O “Não” Que Mudou Hollywood: Don Johnson Recusou o Filme Que Transformou Kevin Costner numa Estrela

Uma decisão improvável nos anos 80 que continua a intrigar cinéfilos

Há decisões em Hollywood que parecem inexplicáveis à distância. Uma delas aconteceu em 1986, quando Don Johnson, então no auge da popularidade graças a Miami Vice, recusou o papel principal em Os Intocáveis, de Brian De Palma. O filme viria a tornar-se um clássico do cinema de gangsters… e a lançar definitivamente Kevin Costner para o estrelato.

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À primeira vista, parecia dinheiro fácil e prestígio garantido. Um grande realizador, um argumento ambicioso e um lugar de destaque num épico criminal sobre Eliot Ness e Al Capone. Mas Johnson viu exactamente o contrário: um risco sério de ficar preso para sempre ao mesmo tipo de personagem.

Quando Miami Vice era o centro do mundo

Entre 1984 e 1989, Miami Vice foi um fenómeno cultural. Carros desportivos, fatos italianos, cores pastel e música pop definiram uma estética que marcou toda uma década. Don Johnson, no papel do detective Sonny Crockett, tornou-se um ícone global quase da noite para o dia.

Curiosamente, esse sucesso absoluto não lhe trouxe conforto. Pelo contrário. Johnson sentia-se sufocado pela imagem do “polícia estiloso” e receava tornar-se um actor de um só registo. Num meio onde o rótulo pode ser uma sentença, decidiu travar antes que fosse tarde demais.

O convite de Brian De Palma — e a recusa imediata

Quando Brian De Palma lhe apresentou o projecto de Os Intocáveis, Johnson não ficou impressionado. O argumento que leu pareceu-lhe superficial, excessivamente decorativo e pouco desafiante. Eliot Ness, aos seus olhos, era apenas mais um polícia bem-apessoado, sem margem para crescimento dramático.

Anos mais tarde, numa conversa no podcast WTF with Marc Maron, Johnson explicou o seu raciocínio com franqueza: precisava de separar Don Johnson de Sonny Crockett “o mais depressa possível” e escolher projectos diametralmente opostos para evitar o temido typecasting. Recusar Os Intocáveis foi, para ele, um acto consciente de sobrevivência artística.

O actor admitiu ainda que desconhecia um detalhe crucial: Robert De Niro iria interpretar Al Capone. Se soubesse, garante que a decisão teria sido outra.

Kevin Costner: o homem certo, na hora certa

Sem Don Johnson, o papel acabou nas mãos de Kevin Costner, então um actor praticamente desconhecido. O timing foi perfeito. Os Intocáveis não só foi um sucesso comercial e crítico, como abriu caminho a uma carreira fulgurante, que incluiria Dances with WolvesJFK e The Bodyguard.

Curiosamente, Costner não era o primeiro nome numa longa lista de actores abordados — Gene HackmanHarrison Ford e Mickey Rourke também terão recusado. Às vezes, Hollywood funciona mesmo assim: quem aceita o papel que ninguém quer acaba por ganhar tudo.

Vida depois da recusa (e depois do Vice)

Após dizer “não” ao filme que podia tê-lo tornado uma estrela de cinema, Don Johnson seguiu outros caminhos — nem sempre felizes. Fez uma comédia romântica discreta (Sweet Hearts Dance), arriscou em projectos menores e acabou por perder o embalo enquanto protagonista de grandes produções.

Ironia das ironias, regressou ao papel de polícia nos anos 90 com Nash Bridges, voltando a patrulhar as ruas — desta vez sem fatos Armani, mas com o mesmo carisma. Mais tarde, reinventou-se como actor de carácter em filmes como Django Unchained e Knives Out.

Arrependimento? Nem pensar

Apesar de tudo, Don Johnson garante que nunca se arrependeu da decisão. Na altura, estava envolvido em música, corridas de lanchas rápidas e múltiplos projectos. Recentemente, participou na série Doctor Odyssey, entretanto cancelada, mostrando que continua activo e selectivo.

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Recusar Os Intocáveis pode ter custado uma carreira de blockbusters. Mas, para Johnson, foi o preço justo por manter controlo sobre quem queria ser — dentro e fora do ecrã.

Wesley Snipes faz 74 anos: o legado de um ícone que redefiniu o cinema de acção

Estilo, intensidade e uma presença impossível de ignorar

Há actores que atravessam décadas sem nunca perderem identidade. Wesley Snipes é um desses casos raros. Aos 74 anos, celebrados hoje, o actor continua a ser uma referência incontornável do cinema de acção — não apenas pelo impacto físico dos seus papéis, mas pela forma como elevou o género, trazendo-lhe carisma, técnica e uma intensidade muito própria.

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Falar de Wesley Snipes é falar de presença. Daquele tipo de magnetismo que prende o olhar do espectador mesmo quando não é o protagonista absoluto da cena. Desde cedo, Snipes mostrou que não queria ser apenas “mais um”. Queria deixar marca. E deixou.

Blade e a revolução silenciosa do género

É impossível não começar por Blade. Lançado numa altura em que o cinema de super-heróis ainda procurava o seu tom, o filme não só foi um sucesso comercial como redefiniu o que era possível fazer dentro do género. Snipes deu corpo a um herói sombrio, letal e profundamente cool, combinando artes marciais de alto nível com uma atitude que se tornaria icónica.

Muito antes do domínio absoluto da Marvel nos cinemas, Blade provou que personagens de banda desenhada podiam resultar em filmes adultos, violentos e esteticamente marcantes. E fê-lo graças, em grande parte, à entrega total do seu protagonista.

Muito mais do que um herói de acção

Reduzir Wesley Snipes ao cinema de acção seria profundamente injusto. Ao longo da carreira, mostrou uma versatilidade notável, tanto em dramas como em comédias. Filmes como White Men Can’t Jump revelaram um talento natural para o humor e o ritmo de comédia, enquanto Jungle Fever, de Spike Lee, expôs uma faceta mais crua e emocionalmente complexa.

Snipes nunca teve medo de arriscar. Escolheu projectos desconfortáveis, personagens ambíguas e histórias que nem sempre seguiam o caminho mais seguro. Essa coragem artística é parte essencial do seu legado.

Disciplina, artes marciais e respeito pelo ofício

Outro elemento que distingue Wesley Snipes é a sua impressionante formação em artes marciais. Praticante de várias disciplinas, o actor trouxe uma autenticidade física raramente vista em Hollywood. Cada movimento, cada combate, cada gesto tinha peso real — não era apenas coreografia, era linguagem corporal.

Essa disciplina reflecte-se também na forma como encara o trabalho de actor: com respeito, entrega e uma ética profissional que sempre falou mais alto do que modas ou tendências passageiras.

Celebrar 74 anos é celebrar uma carreira com impacto

Este aniversário não é apenas uma data simbólica. É a celebração de uma carreira construída com persistência, talento e uma vontade constante de ir mais longe. Wesley Snipes influenciou gerações de actores, abriu portas e ajudou a redefinir o que significa ser uma estrela de cinema de acção.

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Hoje, celebramos 74 anos de um percurso extraordinário — e de um impacto que continua bem vivo. 🎬

“Uma pantera com boas intenções”: Tennessee Williams sobre Paul Newman e o peso da beleza

Quando o talento luta contra o próprio mito

Poucos actores da história do cinema carregaram a sua beleza como Paul Newman. Idolatrado pelo público, desejado pelos estúdios e venerado pela crítica, Newman poderia facilmente ter seguido uma carreira confortável, feita de charme, sorrisos perfeitos e personagens seguras. Mas, como sublinhou Tennessee Williams, esse nunca foi o seu caminho.

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Numa entrevista conduzida por James Grissom, o autor de Um Eléctrico Chamado Desejo deixou um dos retratos mais lúcidos e profundos alguma vez escritos sobre Paul Newman. Um texto que não se limita a elogiar o actor, mas que revela a luta constante entre a aparência, o talento e a necessidade quase dolorosa de ir mais longe.

A beleza como dádiva… e como maldição

Para Tennessee Williams, Newman era “insaciavelmente curioso”, alguém com uma tendência quase masoquista para se testar e esticar os próprios limites. O dramaturgo não nega que o actor tivesse plena consciência da sua beleza — e do poder que ela lhe conferia — mas sublinha algo mais interessante: essa beleza era também o seu fardo, a sua “cruz estética”.

Segundo Williams, Newman combatia activamente a sua aparência em cena. Não a escondia, mas recusava deixar-se definir por ela. A luta não era física, mas expressiva: na voz, no rosto, nos silêncios e nas subtilezas emocionais. Era aí que desmontava o mito do galã para revelar personagens frágeis, gananciosas, contraditórias ou mesmo moralmente duvidosas.

Chance Wayne e o confronto com o eu mais jovem

Essa tensão atinge um ponto particularmente fascinante em Sweet Bird of Youth, adaptação cinematográfica da peça homónima de Tennessee Williams. Newman interpreta Chance Wayne, um homem obcecado com a juventude perdida, o sucesso que nunca chegou e o medo visceral do tempo.

Williams observa que, neste papel, Newman manteve o corpo belo e a apresentação física intacta, mas transformou completamente o interior da personagem. Através da voz e da expressão facial, revelou a chicana, a ambição vazia e a ganância emocional de Chance. E quando a personagem se confronta simbolicamente com o seu “eu” mais jovem — cheio de sonhos e ilusões — Newman adquire, nas palavras do autor, uma aparência quase angelical, luminosa, como se o passado ainda tivesse o poder de o redimir.

Um actor incapaz de “ir a meio gás”

Talvez o elogio mais poderoso de Tennessee Williams seja este: Paul Newman era incapaz de facilitar. Incapaz de “coasting”, de viver apenas do prestígio acumulado. Havia nele uma ética quase moral de trabalho, uma recusa em aceitar o caminho mais simples.

Descrito como silencioso e lacónico, Newman surge neste testemunho como alguém sempre presente para ajudar, elogiar ou apoiar — amigos e desconhecidos. Alguém que entra e sai das situações com naturalidade, sem alarido, mas com impacto real. Daí a imagem final, memorável e perfeita: “uma pantera com boas intenções”.

O retrato definitivo de um gigante do cinema

Este testemunho de Tennessee Williams não é apenas uma declaração de admiração. É um documento precioso sobre a natureza do verdadeiro talento: aquele que não se acomoda, que questiona os próprios privilégios e que transforma até a beleza numa ferramenta dramática, em vez de um atalho.

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Paul Newman foi muito mais do que um rosto inesquecível. Foi um actor que enfrentou o seu próprio mito — e venceu.

A audição que mudou A Lista de Schindler — e a carreira de um actor

Quando Ralph Fiennes entrou na sala de audições de A Lista de Schindler, em 1992, nada indicava que aquele momento ficaria gravado na história do cinema. Vindo do teatro clássico britânico, dono de uma voz suave e de uma postura contida, Fiennes parecia uma escolha improvável para interpretar um dos vilões mais aterradores alguma vez retratados no grande ecrã.

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Mas bastaram poucos minutos para o ambiente se transformar. À medida que começava a dar corpo ao comandante nazi Amon Goeth, algo mudou. O olhar endureceu, os movimentos tornaram-se calculados, a respiração mais lenta. O silêncio que se instalou não foi de concentração — foi de desconforto.

No final, Steven Spielberg não aplaudiu. Saiu da sala. Minutos depois regressou, visivelmente perturbado, e disse apenas: “Acho que acabei de me deparar com o mal”.

Um papel que ninguém queria — nem o próprio actor

Ironicamente, Ralph Fiennes não desejava aquele papel. Anos mais tarde confessaria que tinha medo de Amon Goeth. “Não queria habitar a mente daquele homem”, admitiu. Mas Spielberg viu algo raro: uma tranquilidade profundamente inquietante, aquela calma quase clínica que antecede os actos mais cruéis.

Durante as filmagens, Fiennes tomou uma decisão radical. Mantinha o uniforme nazi mesmo fora das cenas. Não por vaidade ou método performativo vazio, mas porque precisava “sentir o peso e a repulsa” da personagem. Era uma forma de não romantizar o horror — de o enfrentar.

Quando a ficção se torna demasiado real

O impacto da sua presença foi tão intenso que sobreviventes do Holocausto que visitavam o set evitavam aproximar-se dele. Uma mulher chegou a chorar ao vê-lo. Disse-lhe: “Não é você… é ele. Você parece-se demasiado com ele”. Poucas validações são tão devastadoras quanto esta.

A interpretação foi amplamente elogiada e valeu-lhe uma nomeação para o Óscar. Mas deixou marcas profundas. “O que mais me assustou foi perceber o quão fácil a crueldade pode surgir”, contou Fiennes. Uma constatação que o acompanhou durante anos.

Recusar rótulos, preservar o mistério

Hollywood tentou empurrá-lo para o papel de vilão elegante e sofisticado. Ele recusou. Para Fiennes, o mistério é uma das últimas formas de poder de um actor. Assim, construiu uma carreira feita de contrastes: do monstro ao amante, do poeta ao assassino, do espião ao sacerdote.

Até que surgiu Lord Voldemort. A proposta arrancou-lhe uma gargalhada inicial. “Não gosto de fantasia”, disse. Só aceitou quando encontrou uma abordagem concreta e física. Estudou serpentes, trabalhou a voz como se respirasse através de vidro e decidiu que Voldemort não deveria ser uma caricatura, mas algo mais perturbador: “como se a morte tivesse aprendido a andar”.

Daniel Radcliffe resumiu melhor do que ninguém: quando Ralph Fiennes entrava no set, não eram precisos efeitos especiais — o ar gelava.

O silêncio como antídoto ao mal

Fora das câmaras, Fiennes é o oposto das figuras que interpreta. Escreve poesia, evita telemóveis e procura o silêncio. “A fama é barulho. Eu prefiro o silêncio”, diz.

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Ralph Fiennes não se limita a representar o mal. Ele desmonta-o, compreende-o e devolve-o ao público com algo ainda mais inquietante: humanidade. Porque o verdadeiro horror, como ele próprio demonstrou, não grita.

Sussurra.

“Isto não estava no meu bingo”: O trailer de The Odyssey de Christopher Nolan apanha fãs de surpresa

Travis Scott surge no épico histórico e a Internet entrou em curto-circuito

Os fãs de Christopher Nolan estão todos a dizer a mesma coisa — e, desta vez, não é sobre cronologias complexas ou teorias mirabolantes. O mais recente teaser de The Odyssey, adaptação ambiciosa do poema épico de Homero, deixou o público genuinamente surpreendido ao revelar uma presença inesperada: Travis Scott.

O teaser, com cerca de um minuto, foi exibido durante um intervalo publicitário da transmissão do jogo do Campeonato AFC da NFL, entre os New England Patriots e os Denver Broncos. Bastou isso para incendiar as redes sociais. Não por causa das imagens grandiosas, nem do tom épico habitual de Nolan — mas porque, no meio da cena, surge Travis Scott, num papel que parece marcar a sua estreia num grande filme de estúdio.

Um bardo, um aviso… e um choque colectivo

No excerto revelado, vemos Jon Bernthal no papel de Menelau e Tom Holland como Telémaco, reunidos numa espécie de refeitório militar. A tensão é palpável. De repente, a personagem interpretada por Travis Scott levanta-se, bate com um bastão no chão e profere um aviso solene sobre uma guerra iminente e um estratagema destinado a destruir Tróia.

O momento é curto, mas suficiente para provocar uma reacção em cadeia. “Travis Scott num filme do Christopher Nolan não estava no meu bingo”, escreveu um utilizador na rede social X. Outros seguiram o mesmo tom de incredulidade: “Nunca pensei ler esta frase” ou “Nem sabia que ele entrava no filme”.

Rappers no cinema: moda passageira ou aposta séria?

Como é habitual nestes casos, nem todas as reacções foram entusiastas. Houve quem questionasse porque razão tantos rappers estão a tentar a sorte na representação. A comparação surgiu rapidamente com A$AP Rocky, que recentemente entrou no drama If I Had Legs I’d Kick You, ao lado da actriz Rose Byrne.

Ainda assim, muitos fãs mostraram curiosidade e até optimismo. Para alguns, Nolan é precisamente o realizador certo para testar este tipo de escolha improvável. “Se há alguém que consegue tirar algo interessante daqui, é o Nolan”, lia-se noutro comentário.

Um épico de luxo com um elenco impressionante

The Odyssey tem estreia marcada para 17 de Julho e apresenta Matt Damon no papel de Ulisses (Odysseus), rei de Ítaca, acompanhando a sua longa e atribulada viagem de regresso a casa após a Guerra de Tróia. O elenco é, sem exagero, de luxo: Robert PattinsonZendayaCharlize TheronAnne HathawayMia Goth e Benny Safdie completam o grupo.

Uma colaboração que não é totalmente inédita

Apesar de ser a sua estreia num grande épico cinematográfico, Travis Scott já tinha trabalhado com Nolan. O rapper assinou a música “The Plan”, incluída na banda sonora de Tenet. Ainda assim, vê-lo agora em frente à câmara, num universo tão distante do seu habitat musical, é outra conversa.

Se esta escolha vai resultar ou não, só o filme o dirá. Para já, uma coisa é certa: The Odyssey conseguiu aquilo que Nolan raramente falha — pôr toda a gente a falar.

Surpresa, política e ausências sonantes: One Battle After Another lidera as nomeações para os BAFTA

Thriller de Leonardo DiCaprio destaca-se numa edição marcada por diferenças face aos Óscares

As nomeações para os BAFTA Film Awards deste ano confirmam aquilo que já se vinha a desenhar nas últimas semanas: o cinema britânico e internacional segue caminhos próprios, nem sempre alinhados com Hollywood. O grande destaque vai para One Battle After Another, thriller político protagonizado por Leonardo DiCaprio, que lidera a corrida com 14 nomeações, tornando-se o filme mais nomeado desta edição.

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Logo atrás surge o vampírico Sinners, com 13 nomeações, enquanto Hamnet e a inesperada biografia desportiva Marty Supreme arrecadam 11 nomeações cada. Apesar do forte desempenho, nenhum destes títulos conseguiu igualar o recorde absoluto dos BAFTA, fixado nas 16 nomeações por Gandhi (1982).

DiCaprio, Infiniti e Taylor em destaque

Para além de DiCaprio, One Battle After Another valeu nomeações a Chase Infiniti e Teyana Taylor, consolidando o filme como um dos fenómenos críticos do ano. Curiosamente, Infiniti é um dos actores que ficaram de fora das nomeações aos Óscares, mas que aqui encontra reconhecimento — uma tendência que se repete noutras categorias.

Os BAFTA, ao disporem de seis nomeados por categoria (em vez dos cinco habituais nos Óscares), permitem uma maior diversidade de escolhas e dão espaço a desempenhos que ficaram à margem da corrida norte-americana.

Paul Mescal, Jessie Buckley e o peso britânico

13/12/2025 Dublin Ireland. Photo shows actor Paul Mescal and actress Jessie Buckley at the irish premiere of the film Hamnet at the Light House Cinema. Photo: Leah Farrell/© RollingNews.ie

Entre os actores, Paul Mescal e Jessie Buckley surgem nomeados por Hamnet, reforçando a forte presença de talento britânico e irlandês nesta edição. Buckley é, de resto, considerada uma das favoritas também na corrida aos Óscares, ao lado de Timothée Chalamet, que repete igualmente a sua nomeação nos BAFTA.

A lista inclui ainda vários nomes britânicos em evidência, como Carey MulliganEmily WatsonRobert Aramayo e Peter Mullan, sublinhando a missão dos BAFTA em promover o cinema produzido no Reino Unido.

As grandes ausências e as escolhas polémicas

Nem tudo são boas notícias. Quatro actores nomeados aos Óscares ficaram de fora dos BAFTA: Amy MadiganDelroy LindoWagner Moura e Elle Fanning — sendo que Moura e Fanning nem sequer integraram as longlists da academia britânica.

Em contrapartida, Jesse Plemons e Odessa A’Zion, ignorados pelos Óscares, surgem aqui nomeados.

Outro caso curioso é Wicked: For Good, que falhou completamente os Óscares mas conseguiu duas nomeações técnicas nos BAFTA, enquanto o thriller brasileiro The Secret Agent vê reduzido para metade o número de nomeações face à Academia de Hollywood.

A ausência mais notada é, talvez, KPop Demon Hunters, o fenómeno viral da Netflix, que ficou de fora por não ter tido estreia em sala no Reino Unido — um lembrete de que, para os BAFTA, o cinema continua a começar no grande ecrã.

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Cerimónia marcada para Fevereiro

Os BAFTA Film Awards realizam-se no próximo 22 de Fevereiro, no Royal Festival Hall, em Londres, com apresentação de Alan Cumming. Até lá, One Battle After Another parte na dianteira — mas, como sempre, a noite promete surpresas.

Quando a Exaustão Ganha Forma de Thriller: Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te Um Pontapé Chega aos Cinemas

Um drama psicológico intenso que promete deixar marcas no espectador

Há filmes que não se limitam a contar uma história — instalam-se no corpo e na cabeça de quem os vê. Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te Um Pontapé pertence claramente a essa categoria. O novo filme escrito e realizado por Mary Bronsteinestreia nas salas de cinema portuguesas a 19 de Fevereiro, trazendo consigo uma das interpretações mais comentadas, exigentes e perturbadoras do ano, assinada por Rose Byrne  .

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Rose Byrne num registo cru, físico e emocionalmente devastador

Conhecida sobretudo pelo seu talento para a comédia e por personagens carismáticas, Rose Byrne apresenta aqui uma viragem radical. A actriz interpreta Linda, terapeuta e mãe, cuja vida entra num processo acelerado de implosão quando a filha desenvolve uma doença misteriosa e resistente a qualquer tratamento. A partir desse ponto, tudo parece contribuir para o colapso: um marido emocionalmente ausente, uma paciente que desaparece sem explicação e uma relação profissional cada vez mais tóxica com o seu próprio psicólogo.

Não é por acaso que esta interpretação já foi distinguida com um Globo de Ouro e com o prémio de Melhor Actriz no Festival de Berlim, além de ter garantido nomeações para os BAFTA e para os Óscares. Byrne está presente em praticamente todos os planos do filme, numa entrega física e emocional que não concede descanso ao espectador.

Um thriller emocional sem banda sonora — e por isso ainda mais inquietante

Apesar de se apresentar como um drama psicológico, Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te Um Pontapé assume muitas das características de um thriller. O ritmo é tenso, claustrofóbico, e a sensação de ameaça nunca desaparece verdadeiramente — mesmo quando nada de “objectivamente” perigoso parece acontecer.

Um dos elementos mais interessantes da proposta de Mary Bronstein é a ausência de uma banda sonora tradicional. Em vez disso, o filme aposta num desenho sonoro imersivo, que amplifica ruídos, silêncios e sons ambientes. Hospitais, consultórios e quartos de motel transformam-se em extensões da mente de Linda, lugares onde o desgaste emocional se manifesta de forma quase física.

A realizadora descreve o filme como uma tentativa de capturar aquele estado mental específico em que sentimos que tudo está a ruir e que, de alguma forma, a culpa é exclusivamente nossa. É uma abordagem pouco romantizada da maternidade, do cuidar e da responsabilidade emocional — temas raramente tratados com esta frontalidade no cinema contemporâneo.

Um elenco inesperado e uma estreia portuguesa aguardada

Para além de Rose Byrne, o elenco inclui escolhas surpreendentes. Conan O’Brien surge aqui na sua estreia em cinema dramático, enquanto A$AP Rocky integra também o elenco, contribuindo para um conjunto de personagens que reforçam a estranheza e a instabilidade emocional do universo do filme.

Depois de uma recepção muito positiva nos festivais internacionais, o filme chega finalmente ao público português, com uma duração de 113 minutos e a promessa de ser uma das experiências cinematográficas mais intensas do início do ano.

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Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te Um Pontapé não é um filme confortável — e ainda bem. É cinema que arrisca, que provoca e que permanece muito depois de as luzes da sala se acenderem.