
Andy Kaufman nunca foi um comediante convencional. Foi um provocador, um artista do desconforto, um ovni cómico que preferia deixar o público confuso do que a rir. Ora, quando se anuncia mais um documentário sobre ele, a primeira reacção natural é: “Ainda?”. Afinal, já tivemos o biopic Man on the Moon com Jim Carrey (e o documentário da Netflix Jim & Andy sobre esse mesmo papel!), já tivemos livros, milhões de teorias sobre a sua morte (ou não-morte), e já aceitámos que tentar explicar Kaufman é um exercício de futilidade.
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E no entanto, aqui está Thank You Very Much, que se atira de cabeça ao desafio: encontrar um método no caos, uma lógica no absurdo. O filme de Alex Braverman (filho do produtor do famoso especial de Kaufman no Carnegie Hall) recorre a material inédito, gravações caseiras, chamadas telefónicas (em que Andy admite ter ponderado fingir a própria morte) e uma tonelada de imagens dos seus momentos mais… desconcertantes.
Não faltam clássicos: desde a sua estreia no Saturday Night Live, até ao momento em que interrompe um talk-show para tocar pratos e cantar “You’ll Never Walk Alone”. Sim, tudo autêntico. E, claro, a infame fase de lutador de wrestling misógino, onde desafiava mulheres para o ringue com a graça e subtileza de um troll de fórum online. Provocação pura? Sim. Mas também, talvez, um espelho desconfortável da sociedade.
O documentário tenta montar a peça do puzzle chamada Andy com ajuda de amigos e colegas: Danny DeVito, Marilu Henner, Steve Martin, Laurie Anderson (sim, eram cómplices!) e o inseparável Bob Zmuda. Todos contribuem com memórias e interpretações psicoanalíticas que fariam corar Freud. Spoiler: a morte do avô, que os pais tentaram disfarçar dizendo que ele estava “a viajar”, pode ter marcado para sempre o seu estilo de humor baseado em ausências, rejeições e silêncios constrangedores.
Mas será que Andy Kaufman quereria um documentário reverente sobre si? Provavelmente não. Aliás, metade do tempo parece que o próprio Braverman está a ser manipulado do além. Será que tudo isto é mais uma camada do grande embuste? Um documentário falso a homenagear o maior mentiroso do humor?
Talvez. Ou talvez seja apenas uma carta de amor a um artista que redefiniu o conceito de comédia. Que se vestia de estrangeiro, tocava bongós e desconstruía a própria performance ao vivo. Para os curiosos e para os nostálgicos, Thank You Very Much é uma viagem divertida e por vezes comovente à mente de um génio anarquista.
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Mas há uma pergunta que continua por responder: qual era, afinal, o ponto de tudo isto? Provavelmente, não havia um. E talvez essa seja mesmo a piada final de Andy Kaufman.
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