James Cameron Diz Adeus aos EUA: “Para a Minha Sanidade, a Nova Zelândia é Casa”

O realizador de Avatar explica porque decidiu sair definitivamente dos Estados Unidos — e aponta o dedo à polarização política e ao negacionismo científico

James Cameron já não vive nos Estados Unidos — e, ao que tudo indica, não tenciona voltar. O realizador canadiano, responsável por alguns dos maiores fenómenos da história do cinema, revelou que deixou o país de forma permanente, fixando-se na Nova Zelândia, onde está prestes a tornar-se cidadão. A decisão, segundo o próprio, não foi apenas logística ou profissional: foi uma questão de sanidade mental.

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Em declarações ao jornal Stuff e numa entrevista posterior ao programa In Depth with Graham Bensinger, Cameron explicou que a forma como a Nova Zelândia lidou com a pandemia de Covid-19 foi determinante para a mudança. “Fiz isto para a minha sanidade”, afirmou, descrevendo a experiência de viver nos EUA durante o período mais intenso da pandemia — e sob a presidência de Donald Trump — como “ver um acidente de automóvel vezes sem conta”.

Ciência, coesão social e um país “são”

Segundo Cameron, o contraste entre os dois países tornou-se impossível de ignorar. O realizador sublinha que a Nova Zelândia conseguiu eliminar o vírus por completo em duas ocasiões, e que, quando uma variante acabou por romper o controlo, o país já tinha uma taxa de vacinação de 98%. Nos Estados Unidos, pelo contrário, a taxa ficou pelos 62% — e, como nota Cameron, “a descer, no sentido errado”.

“É por isso que adoro a Nova Zelândia”, afirmou. “As pessoas aqui são, na sua maioria, sãs. Acreditam na ciência, conseguem trabalhar em conjunto para um objectivo comum.” Do outro lado do Pacífico, diz Cameron, encontrou um país “extremamente polarizado, de costas voltadas para a ciência, onde toda a gente está à garganta uns dos outros”.

O cineasta não poupa nas palavras: questiona directamente onde faria mais sentido viver caso surja uma nova pandemia — num país organizado e cooperante ou num em “completo estado de desordem”.

Uma ligação antiga à Nova Zelândia

A mudança não foi repentina. James Cameron e a mulher compraram uma propriedade agrícola na Nova Zelândia em 2011, muito antes da pandemia. O país tornou-se, entretanto, a base logística para a produção dos novos filmes da saga Avatar, grande parte deles rodados no hemisfério sul. Foi após a Covid-19 que o casal decidiu tornar a mudança definitiva, com o pedido de cidadania já em fase final.

Um êxodo silencioso de Hollywood?

Cameron junta-se a um número crescente de figuras do cinema que estão a abandonar os Estados Unidos, apontando a instabilidade política e o segundo mandato de Trump como factores decisivos. George Clooney obteve recentemente cidadania francesa; Jim Jarmusch anunciou que está a fazer o mesmo; Ellen DeGeneres mudou-se para o Reino Unido; e Rosie O’Donnell fixou-se na Irlanda.

Não se trata, para muitos, de um gesto simbólico, mas de uma decisão prática sobre onde viver, criar, trabalhar — e envelhecer.

Um cineasta global, um gesto político

James Cameron sempre foi um realizador de escala global, tanto nos temas como na ambição técnica. A sua saída definitiva dos EUA reforça essa imagem: menos um gesto de protesto isolado, mais uma escolha consciente sobre valores, ciência e futuro.

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Num mundo cada vez mais dividido, Cameron escolheu um lugar onde — nas suas palavras — “as pessoas ainda conseguem trabalhar juntas”. Para um cineasta obcecado com a sobrevivência da humanidade, talvez esta seja apenas mais uma decisão coerente com tudo o que tem filmado ao longo de décadas 🌍🎬.

Judd Apatow, Mel Brooks e a Comédia em Perigo: Uma Conversa Sobre Legado, Risco e o Futuro de Hollywood

O documentário sobre Mel Brooks, a crise das comédias de estúdio e um apelo pouco habitual: desligar a televisão e sair à rua

Quando Judd Apatow aceitou o convite da HBO para realizar um documentário sobre Mel Brooks, achava que conhecia tudo sobre o homem que ajudou a definir a comédia moderna. Estava enganado. O resultado desse reencontro — Mel Brooks: The 99 Year Old Man! — é um mergulho raro e profundamente humano na vida de um criador que, aos 99 anos, continua a ser uma referência absoluta… e um espelho incómodo para o presente de Hollywood.

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Dividido em duas partes, o documentário não se limita a alinhar anedotas ou sucessos. Apatow quis ir mais fundo: falar da II Guerra Mundial, das perdas, dos casamentos, das inseguranças e do que fica depois de uma vida inteira dedicada a fazer rir. Mel Brooks aceitou — e isso faz toda a diferença.

Quando Mel Brooks era “a Beyoncé” da comédia

Apatow recorda o impacto de Brooks nos anos 70 com uma comparação improvável, mas certeira: Mel Brooks era, na altura, “a Beyoncé da comédia”. Blazing Saddles e Young Frankenstein estrearam no mesmo ano, algo impensável hoje, e dominaram completamente a cultura popular.

Era um tempo em que o país inteiro parecia concordar sobre o que importava. Se alguém surgia na capa da Time, isso significava alguma coisa. Brooks fazia filmes escandalosos, politicamente incorrectos, cheios de sátira racial e sexual — e mesmo assim chegava ao centro do sistema. Ou talvez precisamente por isso.

Curiosamente, The Producers, hoje considerado um clássico absoluto, foi inicialmente um fracasso comercial. O reconhecimento veio mais tarde, incluindo um Óscar de Argumento Original que Mel Brooks ganhou… batendo Stanley Kubrick e 2001: Odisseia no Espaço. Um daqueles momentos que hoje parecem impossíveis.

O lado íntimo por detrás do humor

Uma das grandes forças do documentário está na forma como Apatow consegue afastar Brooks do registo de “contador de histórias profissionais”. O realizador admite que muitas das anedotas já tinham sido contadas dezenas de vezes. O desafio foi outro: perceber o que existe por baixo da persona.

Brooks perdeu o pai aos dois anos de idade, cresceu em dificuldades económicas profundas e construiu o humor como uma forma de sobrevivência. Apatow insiste nessas feridas antigas, não por voyeurismo, mas porque elas explicam a urgência, a agressividade e a coragem do seu cinema.

Rob Reiner, Carl Reiner e uma amizade irrepetível

Um dos momentos mais emocionantes do documentário envolve Rob Reiner, que surge numa das suas últimas entrevistas antes de morrer tragicamente, juntamente com a mulher. A sua presença é essencial não só pelo seu próprio percurso, mas porque funciona como ponte para o pai, Carl Reiner, um dos amigos mais próximos e colaboradores de Mel Brooks durante mais de 70 anos.

A relação entre Brooks e Carl Reiner é descrita como algo quase impossível de repetir: uma amizade criativa baseada em admiração mútua, generosidade e respeito. Brooks, figura explosiva e dominadora, via em Carl uma espécie de figura paterna — alta, calma, protectora. Uma revelação que muda completamente a leitura pública do comediante.

A comédia de estúdio está em vias de extinção?

A entrevista de Apatow aborda também um tema que lhe é particularmente caro: o colapso da comédia nos grandes estúdios. Segundo o realizador, o fim do mercado de DVDs destruiu o modelo económico que sustentava este tipo de filmes. Metade das receitas vinha das salas, metade do mercado doméstico. O streaming nunca compensou essa perda.

O resultado foi uma indústria cada vez mais avessa ao risco. Filmes de terror baratos tornaram-se apostas “seguras”, enquanto a comédia passou a ser vista como pouco exportável. O problema? Sem comédias, não surgem novos talentos. Não há novos Adam Sandler, Kristen Wiig ou Jim Carrey. O público continua a consumir humor — mas fora das salas, no TikTok ou no YouTube.

O paradoxo Apatow: cinema, activismo e desconforto

Talvez o momento mais inesperado da conversa surja quando Apatow, em plena promoção do documentário, faz um apelo frontal: desliguem a televisão e protestem contra o ICE. Para ele, a normalização do caos político e social nos Estados Unidos é tão perigosa quanto a estagnação criativa de Hollywood.

É uma posição desconfortável, até contraditória — pedir que não vejam o seu próprio trabalho — mas profundamente coerente com o espírito de Mel Brooks: usar a visibilidade para dizer algo que incomoda.

Um legado que desafia o presente

Mel Brooks: The 99 Year Old Man! não é apenas um retrato de um génio da comédia. É um lembrete de que Hollywood já foi um espaço onde o risco, a provocação e o mau gosto inteligente tinham lugar no centro do sistema. E que talvez seja isso que mais falta hoje.

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Aos 99 anos, Mel Brooks continua a rir-se da morte, do poder e do medo. E Judd Apatow, ao escutá-lo com atenção rara, deixa uma pergunta no ar: será que ainda há espaço para este tipo de coragem no cinema contemporâneo? 🎬

Bastidores em Chamas: Executivos da Sony Apontam o Dedo a Blake Lively na Crise de “It Ends With Us”

Mensagens agora tornadas públicas revelam tensão extrema, acusações duras e o receio de que o filme ficasse para sempre marcado pela polémica

A polémica em torno de It Ends With Us acaba de ganhar uma nova e explosiva dimensão. Documentos e mensagens internas, recentemente tornados públicos no âmbito do processo judicial que envolve Blake Lively e Justin Baldoni, expõem o que vários executivos da Sony Pictures pensavam realmente sobre o comportamento da actriz durante o lançamento do filme — e as palavras estão longe de ser diplomáticas.

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Entre emails e mensagens trocadas nos bastidores do estúdio, surgem descrições de um ambiente caótico, marcado por exigências consideradas excessivas, estratégias de comunicação falhadas e um crescente medo de que o ruído mediático acabasse por engolir o próprio filme. Para alguns dos responsáveis da Sony, a conclusão era clara: Blake Lively “trouxe tudo isto para cima de si própria”.

Exigências, ameaças e um filme em risco

Uma das revelações mais contundentes envolve Andrea Giannetti, vice-presidente executiva de produção da Sony, que confirmou ter chamado a actriz de “fucking terrorist” numa conversa privada com o produtor Jamey Heath. A origem da frustração estaria numa lista de 17 exigências apresentada por Lively, acompanhada da ameaça de abandonar o projecto caso não fossem cumpridas.

Segundo Giannetti, o estúdio já tinha investido somas avultadas e não terminar o filme torná-lo-ia “irrealizável” do ponto de vista comercial. A prioridade era simples: concluir o filme a qualquer custo, mesmo num clima de tensão crescente entre a actriz e o realizador.

Da celebração ao colapso da narrativa pública

A ironia não passou despercebida a ninguém dentro do estúdio. Após a estreia comercial bem-sucedida do filme — que arrancou com 50 milhões de dólares no box office — a mesma executiva enviou uma mensagem entusiástica a Lively, elogiando o seu trabalho e impacto no sucesso inicial. Mas o tom mudou rapidamente quando começaram a circular rumores de uma ruptura irreconciliável entre a actriz e Baldoni.

A situação agravou-se com decisões altamente simbólicas: Lively comunicou que não queria estar na passadeira vermelha com Baldoni, nem sentar-se perto dele, nem sequer aparecer em fotografias conjuntas. Em paralelo, membros do elenco começaram a deixar de seguir o realizador nas redes sociais, um gesto que rapidamente chamou a atenção dos fãs e alimentou teorias online.

Uma executiva de marketing da Sony resumiu o momento de forma crua: “O unfollow disparou hoje.” A resposta veio de um produtor: “É a Blake, de certeza.”

“O desastre é a história agora”

À medida que a polémica crescia, os responsáveis máximos do estúdio trocaram mensagens cada vez mais pessimistas. Tom Rothman, CEO da Sony Pictures Motion Picture Group, descreveu a situação como um “fucking disaster”, lamentando que o debate público já não fosse sobre o filme, mas apenas sobre o conflito.

“Já ninguém consegue ver o filme da mesma forma. Isso é trágico”, escreveu Rothman, acrescentando mais tarde que, embora Lively não merecesse o ódio online, tinha recusado ouvir conselhos e contribuído para a situação ao lançar simultaneamente a sua marca de cuidados capilares — um movimento considerado profundamente imprudente.

“Ela fez isto a si própria”

A posição mais dura surge nas mensagens de Sanford Panitch, presidente do grupo cinematográfico da Sony. Para Panitch, o problema foi simples: Lively não seguiu a regra mais antiga de Hollywood — proteger o espectáculo acima de tudo.

Segundo ele, se a actriz tivesse permitido a presença de Baldoni na promoção, evitado os gestos públicos de ruptura e não tentado vender produtos pessoais durante o lançamento do filme, “nada disto teria acontecido”. A decisão de associar o filme ao lançamento da marca de cabelo foi descrita como “epic level stupid”.

Panitch foi ainda mais longe, sugerindo que, apesar de o filme caminhar para valores próximos dos 300 milhões de dólares, a carreira de Lively poderia ficar seriamente comprometida: “Provavelmente não vai trabalhar durante algum tempo. Talvez recupere. Até a Anne Hathaway recuperou.”

Um futuro em suspenso

Nem todos dentro do estúdio concordaram com este diagnóstico apocalíptico. Um executivo respondeu de forma mais optimista: “Isto vai passar. Ela vai ficar bem.” A resposta de Panitch foi seca: “Discordo. Está feita. Pelo menos por agora.”

O caso judicial entre Blake Lively e Justin Baldoni tem julgamento marcado para 18 de Maio, e promete manter-se no centro do debate mediático. Independentemente do desfecho legal, as mensagens agora conhecidas oferecem um retrato raro — e brutalmente honesto — de como os grandes estúdios lidam com crises públicas, egos criativos e a difícil separação entre arte, negócio e imagem.

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No final, como um dos executivos escreveu, o problema maior não foi quem tinha razão. Foi que “a confusão passou a ser a história” — e isso, em Hollywood, é quase sempre o pior dos finais 🎬.

“Wonder Man” Surpreende Tudo e Todos: A Série da Marvel Que Já Está no Topo da Crítica

Com 96% no Rotten Tomatoes, a nova aposta do MCU torna-se um caso sério… apesar do silêncio promocional

Quando parecia que o Marvel Cinematic Universe já não conseguia voltar a surpreender pela positiva, surge Wonder Man — discretamente, quase às escondidas — para baralhar as contas. Estreada a 27 de Janeiro, sem grande campanha de promoção e lançada em formato binge, a série está a conquistar a crítica de forma esmagadora, ao ponto de já ostentar o segundo melhor resultado de sempre do MCU no Rotten Tomatoes.

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À data de escrita deste artigo, Wonder Man soma 96% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes. Um número impressionante por si só, mas ainda mais relevante se tivermos em conta o contexto: uma fase recente do universo Marvel marcada por recepção morna, desgaste criativo e divisões claras entre fãs e críticos.

Um resultado histórico para uma série “esquecida” no lançamento

O mais curioso é que Wonder Man não chegou com o peso mediático habitual das grandes produções da Marvel. Sem trailers omnipresentes, sem tapetes vermelhos mediáticos e sem semanas de antecipação nas redes sociais, a série parecia destinada a passar despercebida. A ironia? É precisamente esse projecto “menor” que agora surge empatado como segundo melhor avaliado de sempre em todo o universo cinematográfico e televisivo da Marvel.

Neste momento, o ranking histórico de pontuações no Rotten Tomatoes coloca Wonder Man ao lado de pesos-pesados absolutamente consagrados:

  • Ms. Marvel – 98%
  • Wonder Man – 96%
  • Black Panther – 96%
  • Agents of S.H.I.E.L.D. – 95%
  • Avengers: Endgame – 94%
  • Iron Man – 94%
  • Thor: Ragnarok – 93%
  • Spider-Man: No Way Home – 93%
  • Spider-Man: Homecoming – 92%
  • Shang-Chi – 92%
  • WandaVision – 92%

O facto de Wonder Man surgir neste grupo diz muito sobre a qualidade da série — e talvez ainda mais sobre as expectativas surpreendentemente baixas com que foi recebida.

O que está a funcionar em “Wonder Man”?

Sem entrar em território de spoilers, a recepção crítica tem destacado uma abordagem mais fresca, autoconsciente e segura de si própria. Wonder Man parece saber exactamente o que quer ser: uma série que dialoga com o legado do MCU, mas que não se deixa esmagar por ele.

Num período em que várias produções recentes da Marvel foram acusadas de excesso de fórmulas recicladas, Wonder Man destaca-se pela clareza narrativa, pelo tom consistente e por personagens que funcionam para lá da simples função de “peças” num universo maior. É uma série que não parece desesperada por preparar o próximo grande evento — e talvez seja isso que a torna tão eficaz.

Um sinal de esperança para o futuro do MCU?

O sucesso crítico de Wonder Man surge num momento delicado para a Marvel. A fadiga do público é real, os resultados de bilheteira já não são garantidos e a crítica tem sido cada vez menos indulgente. Neste contexto, o triunfo silencioso da série pode funcionar como um aviso interno: talvez menos ruído promocional e mais foco criativo seja o caminho.

Se esta pontuação se mantiver — e tudo indica que sim — Wonder Man poderá tornar-se um caso de estudo dentro do próprio estúdio. Uma série lançada quase sem alarido que acaba por conquistar um lugar cimeiro na história crítica do MCU não é coisa pequena.

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Resta agora saber se o público acompanhará a crítica… ou se Wonder Man ficará como aquele segredo bem guardado que merecia ter sido descoberto mais cedo 🎬.

Óscares 2026: As Grandes Omissões (e as Surpresas) Que Dizem Mais do Que os Vencedores

Entre recordes, ausências gritantes e apostas inesperadas, as nomeações voltam a revelar o estado de Hollywood

As nomeações para os Óscares 2026 trouxeram um misto de espanto e previsibilidade. Por um lado, Sinners entrou directamente para a história com 16 nomeações, um recorde absoluto. Por outro, alguns dos melhores filmes e interpretações do ano ficaram inexplicavelmente de fora. E como a própria Amanda Seyfried lembrou recentemente, ganhar um Óscar não é sinónimo de carreira bem-sucedida — mas uma omissão continua a doer, sobretudo quando revela contradições difíceis de ignorar.

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Ao longo da história da Academia, os snubs (essas exclusões dolorosas) acabaram por ser, muitas vezes, um barómetro mais honesto do cinema de um determinado ano do que os próprios vencedores. Em 2026, não é diferente.

Surpresa: “Train Dreams” | Omissão: Joel Edgerton

A estreia da nova categoria de Melhor Casting parecia feita à medida de filmes como One Battle After AnotherSinnersou Hamnet. Ainda assim, Train Dreams conseguiu a proeza de ser nomeado para Melhor Filme… sem qualquer nomeação para os seus actores. A ausência de Joel Edgerton, protagonista absoluto, levanta uma pergunta incómoda: o que torna um filme digno de Melhor Filme se não as interpretações que o sustentam?

Omissão: “Avatar: Fire and Ash”

É oficial: pela primeira vez, um filme da saga Avatar ficou fora da corrida a Melhor Filme. Avatar: Fire and Ash até marca presença noutras categorias técnicas, mas a Academia parece ter perdido o deslumbramento com o universo criado por James Cameron. Eywa continua viva em Pandora — mas claramente ausente em Hollywood…

Surpresa (e polémica): “F1”

Talvez a nomeação mais inesperada do ano. F1 chega a Melhor Filme depois de dominar o box office de Verão, mas a decisão divide opiniões. O filme funciona como thriller desportivo competente, mas é difícil ignorar o seu lado promocional da Fórmula 1. Mais estranho ainda: ficou fora de Melhor Fotografia, a categoria onde parecia ter caminho aberto.

Omissão: Paul Mescal em “Hamnet”

Em HamnetPaul Mescal assume um papel secundário — e é precisamente isso que torna a sua ausência tão curiosa. Num filme nomeado para Melhor Filme, Realização, Argumento Adaptado e Casting, a exclusão de um dos intérpretes-chave soa a incoerência. Especialmente quando Jessie Buckley surge como forte favorita.

Surpresa: Delroy Lindo em “Sinners”

Nem todas as histórias são de frustração. A nomeação de Delroy Lindo para Actor Secundário é um dos momentos mais celebrados do ano. A sua personagem em Sinners protagoniza uma das cenas mais intensas e memoráveis de 2025 — e, no meio de um recorde histórico de nomeações, esta pode ser finalmente a consagração que lhe escapava há décadas.

Omissão: Odessa A’Zion em “Marty Supreme”

Se Marty Supreme está nomeado para Melhor Casting, a ausência de Odessa A’Zion torna-se difícil de justificar. Num ano de afirmação e visibilidade crescente, a actriz entregou uma das interpretações secundárias mais vibrantes de 2025 — e foi ignorada.

Omissão total: “No Other Choice”

Talvez o caso mais gritante. No Other Choice, de Park Chan-wook, ficou fora de todas as categorias, incluindo Filme Internacional. É mais um capítulo estranho na relação da Academia com um dos autores mais respeitados do cinema contemporâneo, ainda sem qualquer Óscar no currículo.

Quando os Óscares falam… e quando se calam

veja aqui os candidatos: Um Ano para a História dos Óscares: “Sinners” Arrasa Nomeações e Reescreve o Livro dos Recordes

As nomeações de 2026 mostram uma Academia dividida entre abertura e conservadorismo, espectáculo e autor, técnica e emoção. Como sempre, os prémios dirão quem vence — mas as omissões já disseram muito sobre o momento actual de Hollywood 🎬.

John Hurt e “O Homem Elefante”: O Papel Que Doeu no Corpo — e Mudou a História dos Óscares

O nascimento de uma interpretação lendária e o sacrifício invisível por detrás da maquilhagem

Assinala-se hoje o aniversário de John Hurt (23 de Janeiro de 1944 – 19 de Julho de 2017), um dos actores mais respeitados e versáteis da história do cinema. Entre dezenas de papéis memoráveis, há um que continua a definir a grandeza do seu talento e da sua entrega absoluta: O Homem Elefante, realizado por David Lynch.

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Lançado em 1980, o filme tornou-se imediatamente um marco emocional e artístico, mas poucos imaginavam, na altura, o verdadeiro preço físico e psicológico pago por John Hurt para dar vida a John Merrick.

Doze horas para se transformar — todos os dias

A maquilhagem que transformava Hurt em Merrick era uma proeza técnica inédita. Demorava cerca de 12 horas a ser aplicada diariamente, num processo concebido por Christopher Tucker. O próprio actor confessaria mais tarde que, ao perceber o impacto da transformação, pensou: “Eles encontraram uma forma de eu não gostar de fazer um filme.”

No primeiro dia de rodagem, completamente caracterizado, Hurt entrou no estúdio com medo. Medo real. Temia que alguém risse, que um gesto impensado quebrasse a delicada ilusão emocional construída à sua volta. Esse receio dissipou-se num silêncio absoluto — apenas interrompido por Anthony Hopkins, que, com serenidade, disse: “Vamos fazer o teste.” A partir daí, a magia aconteceu.

Humanidade sob camadas de látex

Apesar da prótese pesada e limitadora, John Hurt construiu uma interpretação profundamente humana, delicada e devastadora. Cada movimento, cada olhar, cada pausa carregava dignidade. O público não via o monstro — via o homem.

Curiosamente, Hurt era fumador inveterado e conseguiu, de alguma forma, continuar a fumar durante as longas horas no plateau, mesmo envolto na complexa maquilhagem facial. Um detalhe quase surreal que diz muito sobre a resistência física exigida pelo papel.

No final das filmagens, Hurt guardou o molde da cabeça de Merrick num armário em casa. Anos mais tarde, a sua casa foi assaltada. Nada foi roubado. Segundo contou com humor, o ladrão terá aberto o armário, visto a máscara… e fugido em pânico.

Um filme que criou uma categoria dos Óscares

Quando as nomeações para os 53.º Óscares foram anunciadas, em 1981, a indústria ficou chocada: O Homem Elefantenão foi distinguido pela maquilhagem. Na altura, ainda não existia uma categoria regular para esse trabalho, apenas prémios especiais atribuídos esporadicamente.

A indignação foi tanta que uma carta formal de protesto foi enviada à Academy of Motion Picture Arts and Sciences. A Academia recusou atribuir um prémio retroactivo, mas reconheceu o erro histórico. No ano seguinte, nasceu oficialmente o Óscar de Melhor Maquilhagem — uma mudança directamente motivada por este filme.

Ironia do destino: obras anteriores como Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1931), O Feiticeiro de Oz (1939) ou O Corcunda de Notre-Dame (1939) nunca puderam ser premiadas na categoria que ajudaram a justificar.

Um legado que continua a comover

John Hurt morreu em 2017, mas a sua interpretação em O Homem Elefante permanece como uma das mais emocionantes da história do cinema. Um papel que exigiu sofrimento físico, disciplina extrema e uma empatia rara — dentro e fora do ecrã 🎬.

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Hoje, mais do que celebrar um aniversário, celebramos um actor que provou que a verdadeira beleza do cinema nasce, muitas vezes, do sacrifício silencioso.

Rutger Hauer: O Actor Que Trouxe Humanidade aos Monstros do Cinema

Uma carreira irrepetível, entre o cinema europeu e Hollywood, marcada por personagens intensas e inesquecíveis

Assinala-se hoje o nascimento de Rutger Oelsen Hauer (23 de Janeiro de 1944 – 19 de Julho de 2019), um dos actores mais singulares da história do cinema moderno. Holandês de origem, cidadão do mundo por vocação artística, Hauer construiu uma carreira absolutamente extraordinária: mais de 170 papéis ao longo de quase 50 anos, atravessando o cinema europeu de autor, Hollywood e até a publicidade, sempre com a mesma intensidade magnética no olhar.

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Em 1999, o reconhecimento foi oficial e simbólico: o público dos Países Baixos escolheu Rutger Hauer como Melhor Actor Holandês do Século, uma distinção que resume bem o impacto duradouro do seu trabalho.

Das raízes holandesas ao reconhecimento internacional

A carreira de Hauer começou em 1969, no papel principal da série televisiva Floris, mas foi no cinema que rapidamente se afirmou. O grande ponto de viragem deu-se com Turkish Delight, filme que viria a ser eleito, também em 1999, Melhor Filme Holandês do Século.

Seguiram-se colaborações decisivas com o realizador Paul Verhoeven, em títulos como Soldier of Orange e Spetters, que abriram definitivamente as portas de Hollywood.

Roy Batty e a imortalidade cinematográfica

Nos Estados Unidos, Rutger Hauer rapidamente se destacou, mas foi em Blade Runner que alcançou a verdadeira imortalidade cinematográfica. Como Roy Batty, o replicante consciente da sua própria morte, Hauer criou uma das personagens mais complexas e emocionantes da ficção científica. O famoso monólogo final — improvisado em parte pelo próprio actor — continua a ser estudado, citado e celebrado como um dos momentos mais humanos do cinema.

A partir daí, seguiram-se títulos hoje clássicos: LadyhawkeThe HitcherEscape from SobiborThe Legend of the Holy Drinker ou Blind Fury. Hauer tinha o raro talento de tornar memorável qualquer papel, fosse herói, vilão ou algo indefinido entre ambos.

Um actor sem preconceitos artísticos

A partir dos anos 90, Hauer optou por uma carreira mais livre, alternando filmes de baixo orçamento com participações em grandes produções como Batman BeginsSin City ou The Rite. Nunca pareceu preocupado com estatuto ou prestígio, mas sim com o prazer de interpretar.

Nos últimos anos, regressou ao cinema holandês e foi distinguido com o Prémio Rembrandt de Melhor Actor, graças ao filme The Heineken Kidnapping.

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Um legado que não se apaga

Rutger Hauer morreu a 19 de Julho de 2019, vítima de cancro do pâncreas, aos 75 anos, na sua casa nos Países Baixos. Deixou um legado raro: o de um actor que nunca teve medo de ser estranho, intenso ou profundamente humano. Poucos conseguiram, como ele, fazer com que até os monstros parecessem compreender-nos melhor do que nós próprios 🎬.

“Empatia” — A Série Canadiana Que Entra Onde Dói (E Não Desvia o Olhar)

Fragilidade humana, saúde mental e dilemas morais no centro de um retrato íntimo e perturbador

Estreia segunda-feira, 26 de Janeiro, às 22h10, no TVCine Edition, a primeira temporada de Empatia, uma série canadiana que mergulha de forma frontal e profundamente humana no interior de um serviço psiquiátrico. Longe de clichés televisivos e soluções fáceis, Empatia propõe um olhar atento sobre a dor, a escuta e os limites da própria empatia — essa palavra tantas vezes usada, mas raramente explorada com esta densidade.  

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Criada, escrita e protagonizada por Florence Longpré, a série acompanha Suzanne Bien-Aimé, uma ex-criminologista que decide mudar radicalmente de percurso e ingressar como psiquiatra no Instituto Mont-Royal. O que começa como uma transição profissional transforma-se rapidamente num confronto intenso com histórias de violência, perda e instabilidade emocional que desafiam tudo aquilo que Suzanne julgava saber sobre saúde mental — e sobre si própria.

Um quotidiano onde cada caso deixa marcas

No dia a dia do instituto psiquiátrico, Suzanne acompanha pacientes internados com percursos profundamente marcados pelo trauma. São histórias duras, muitas vezes desconfortáveis, que a série nunca suaviza nem transforma em espectáculo. Pelo contrário, Empatia constrói-se a partir do detalhe, do silêncio e da observação paciente, revelando um sistema onde cada decisão clínica carrega consequências humanas reais.

Entre consultas, intervenções de emergência e reuniões de equipa, Suzanne estabelece uma relação próxima com Mortimer, um agente de intervenção que conhece como poucos os bastidores da instituição e as suas zonas cinzentas. Esta ligação torna-se um dos eixos emocionais da narrativa, ajudando a série a explorar o contraste entre teoria, prática e desgaste psicológico dos profissionais que ali trabalham.

O passado que insiste em regressar

À medida que os episódios avançam, Empatia revela que Suzanne não é apenas uma observadora. O seu passado traumático começa a emergir, influenciando decisões clínicas, relações profissionais e escolhas pessoais. A série recusa a ideia de neutralidade absoluta: aqui, quem cuida também carrega feridas, e a fronteira entre empatia e envolvimento excessivo é perigosamente ténue.

Esta abordagem confere à série uma honestidade rara. Empatia não procura respostas definitivas nem moralismos fáceis. Prefere levantar perguntas incómodas: até onde deve ir a empatia? Quando é que compreender o outro começa a destruir quem cuida?

Uma realização contida e um elenco sólido

Com realização de Guillaume Lonergan, a série aposta numa linguagem visual discreta, quase clínica, que reforça a sensação de intimidade e realismo. Não há música invasiva nem dramatização excessiva — tudo serve a verdade emocional das personagens.

Além de Florence Longpré, o elenco conta com Thomas NgijolAdrien Bletton e Malube Uhindu-Gingala, compondo um conjunto de interpretações contidas, humanas e profundamente credíveis.

Um drama que não se esquece facilmente

Empatia não é uma série confortável — e é precisamente aí que reside a sua força. Ao retratar o interior de um serviço psiquiátrico com respeito, rigor e sensibilidade, recusa simplificar a dor humana ou transformar o sofrimento em entretenimento ligeiro. É uma série que exige atenção, disponibilidade emocional e vontade de escutar.

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A primeira temporada estreia 26 de Janeiro, às 22h10, no TVCine Edition, com novos episódios todas as segundas-feiras, estando também disponível no TVCine+. Uma proposta forte, adulta e necessária para quem acredita que a televisão pode — e deve — ser mais do que distracção 📺🧠

Os Melhores Filmes de 2025 Regressam ao Grande Ecrã: O Ciclo Imperdível do Cinema Nimas

Dez filmes essenciais (e mais uma surpresa) para (re)ver em Lisboa entre Janeiro e Fevereiro

Entre 23 de Janeiro e 18 de Fevereiro, o Cinema Medeia Nimas transforma-se no ponto de encontro obrigatório para quem leva o cinema a sério. A Medeia Filmes apresenta o ciclo “Os Melhores do Ano 2025”, uma selecção criteriosa que cruza listas nacionais e internacionais com escolhas apaixonadas — os tais crushes cinéfilos que ajudam a definir um ano memorável nas salas escuras.

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O resultado são dez filmes essenciais e um “extra” especialLavagante, uma das grandes surpresas do final do ano, que conquistou público e crítica e mereceu, por direito próprio, um lugar neste alinhamento. Muitos dos títulos continuam, aliás, a fazer o seu percurso na época de prémios, pelo que desta lista sairão certamente alguns dos filmes distinguidos nos Óscares. Para quem perdeu na estreia — ou quer rever no ecrã certo — esta é a oportunidade.

Um mapa do melhor cinema contemporâneo

O ciclo desenha um retrato plural do cinema recente: do autor europeu à grande produção americana, do cinema político ao experimental, passando por obras que desafiam géneros e expectativas. É um programa que pede tempo, curiosidade e entrega — exactamente aquilo que o cinema merece.

Entre os destaques está Sirât, de Oliver Laxe, uma experiência intensa e física que confirma o realizador como uma das vozes mais singulares do cinema europeu actual. Também O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, regressa ao grande ecrã, reforçando o estatuto do cineasta brasileiro como um cronista atento do poder, da memória e da resistência.

O cinema de autor internacional marca forte presença com The Shrouds – As Mortalhas, onde David Cronenberg volta a explorar obsessões antigas através de novas formas, e com Verdades Difíceis, que confirma Mike Leigh como um mestre absoluto da observação humana.

Política, exílio e resistência

Há também espaço para o cinema que olha o mundo de frente. Foi Só Um Acidente, de Jafar Panahi, e A Semente do Figo Sagrado, de Mohammad Rasoulof, são exemplos claros de um cinema que nasce da urgência política e da experiência do exílio, transformando a adversidade em matéria cinematográfica de primeira linha.

O mesmo espírito atravessa O Riso e a Faca, de Pedro Pinho, apresentado numa sessão especial com apresentação, sublinhando a importância do diálogo entre filme, contexto e público.

Hollywood de autor e grandes nomes

Do outro lado do Atlântico, Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson, representa o cinema americano de autor no seu esplendor máximo, com um elenco liderado por Leonardo DiCaprio. Um filme-evento que confirma Anderson como um dos grandes cronistas da América contemporânea.

O “extra” que ninguém viu chegar

E depois há Lavagante, de Mário Barroso. Fora das listas mais previsíveis, mas dentro do coração de quem o viu, o filme afirma-se como uma das revelações de 2025, justificando plenamente o estatuto de “mais um” neste ciclo que celebra o melhor do ano.

Datas, horários e a sala certa

As sessões decorrem ao longo de várias datas, com reposições estratégicas de alguns títulos, permitindo diferentes opções de horário. Tudo acontece no Cinema Medeia Nimas, em Lisboa, uma das salas históricas da cidade e o local ideal para um ciclo que pede atenção, silêncio e amor pelo grande ecrã 🎬.

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Mais do que um simples conjunto de exibições, “Os Melhores do Ano 2025” é um convite à memória recente do cinema — e uma afirmação clara de que ver filmes continua a ser um acto colectivo, vivido melhor numa sala escura.

“Shelter: Sem Limites” — Jason Statham Enfrenta o Passado Num Thriller de Sobrevivência à Beira do Abismo

Um homem isolado, uma jovem em perigo e uma ilha onde não existe refúgio possível

Há filmes que não precisam de grandes voltas para deixar clara a sua proposta. Shelter: Sem Limites é um deles. Com estreia marcada em Portugal para 5 de Fevereiro, o novo thriller protagonizado por Jason Statham aposta numa combinação clássica — isolamento, redenção e violência inevitável — para contar uma história onde o instinto de sobrevivência fala sempre mais alto.

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Com o título original Shelter, o filme transporta-nos para uma ilha escocesa remota, um cenário agreste e implacável que funciona quase como mais uma personagem. É aqui que vive um homem recluso, afastado do mundo e claramente a fugir de um passado que prefere não revisitar. A tranquilidade forçada da sua existência termina no momento em que resgata uma jovem do mar, um acto aparentemente simples que desencadeia uma sucessão de acontecimentos cada vez mais perigosos.

Quando salvar alguém significa declarar guerra

A jovem resgatada, interpretada por Naomi Ackie, não é apenas uma vítima indefesa. A sua presença traz consigo ameaças invisíveis, inimigos determinados e segredos que rapidamente colocam o protagonista na mira de forças implacáveis. Aquilo que começou como um gesto de humanidade transforma-se numa luta brutal pela sobrevivência, obrigando o personagem de Statham a confrontar tudo aquilo que tentou deixar para trás.

O filme constrói a sua tensão a partir dessa ideia simples, mas eficaz: não existe salvação sem consequências. Cada passo dado para proteger a jovem aproxima o protagonista de um passado violento que volta a reclamar o seu preço.

Acção crua e personagens com peso

Na realização está Ric Roman Waugh, conhecido por thrillers de acção de tom sério e físico, onde a violência não é estilizada nem glorificada. Em Shelter: Sem Limites, essa abordagem traduz-se em confrontos directos, poucos diálogos explicativos e uma narrativa que confia mais nas acções do que nas palavras.

O elenco conta ainda com Bill Nighy, cuja presença acrescenta densidade dramática a um filme que, apesar de assente na acção, não abdica de trabalhar temas como culpa, isolamento e redenção. Não estamos perante um herói clássico, mas sim um homem quebrado, empurrado para a violência porque todas as outras opções lhe foram retiradas.

Um thriller pensado para o grande ecrã

Visualmente, o filme tira partido da paisagem escocesa para criar uma atmosfera fria, opressiva e permanentemente ameaçadora. O isolamento geográfico reforça a ideia central da história: quando não há para onde fugir, resta apenas resistir.

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Shelter: Sem Limites não promete reinventar o cinema de acção, mas entrega exactamente aquilo que propõe — um thriller intenso, seco e eficaz, sustentado por um protagonista que sabe ocupar o centro do ecrã como poucos. Para os fãs de Jason Statham, é mais uma variação sólida do seu arquétipo preferido; para os restantes, um filme de tensão constante onde cada decisão pode ser a última 💥🎬.

A estreia acontece a 5 de Fevereiro, nas salas de cinema portuguesas.