Project Hail Mary — O Filme Mais Surpreendente do Ano que Ainda Não Viram mas Precisam de Ver

Há filmes que chegam com o peso das expectativas. E há filmes que chegam sem avisar e ficam. Project Hail Mary, que abriu nos cinemas americanos a 20 de Março e chegou a Portugal nas semanas seguintes, pertence à segunda categoria — e os seus números de bilheteira continuam a crescer de uma forma que desafia quase tudo o que a indústria julgava saber sobre o que o público quer ver.

O argumento tem duas frases e meia. Ryland Grace, professor de biologia molecular, acorda sozinho numa nave espacial a anos-luz da Terra sem se lembrar de nada. Percebe gradualmente que foi enviado numa missão suicida para descobrir porque é que uma substância desconhecida está a consumir o sol. E conhece Rocky — uma criatura alienígena numa nave paralela que está exactamente na mesma situação, vinda de uma estrela diferente, com o mesmo problema. A história é sobre os dois a tentarem salvar os seus planetas enquanto desenvolvem uma amizade improvável através de uma barreira linguística total. É também, por extensão, sobre o que acontece quando toda a pressão do universo pousa sobre uma única pessoa que não se lembrava de ter-se voluntariado.

O livro de Andy Weir — o mesmo autor de O Marte, que Ridley Scott adaptou em 2015 com Matt Damon — é considerado por muitos leitores de ficção científica como um dos melhores dos últimos anos: rigoroso na ciência, extraordinariamente engraçado, e emocionalmente devastador no último terço. A adaptação ficou a cargo de Phil Lord e Chris Miller — os realizadores de The LEGO Movie e 21 Jump Street —, que fizeram com Project Hail Mary exatamente o mesmo que fazem sempre: pegaram num conceito que não devia funcionar e fizeram-no funcionar completamente.

Ryan Gosling como Ryland Grace é a performance do ano até agora. Não pela gravidade dramática que se esperaria de um filme sobre o fim do mundo — mas precisamente pelo oposto. Gosling encontrou em Grace um homem que processa o terror existencial através do humor, da curiosidade científica e de uma incapacidade genética de aceitar a derrota. É uma performance físicamente contida e emocionalmente generosa, e a química entre Gosling e Rocky — que é uma marioneta operada em set, com os efeitos visuais a completar a imagem — é, paradoxalmente, uma das relações mais convincentes que o cinema de 2026 produziu até agora.

O filme tem 94% no Rotten Tomatoes, CinemaScore A, e está neste momento nos 573 milhões mundiais — a caminho de ultrapassar os 600 e posicionar-se como a ficção científica original mais rentável da última década. Em Portugal, está ainda em cartaz nas principais salas. É raro que um artigo de cinema possa dizer isto com honestidade: este é um dos melhores filmes do ano, e ainda há tempo de o ver em ecrã grande, que é a única forma correcta de o ver.

Besta Chega aos Cinemas a 30 de Abril — Russell Crowe de Regresso ao Ringue como Treinador

Há um género cinematográfico que nunca morre porque nunca deixa de ser verdadeiro: o filme de desporto com alma. Besta, que estreia nas salas portuguesas a 30 de Abril com distribuição pela NOS Audiovisuais, insere-se nessa tradição com uma premissa que combina o universo brutal das artes marciais mistas com uma história familiar de redenção — e tem Russell Crowe, vencedor do Óscar por Gladiador, no papel que a sinopse reserva habitualmente para os actores com mais peso dramático: o treinador.

A história centra-se em Patton James, interpretado pelo australiano Daniel MacPherson — actor conhecido pelo trabalho televisivo em Strike Back e The Orville —, um ex-lutador de MMA que abandonou a carreira para se dedicar à família. Quando o irmão fica gravemente ferido num combate realizado para pagar dívidas, Patton vê-se forçado a regressar ao ringue para o vingar. Mas o regresso implica reconquistar a confiança do treinador — Crowe — e manter a família unida enquanto coloca o corpo e a vida em risco. Luke Hemsworth, o menos famoso mas não menos competente dos três irmãos Hemsworth, completa o elenco principal.

O argumento foi escrito por David Frigerio e pelo próprio MacPherson — um detalhe que sugere um envolvimento com o material que vai além da performance, e que pode explicar a consistência emocional que o realizador Tyler Atkins descreve como central ao projecto. Atkins, realizador australiano com carreira maioritariamente televisiva, abordou o MMA “com um olhar realista e intenso, onde cada combate reflecte conflitos pessoais e familiares” — a fórmula que distingue os bons filmes de desporto dos meramente espectaculares.

Russell Crowe não é novidade no género. Depois de Cinderella Man (2005), onde interpretou o pugilista James Braddock numa das melhores performances da sua carreira, o actor regressou várias vezes a histórias de homens que lutam — literalmente e metaforicamente — para manter a dignidade perante circunstâncias adversas. O papel de treinador em Besta é diferente: é a posição de quem já lutou, já perdeu e aprendeu o suficiente para não querer que outro repita os seus erros. É um papel que exige menos físico e mais presença — e Crowe, nos seus melhores momentos, é exactamente essa presença.

Besta estreia a 30 de Abril. É o tipo de filme que funciona em ecrã grande, num cinema com audiência — o tipo de experiência que os filmes de desporto pedem e que o streaming raramente consegue replicar com a mesma eficácia.

Lee Cronin Tentou Ressuscitar A Múmia — e o Resultado Está Algures entre o Brilhante e o Excessivo

Lee Cronin tem uma carreira que parece desenhada para este momento. O realizador irlandês estreou-se em 2019 com The Hole in the Ground, um horror atmosférico que a crítica especializada recebeu com entusiasmo mas que passou despercebido ao grande público. Em 2023, a New Line deu-lhe Evil Dead Rise — a quarta entrada numa franchise histórica —, e o que Cronin fez foi notável: respeitou o material, actualizou o cenário para um apartamento urbano moderno, e entregou um horror doméstico de uma eficácia brutal que angariou 147 milhões de dólares globais e confirmou que o realizador sabe exactamente como calibrar o medo.

Lee Cronin’s The Mummy — o título coloca o nome do realizador na frente, à maneira dos auteurs clássicos, o que é simultaneamente uma declaração de intenções e um convite ao julgamento directo — parte de uma premissa que tem tudo para funcionar. Uma repórter e o marido investigam o desaparecimento da filha pequena no Egipto. Oito anos depois, recebem uma chamada das autoridades egípcias: a rapariga foi encontrada viva num sarcófago de 3000 anos. A reunião familiar que deveria ser o fim do pesadelo é o início de outro. A criança voltou — mas transformada em algo que não é totalmente humano.

É uma história sobre luto, sobre o que fazemos quando aquilo que esperávamos recuperar não é o que recebemos de volta. É também, nas mãos de Cronin, um horror físico extremamente desconfortável — os críticos que o elogiaram fizeram-no exactamente por isso, e os que o criticaram fizeram-no pela mesma razão. A Associated Press chamou-lhe “um bloodfest de causas perdidas.” O indiewire disse que Cronin “claramente é mais interessado no emocional do que no intelectual — e nesse sentido alcança algo genuíno.” A divisão é real: 45% nos críticos, 77% no público.

O elenco é sólido sem ser estrelar: Jack Reynor, o actor irlandês de Midsommar e Monsters of Man, como o pai; Laia Costa como a mãe; May Calamawy como a arqueóloga que tenta explicar o que está a acontecer; e a jovem Natalie Grace na difícil tarefa de interpretar uma criança que é simultaneamente a mesma que desapareceu e algo completamente diferente. Jason Blum e James Wan produziram através da Blumhouse e da Atomic Monster, numa colaboração que está a construir sistematicamente um novo universo de monstros clássicos reimaginados — depois do sólido Homem Invisível(2020) e do dececionante Wolf Man (2025), A Múmia fica algures no meio.

Com 13,5 milhões de dólares de abertura e um orçamento de apenas 22 milhões, o filme não é um desastre financeiro — na verdade, com os mercados internacionais a contribuírem com 17,5 milhões adicionais já no primeiro fim-de-semana, o break-even está ao alcance. Mas a Blumhouse claramente esperava mais, e o horror de 2026 ainda não encontrou o seu grande momento do ano. Cronin tem o talento. A premissa tinha potencial. O resultado é um horror que funciona melhor como experiência visceral do que como filme — o que, dependendo do que procuram numa tarde de cinema, pode ser exactamente o suficiente ou não ser suficiente de todo.

Projecto Global Chega aos Cinemas Quinta-Feira — Ivo M. Ferreira Revisita as FP-25 com Jani Zhao e Gonçalo Waddington

Há um momento nos anos 80 portugueses que o cinema nunca quis verdadeiramente olhar de frente. As Forças Populares 25 de Abril — grupo armado de extrema-esquerda que entre 1980 e 1987 perpetrou dezenas de atentados, assaltos a bancos e atentados a figuras políticas e empresariais — existem na memória colectiva do país como uma ferida mal encerrada, um episódio incómodo numa democracia jovem que preferia acreditar que os excessos da revolução tinham ficado para trás. Projecto Global, o novo filme de Ivo M. Ferreira, chega aos cinemas na quinta-feira, 23 de Abril, e recusa esse conforto.

Descrita como uma das maiores produções de sempre do cinema português, a longa-metragem passa-se numa Lisboa dos anos 80 onde a euforia do 25 de Abril já se dissipou e o país atravessa uma crise profunda: fábricas fecham, trabalhadores erguem barricadas, a política domina cada esquina. É neste ambiente de sonhos adiados e ideais em colapso que surgem as FP-25 — e é a vida clandestina dos seus membros que o filme acompanha: os assaltos a bancos, os atentados, a amizade, o amor, a perda gradual de identidade de quem abandona tudo e todos excepto os companheiros de causa. Em paralelo, um inspector da polícia que os persegue enfrenta o seu próprio dilema moral. É, nas palavras do próprio realizador, um filme sobre “um sonho de igualdade do qual se é forçado a acordar, e da dificuldade em aceitar a derrota quando as ideias colidem com a realidade, feita de compromissos, interesses, mesquinhez e abdicações.”

O elenco reúne Jani Zhao, Rodrigo Tomás, José Pimentão, Isac Graça, Ivo Canelas e Gonçalo Waddington — um conjunto de actores que cobre gerações diferentes do cinema português e que promete, a julgar pela sinopse, um filme de ensemble no sentido mais exigente do termo. Ivo M. Ferreira, realizador de Cartas da Guerra (2016) — o filme baseado nas cartas de António Lobo Antunes que ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme, o maior prémio do cinema português —, regressa com um projecto de ambição histórica e política claramente maior do que qualquer coisa que fez antes.

Para assinalar a estreia, Ivo M. Ferreira e Jani Zhao vão percorrer várias salas ao longo da primeira semana com sessões especiais seguidas de conversa com o público. A primeira realiza-se na própria quinta-feira à noite, no Cinema Ideal em Lisboa, às 21h15. Ainda no mesmo dia, às 19h00, será apresentado no mesmo espaço o livro As FP-25 e o Pós-Revolução — Normalização e Violência Política, do historiador Francisco Bairrão Ruivo — trabalho de investigação histórica que esteve na base do filme —, com a presença do autor, do realizador e do escritor e jornalista Rui Cardoso Martins.

O calendário de sessões especiais estende-se até 29 de Abril e inclui o Cinema Ideal, o Cinema Fernando Lopes, os Cinemas Charlot em Setúbal, o Cinema Nimas, a Casa do Cinema em Coimbra e os Cinemas NOS Amoreiras. A sessão de 25 de Abril — data evidentemente não escolhida por acaso — realiza-se tanto nos Cinemas Charlot em Setúbal às 16h00 como no Cinema Fernando Lopes em Lisboa às 21h30. É difícil não notar que o filme sobre o que aconteceu depois do 25 de Abril estreia precisamente na semana em que Portugal celebra o que o tornou possível e o que a seguir correu mal.

Projecto Global tem distribuição pela NOS Audiovisuais e chega aos cinemas com 141 minutos de duração — tempo que sugere que Ferreira não quis simplificar nem apressar. O filme dura o que tem de durar.

CinemaCon 2026: O que Ficou Desta Semana Além do Trailer dos Vingadores

Beef T2 Estreou — 87% nos Críticos, Mas o Público Está Mais Frio

Doctor Doom Apanhou o Mjolnir a Mão Nua — e o MCU Voltou a Fazer Barulho

CinemaCon 2026: O que Ficou Desta Semana Além do Trailer dos Vingadores

O CinemaCon terminou na quinta-feira em Las Vegas com quatro dias de apresentações que raramente foram tão densas em informação — e tão carregadas de subtext sobre o estado da indústria. Avengers: Doomsday dominou as conversas, como seria expectável. Mas havia outras histórias a acontecer em simultâneo, e algumas delas são mais importantes para o cinema de longo prazo do que qualquer trailer.

A Warner Bros. abriu um novo selo indie — e a primeira aquisição é Sean Baker

A revelação mais surpreendente da apresentação da Warner na terça-feira não foi Supergirl nem Mortal Kombat II nem o primeiro olhar a Practical Magic 2 com Nicole Kidman e Sandra Bullock reunidas. Foi o anúncio do Warner Bros. Clockwork, um novo selo de cinema independente criado para distribuir filmes de autor que não se encaixam no calendário de blockbusters. E a primeira aquisição do Clockwork é Ti Amo! — o novo filme de Sean Baker, o realizador de Anora, que ganhou a Palma de Ouro e o Óscar de Melhor Filme em 2025. Baker está, neste momento, no pico da sua relevância artística e comercial, e o facto de a Warner ter ido buscá-lo para inaugurar este selo diz tudo sobre a ambição do projecto.

A Paramount prometeu 30 filmes por ano — e ninguém sabe bem o que isso significa

David Ellison, o CEO da Paramount Skydance, subiu ao palco na quinta-feira para fazer aquilo que a Warner se recusou a fazer na terça: falar sobre a fusão Paramount-WBD. Ellison prometeu que a empresa combinada vai lançar até 30 filmes por ano em salas de cinema quando a fusão for finalizada — um número que os exibidores aplaudiram mas que os analistas receberam com cepticismo calculado. O Cinema United aproveitou o CinemaCon para avisar publicamente sobre os riscos de concentração de poder que a fusão representa. Por enquanto, a Paramount trouxe Johnny Depp a apresentar o novo Ebenezer: A Christmas Carol de Tim West e Billie Eilish a promover o seu filme-concerto com James Cameron — dois títulos que coexistem de forma estranha mas confirmam que Ellison quer tanto o prestígio como o populismo.

A Disney revelou que vai fazer o seu próprio IMAX

O anúncio mais estrategicamente importante da semana passou quase despercebido no meio do entusiasmo com Doomsday: a Disney está a lançar o “Infinity Vision”, o seu próprio programa de certificação de ecrãs premium, para competir directamente com o IMAX. Significa que a Disney vai deixar de depender de acordos externos para garantir ecrãs de grande formato nas suas estreias — uma independência que tem implicações enormes para a forma como os filmes da Marvel, Star Wars e Pixar vão ser distribuídos nos próximos anos. Para os cinemas portugueses que têm ecrãs certificados IMAX, é uma notícia que merece atenção: a oferta de formatos premium vai diversificar-se, e as salas vão ter de decidir em quais apostam.

O resto do cardápio: de Ridley Scott a Top Gun 3

A Universal mostrou The Odyssey de Christopher Nolan — Matt Damon como Ulisses, Tom Holland como Telémaco, Anne Hathaway como Penélope —, e Minions & Monsters, o novo capítulo da franchise com vozes de Christoph Waltz e Jeff Bridges. A Paramount confirmou que Top Gun 3 está em desenvolvimento com Tom Cruise — sem data, sem elenco confirmado, mas suficientemente real para gerar aplausos. A Disney revelou Hexed, animação de Acção de Graças com Hailee Steinfeld e Rashida Jones. E o Toy Story 5 estreia a 19 de Junho — logo a seguir a The Mandalorian & Grogu a 22 de Maio, o primeiro filme de Star Wars em salas em anos. A 20th Century apresentou o primeiro trailer de The Dog Stars, o novo filme de Ridley Scott.

O que o CinemaCon 2026 confirmou, no fundo, é que o cinema de sala está a recuperar com uma velocidade que surpreendeu os mais pessimistas. O box office já está 20% acima do mesmo período do ano passado. Os estúdios estão a comprometer-se com janelas de exibição mais longas. E há filmes suficientemente grandes no calendário — de Spider-Man: Brand New Day em Julho a Avengers: Doomsday em Dezembro — para fazer de 2026 um dos anos mais movimentados da última década nas salas de cinema.

Beef T2 Estreou — 87% nos Críticos, Mas o Público Está Mais Frio

A segunda temporada de Beef chegou à Netflix na quarta-feira com aquilo que toda a gente esperava e ao mesmo tempo temia: é boa. Muito boa, em alguns momentos. Mas não é a primeira temporada. E essa frase — “não é a primeira temporada” — vai perseguir esta série durante semanas, porque a primeira temporada de Beef tinha 98% no Rotten Tomatoes e era, por qualquer medida razoável, uma das melhores séries da última década.

Os oito episódios com Oscar Isaac, Carey Mulligan, Cailee Spaeny e Charles Melton estrearam no mercado com 87% de aprovação crítica — uma nota que qualquer outra série receberia como triunfo mas que, no contexto de Beef, inevitavelmente parece uma descida. O público foi ainda mais cauteloso: 62% de aprovação na mesma plataforma, um fosso de 25 pontos entre críticos e espectadores que raramente augura bem para o fenómeno cultural que a primeira temporada representou.

O que os críticos elogiaram é consistente: Oscar Isaac como Josh Martín — o director-geral do country club que explode de formas que o ator deixa rip com uma liberdade física e emocional que raramente se vê neste tipo de papel — é a performance da temporada. Carey Mulligan como a mulher exausta que já não consegue manter as aparências é, como sempre, extraordinária. E a premissa — dois casais de classes e gerações diferentes a competirem pela aprovação de uma milionária asiática (Youn Yuh-jung, que faz exactamente o que a série precisava) — tem uma arquitectura de comédia de costumes que a Slate descreveu como “White Lotus encontra Bong Joon-ho”, o que é simultaneamente uma comparação justa e uma forma de dizer que o destino é bom mas o caminho é às vezes tortuoso.

O que os críticos e o público assinalaram com reservas é a escala. A primeira temporada tinha dois personagens, uma premissa simples e uma economia narrativa que fazia de cada episódio um mecanismo de precisão. A segunda temporada tem quatro protagonistas, uma conspiração crescente e uma ambição que o ScreenRant chamou de “falta de coesão em contraste com o storytelling mais apertado do antecessor.” A NPR foi mais gentil — “menos raro mas ainda bem passado” — mas chegou essencialmente à mesma conclusão: Lee Sung Jin quis fazer algo maior, e às vezes o maior funciona, e às vezes perde-se o fio.

O que é inegável é que a série mantém o que a tornou original: o humor ácido, a capacidade de fazer personagens comportarem-se da pior maneira possível de formas que são ao mesmo tempo horríveis e completamente compreensíveis, e a recusa em julgar os seus protagonistas mais do que o necessário. Beef continua a ser sobre raiva — sobre o que fazemos com ela, sobre de onde vem, sobre o custo de a deixar acumular sem examiná-la. A segunda temporada muda o cenário e o elenco mas não a pergunta central. E essa pergunta continua a ser boa o suficiente para valer oito episódios.

A questão que fica no ar é se Beef vai conseguir repetir o impacto cultural de 2023 — a série que toda a gente viu num fim-de-semana e sobre a qual toda a gente tinha opinião na segunda-feira. Os números iniciais vão dizer muito. Por agora, o que existe é uma boa série com um elenco extraordinário que carrega o peso de uma primeira temporada quase perfeita. Não é pouca coisa.

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Há momentos em que uma sala de cinema para completamente. Na quinta-feira à noite, no Dolby Colosseum do Caesars Palace em Las Vegas, foi quando Doctor Doom estendeu a mão e apanhou o martelo de Thor sem fazer esforço. A sala de exibidores — pessoas que viram tudo, que aplaudem com educação profissional e raramente se deixam levar — explodiu. Robert Downey Jr., que tinha entrado em palco ao som dos Rolling Stones com “Sympathy for the Devil”, sorriu. E o MCU, que nos últimos dois anos andava a recuperar fôlego depois de uma fase irregular, confirmou que está de volta em força.

O primeiro trailer completo de Avengers: Doomsday — previsto para 18 de Dezembro de 2026 — foi exibido em exclusivo no CinemaCon na quinta-feira, com Robert Downey Jr. e Chris Evans em palco a apresentá-lo. Não foi lançado publicamente após o evento, ao contrário do que acontece habitualmente. A Disney quis que o primeiro contacto do mundo com o trailer fosse nos cinemas — e os teasers anteriores, que totalizaram mil milhões de visualizações combinadas, serviram exactamente para construir essa expectativa.

O que o trailer mostrou foi, por qualquer medida, impressionante. Doctor Doom — interpretado por Downey Jr. com máscara metálica e um sotaque vagamente da Europa de Leste que ele próprio descreveu como “três moves à frente de toda a gente” — surge a preparar uma invasão do multiverso enquanto os heróis do MCU tentam perceber com o que estão a lidar. Thor (Chris Hemsworth) avisa os companheiros que vão precisar de um milagre. Patrick Stewart aparece como Professor Xavier a olhar pela janela da X-Mansion enquanto uma luz intensa anuncia o perigo. Gambit de Channing Tatum e Shang-Chi lutam lado a lado. Mystique (Rebecca Romijn) transforma-se em Yelena Belova, gerando um combate Florence Pugh contra Florence Pugh que a internet vai consumir durante semanas. E então Doom apanha o Mjolnir. Com a mão nua.

Chris Evans, que entrou em palco como surpresa, disse apenas: “Este tipo — não gosto.” É exactamente o tipo de linha que Evans sabe entregar e que a audiência recebe como gasolina. Joe Russo, que co-dirige o filme com o irmão Anthony a partir de um argumento de Michael Waldron e Stephen McFeely, descreveu Doom como “não simplesmente um vilão — uma das personagens mais complexas da Marvel. Está sempre três jogadas à frente.” Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, disse que Doomsday retoma onde Endgame ficou — e que a apresentação dos Vingadores aos X-Men é algo que tem estado a trabalhar desde que a Disney adquiriu os direitos da Fox.

Há uma questão logística que o trailer também resolveu silenciosamente. As especulações sobre se Avengers: Doomsday mudaria a data de estreia de 18 de Dezembro — porque os ecrãs IMAX estão comprometidos com Dune: Parte Três durante três semanas — desapareceram quando a Disney anunciou o seu próprio formato premium, “Infinity Vision”, que vai competir directamente com o IMAX. O programa certifica ecrãs em todo o mundo com padrões equivalentes, dando à Disney independência para garantir estreias em grande formato sem depender de acordos externos. É uma jogada de longo prazo que vai muito além de Doomsday — é a Disney a construir a sua própria infraestrutura de exibição premium.

O trailer ainda não foi lançado publicamente no momento em que este artigo é escrito. Quando sair — e vai sair em breve, porque a Disney não resiste à pressão das redes sociais —, vai ser o evento de marketing do ano. Não é exagero dizer que Avengers: Doomsday tem o potencial de ser o maior filme de 2026. Os Russos, Downey Jr., Evans, Stewart, Tatum como Gambit — é uma reunião que seria impossível há cinco anos e que agora parece inevitável.

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