sobretudo, no respeito pela Constituição e pelas leis.
Embora não tenha mencionado directamente acontecimentos actuais ou figuras políticas, a escolha do texto foi amplamente interpretada como uma mensagem dirigida ao clima político contemporâneo nos Estados Unidos.
Um concerto com forte carga simbólica
O evento de beneficência reuniu um elenco artístico diversificado. Entre os participantes estavam nomes como Laurie Anderson, Elvis Costello, Maya Hawke e Allison Russell, num espectáculo que se estendeu por quase três horas.
A noite começou com uma invocação espiritual dos monges tibetanos Drepung Gomang, seguindo-se um percurso musical que atravessou vários estilos e tradições — desde composições experimentais até folk, gospel e canções de protesto.
Um dos momentos mais marcantes esteve ligado ao compositor Philip Glass, co-director artístico do evento. Glass inspirou-se precisamente no discurso de Lincoln para criar a sua Sinfonia n.º 15, “Lincoln”. A obra estava inicialmente prevista para estrear no Kennedy Center, em Washington, mas o compositor cancelou a apresentação após mudanças na liderança da instituição que geraram controvérsia no meio cultural.
Música, protesto e reflexão
Apesar de o nome do presidente Donald Trump ter sido raramente mencionado durante o espectáculo, várias intervenções artísticas reflectiram preocupações políticas contemporâneas. Alguns artistas criticaram a guerra contra o Irão, as políticas de imigração e o que descreveram como um clima crescente de violência e indiferença social.
Elvis Costello protagonizou um dos momentos mais participativos da noite ao interpretar “(What’s So Funny ’Bout) Peace, Love, and Understanding”, clássico escrito por Nick Lowe há mais de meio século, mas cuja mensagem continua surpreendentemente actual.
Também houve espaço para momentos mais íntimos e inesperados. A actriz e cantora Maya Hawke, filha de Ethan Hawke e Uma Thurman, participou num dueto com o músico Christian Lee Hutson, com quem se casou recentemente. O seu avô, o académico budista Robert Thurman, cofundador da Tibet House US, abriu o evento com uma reflexão sobre a importância da felicidade e da compaixão.
O poder das palavras — mesmo 186 anos depois
Ao recuperar um discurso de 1838 para um palco do século XXI, Robert De Niro demonstrou como certas advertências históricas continuam surpreendentemente actuais. Lincoln alertava para os perigos da violência popular e da perda de respeito pelas instituições — um tema que, quase dois séculos depois, continua a provocar debate.
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Num evento dedicado à arte e à liberdade cultural, a leitura do actor funcionou como um momento de pausa e reflexão. Afinal, mesmo numa noite repleta de música e espectáculo, foram as palavras escritas há 186 anos que acabaram por ecoar com mais força.
